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Os Últimos Dias - Ato I - O Soldado

O frio de morte que cobria o mundo era ainda mais intenso naquela noite. Pois o inverno implacável em breve iria recair sobre os vales do rio Narun em Deanor. Evidentemente àquela altura ninguém, nem mortal nem deus, poderia prever quanto mal e sofrimento aqueles ventos frios trariam não apenas ao reino, mas a todo o mundo de Meliny. O mal, sutil e letal que espalhava suas raízes em todas as direções, tramando.

As peças que a muito haviam sido preparadas estavam agora prontas. Cada qual em sua longa jornada através dos tempos esperava ansiosa pelo seu momento de brilhar. Quase duzentos anos foram necessários para que tudo estivesse pronto. Para que o plano transcorresse plenamente sem falhas. Bastava apenas que agora o idealizador de tudo o que viria a ocorrer durante os dias que viriam desse o primeiro passo. Um leve toque que mudaria o destino de um mundo.

Não havia espaço para sorte ou imprevistos, e a Sombra sabia disso. Foi por isso que esperou pacientemente, apesar da dor e da urgência que lhe corroíam o íntimo. Dor. O significado desta palavra havia atingido novas proporções no passar das eras. Até os deuses sucumbiam a ela, mas a Sombra de todo o mal havia se mostrado perene. Feito as escolhas certas, lutado para vencer. Sempre.

Desde que se lembrava, o que era muito, havia errado apenas uma vez. Escolhera mal seu sucessor, e fora traído. Não levara em consideração a ambição inerentes àqueles que o seguiam, e este foi o decreto final de seu longo reinado. A derrota havia lhe custado a vida, a liberdade e tudo o mais que prezara ao longo dos séculos. Mas ele aprendeu. E o momento da vingança havia chegado.

As mãos ósseas avançaram lenta mas decidida, pois conheciam seu alvo. Tocaram a fronte de uma jovem eleita. Adúltera, vingativa e desesperada. Apenas um leve empurrão seria mais do que suficiente. E a partir dela a onda teria início. E nem mesmo a Sombra poderia controlá-la mais. E isso a satisfez, como a muito nada mais satisfazia.

Pois foi para a Guerra que ela nascera. E seria na guerra que seu destino seria selado.

Ato I
O Soldado

Sargan, o deus sol, começou sua jornada pelos céus de Meliny, a bordo de Phaélius, a embarcação de luz e fogo que lhe proporcionou a vitória sobre Lantaris, a mãe noite, no segundo confronto entre ambos pelos domínios celestes. Naquele ano, Deanor, a maior nação humana ao sul de Meliny, estava sofrendo com o outono mais frio de todos os tempos. O calor fraco do amanhecer fazia pequenas espirais de vapor subirem com o degelo lento da neve. A luz galgava as muralhas da cidade fortaleza de Narun, cobrindo a Montanha Branca e iluminando as passarelas e túneis que formavam o primeiro entreposto civilizado entre o continente sul e o norte após a cidade de Geneza.

O toque das trombetas anunciava a troca de turnos, quando os soldados poderiam abandonar as torres e as muralhas geladas e recolherem-se até suas casas rusticamente escavadas na pedra pelos anões quase dois séculos antes. Seriam substituídos pela guarda diurna que manteria a eterna vigilância em direção ao nordeste, onde estava o Vale Maldito de Forgia, hoje sob domínio orc. Era em Forgia que vivia o real perigo e mal que assolava o mundo. A Sombra que retornara após seu sono de séculos.

Em parte alheio a isto em seu posto, Hector Taylor marcava toscamente a sua saída em um pequeno papel de controle. Todas as ações dos soldados eram devidamente registradas pelos escribas da nação, e encontrar o culpado por desatenção ou descumprimento do dever era de certa forma simples. A justiça deveria ser aplicada igualmente a todos. E isso não era diferente para Taylor.

Mesmo sendo filho do Grande Regente e General das Tropas de Deanor, um dos homens mais importantes e poderosos de toda a Nação, o líder militar dos exércitos de Narun, ele nunca foi reconhecido como tal. Para o pai, apenas o poder em combate interessava, e era exatamente por isso que Hector se esforçava tanto para ser sempre o melhor no que fazia. Queria mostrar para o Grande General, seu pai, que ele merecia a sua confiança.

Contudo, seu atual posto não permitia de imediato grandes atos de bravura. Sendo relegado a uma torre na segunda muralha interna e voltada em direção contrária ao inimigo, Hector não faria falta mesmo se deixasse de comparecer ao trabalho. Sempre aspirou tornar-se um Guerreiro da Nação - um soldado de campo - vagando pelas estradas e levando a força da lei do reino aos fracos, mas a cada noite tediosa este sonho parecia mais distante. Mesmo assim, não pretendia manchar sua ficha de forma alguma e jamais deixava de cumprir com suas obrigações. Na sua mente, aquilo poderia ser sua ruína em caso de dúvida entre ele ou outro soldado mais qualificado para uma promoção.

Hector, apesar da pouca idade, era bastante robusto. Seus cabelos castanhos e lisos eram mantidos soltos sobre os ombros, e apenas a barba por fazer transparecia certo desleixo consigo próprio. Os olhos de um azul profundo estavam encolhidos pelo sono, e a face austera, com um queixo pontudo e firme, avermelhada pelo frio. Após a dispensa, desceu pelas escadas em caracol entalhadas em uma rocha cônica que lhe servia de torre e encaminhou-se até a praça comercial de Narun, onde as tavernas serviam uma refeição simples devorada com vontade pelos famintos soldados. Freqüentava a Taverna do Grifo, mas sem nenhum motivo em especial. Alguns inclusive diziam que nada do que Hector fazia tinha realmente algum motivo especial.

Adentrou pela porta grande de madeira escura e sentou-se na mesma cadeira que ocupava todos os dias perdendo-se em devaneios além da vista que tinha da janela. Para muitos, a cidade de Narun não era exatamente bonita com suas ruas e vielas de pedra cobertas de gelo quase que todo o ano, mas ninguém podia afirmar que dali a visão do horizonte não era impressionante. Podia-se correr com os olhos centenas de quilômetros através das florestas e rios gélidos que serpenteavam pelas reentrâncias das planícies até colidir com as montanhas ao fundo. Tão distantes e imaculadas que pareciam irreais.

Permaneceu ali apático vagueando pelos caminhos que jamais conhecera por pouco tempo. Não tardou para que Durio, o taverneiro gordo com um velho avental amarelado e manchado de café lhe trouxe-se uma caneca fumegante e as perguntas que fazia mais por hábito do que por curiosidade. Gabava-se por conhecer seus clientes mais assíduos, e esforçava-se para demonstrar isto a todos eles.

- Bom dia, seu Taylor - falou, enquanto passava um pano na mesa já limpa por puro reflexo, fungando um pouco devido à gripe que costumeiramente lhe atacava quando o clima mudava daquela forma. As gengivas avermelhadas, feridas pela pouca higiene mostravam alguns poucos dentes frouxos pendendo na boca. O hálito era pior ainda do que o estado dos trapos que vestia - Como foi o turno?

- Normal - respondeu Hector sem dar muita importância, restrintindo-se a afastar-se um pouco do falante anfitrião. - Como sempre, está tudo tranqüilo.

Um dos detalhes que chamavam a atenção para Hector e o tornava uma figurinha fácil nas pilhérias dos companheiros era a sua maneira exageradamente pausada de falar. Os de língua mais afiada afirmavam que ele era incapaz de dizer meia frase sem parar e pensar novamente no que dizer. Outros questionavam como um general brilhante como Taylor poderia ter um filho com um intelecto tão reduzido quanto o de Hector Taylor. Se tais comentários nunca chegaram aos ouvidos do soldado, ou se ele simplesmente não se importava com eles era algo desconhecido por todos.

- Poderia me deixar um pouco sozinho? - pediu enfim sem desviar o olhar da janela. Durio, que já esperava por aquilo, apenas confirmou sorrindo, os mesmos dentes frouxos a mostra e partiu em busca de um cliente mais falador para tomar-lhe o tempo.

Após sorver dois ou três goles do café a paisagem começou a lhe parecer enfadonha e Hector passou a observar os outros freqüentadores do Grifo. Geralmente eram apenas alguns soldados em fim de turno ou um e outro velho guerreiro que exagerava na bebida e não lembrava mais em que parte da cidade morava. Naquela manhã, porém, uma jovem de cabelos castanhos e um belo corpo delicadamente coberto por um vestido vermelho longo estava na mesa do fundo observando aflita a porta de entrada. Provavelmente esperando alguém.

De fato, instantes depois, um jovem soldado de corpo troncudo e porte guerreiro adentrou pelo salão. Sorrindo e falando alto, sentou-se à mesa da jovem, e com um vigoroso puxão trouxe a menina mais próxima a ele. A moça não protestou, apesar de mostrar claros sinais de descontentamento. O soldado, de nome Ivan, estava radiante, contando e recontando a rotina habitual dos turnos de guarda como se fossem façanhas dignas dos maiores heróis, de forma claramente enfadonha para todos que se prestaram a ouvir.

- Bom dia Ivan - era Durio casualmente aproximando-se da mesa, e tornando a limpa-la por reflexo, removendo algumas migalhas de pão imaginárias. Ivan o recebeu com uma cortesia exagerada, talvez desejoso de fazer graça com o taverneiro. Falou enfim:

- Nobre amigo. Já sabe o que me trazer?

- Algum outro nestas terras geladas começa o desjejum com cerveja? – respondeu o taverneiro respondendo a reverência. Dúrio enrubesceu um pouco devido a presença da menina diante da brincadeira tola que interpretavam, preferindo afastar seus olhos dela concentrando-se ainda mais na madeira enegrecida da velha mesa, e na cerveja que serviu sem mais piadas.

Ivan retomou o falatório sobre sua noite de serviço, e até mesmo Hector desistiu de prestar atenção. Ia voltar seu olhar para a própria caneca quando teve a nítida impressão de que a moça colocara algo na bebida do acompanhante. Foi apenas um segundo, um pequeno relance e a partir de então tudo saiu de seu controle. Durio se afastou da mesa, Ivan beijou a garota de vermelho no rosto de forma um tanto rude e deu um sonoro gole na cerveja. Foi então que, pela primeira vez, Hector viu a garota sorrir.

Era um sorriso diferente, bastante peculiar. Tanto que o soldado passou até mesmo a imaginar que tipo de situação o faria sorrir daquela forma. Pensou no prazer da caça, no momento em que o caçador finalmente encurrala o animal mortalmente ferido e que este apenas aguarda por sua piedade lhe dando uma morte rápida. Estranhamente, quando caçava sempre se sentia errado ao olhar nos olhos da presa. Era uma espécie de remorso. Mesmo sabendo que não tinha mais escolha, pois parte do serviço já estava feito, hesitava e até mesmo se arrependia. Sabia que o animal morreria de qualquer maneira e que não havia mais como voltar atrás, mas isso o entristecia. Então sorria aquele mesmo sorriso triste. E terminava o serviço.

Daquele momento em diante tudo o que geralmente fazia parte de uma rotineira manhã no Grifo desvaneceu-se por completo e a realidade assumiu um novo e estranho caminho. O baque surdo do corpo de Ivan caindo de encontro à madeira do assoalho e o grito da menina de vermelho trouxe Hector de volta a realidade. Alguns soldados tentaram em vão acudir o homem que espumava pela boca. Pequenas convulsões o faziam se contorcer de uma forma estranha e dolorosa, enquanto outros recém chegados procuravam acalmar a moça que agora gritava a plenos pulmões. Ambos os esforços foram inúteis.

Ivan estava morto.
Armageddon
Enviado por Armageddon em 01/11/2006
Reeditado em 22/02/2008
Código do texto: T279503
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Armageddon
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