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Os Últimos Dias - Prólogo - Sombras da Guerra

Uma fina camada de gelo sujo cobria as terras devastadas do reino naquela tarde. Nos campos, os corpos dos soldados dispostos da maneira que tombaram em combate eternizavam os momentos finais de uma batalha sangrenta que se estendeu por todo aquele dia. Os muros da cidadela próxima ardiam nas chamas da danação unindo no fim nobres e plebeus, e a fumaça negra que subia em golfadas irritadiças caia em flocos junto com a neve.

Um único homem se arrastava lentamente em meio aos mortos, puxando a perna direita ferida por uma flecha enquanto avançava, afastando-se dos muros negros do castelo. Seu olhar se perdia no horizonte longínquo que escorria por entre as montanhas ao leste, e mesmo vacilando a cada passo não ousava parar ou olhar para trás.

Tropeçava a esmo, ignorando a dor do ferimento. O elmo fendido por um golpe de sabre cortava-lhe o rosto deixando o sangue rubro escorrer generosamente pela face. Da boca ferida escapava o calor da respiração pesada, dançando no ar. Caminhou assim, quase em transe por toda a colina até a borda do platô em que foi erguido o castelo do Rei de Vyr. O vento soprava mais forte ali, à poucos metros do profundo abismo que o separava do fosso.

Correndo os olhos, pôde observar todo o longo caminho percorrido pelas tropas desde que deixaram Zarrus semanas antes, matando todos aqueles que encontravam pelo caminho, as vilas que incendiaram após saqueá-las e por fim os locais onde, combatendo as tropas enviadas de Lannus pelo falso rei, enfrentaram a última batalha na Colina do Castelo, o refúgio de Achenedai.

Apoiando-se em uma rocha, retirou dolorosamente o elmo, deixando um pequeno suplício de dor escapar. Fez o mesmo com o corselete feito com pequenas argolas metálicas que lhe serviram toscamente como proteção durante o longo combate, e pousou a ambos à sua direita. Demorou-se olhando para a espada em suas mãos, o fio marcado pelos muitos golpes.

Ajoelhou-se ali, sem tirar os olhos da velha espada. Correu a mão por toda a sua extensão, sentindo o ferro frio através das luvas rasgadas. Espelhou-se no metal por alguns instantes, procurando no reflexo de seus olhos alguma saída desesperada, mas nada encontrou. Resoluto, a ergueu em direção aos céus, e com um gesto rápido, atravessou-a em seu peito.

Um grito agonizante ecoou pelas paredes do castelo em chamas espalhando-se pelo vale. Dos céus caiu uma coluna de energia azulada pela qual centenas de milhares de rostos em pânico, devorados pela dor e pelo medo gritavam em uníssono, reforçando o brado do guerreiro caído enquanto rodopiavam em uma espiral insana.

Como um tufão infernal, a luz devorou com fúria os campos de combate e percorreu em uma fração de segundo a distância que os soldados levaram semanas inteiras para vencer, explodindo de encontro às montanhas distantes. O silêncio sepulcral era tão denso que podia ser sentido quando o guerreiro caído abriu os olhos, agora sem vida, e sorriu.

A guerra ainda não teria um fim.
Armageddon
Enviado por Armageddon em 24/10/2006
Reeditado em 22/02/2008
Código do texto: T272435
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Sobre o autor
Armageddon
Timbó - Santa Catarina - Brasil, 33 anos
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