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A Arca de Zândrus - Vol. 1 - O Guardião - Capítulo 3

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Capítulo 3
A FLORESTA PETRIFICADA

O sol começava a se esconder no horizonte. O frio havia aumentado e as brumas davam os primeiros sinais de que a noite seria característica de inverno. Cogles, Roguinil, Kalena e Meliel ajeitavam as últimas coisas em cima de cavalos quando Tóro aproximou-se.

– Que fedor é esse? – reclamou Cogles.
– Os xetriquênios não têm o costume de banhar-se freqüentemente, senhor Cogles. Terá de se acostumar a isso. – aconselhou Roguinil.
– Mas somos muito bons em luta!
– Sei disso. E fico feliz que o melhor guerreiro xetriquênio esteja ao meu lado nessa caçada. Sinto-me mais seguro.
– Por isso é um príncipe! – falou Tóro com um largo sorriso, apontando o indicador para Roguinil.

Todos prontos para a jornada, se dirigiram ao portão central do muro do castelo levando consigo mais dois cavalos, que serviriam de montaria para Volano e seu filho. O grupo mantinha-se na estrada de areia que ia até a Floresta Petrificada, ao norte do Muntal.

– A viagem levará algo em torno de meio dia de cavalgada. Descansaremos um pouco quando chegarmos na cabana de Volano. É o tempo que ele precisará para arrumar suas coisas. – afirmou Meliel, que portava um livro de capa azul, grosso.
– Feiticeiro, por que não guarda esse livro junto com as outras coisas? Não precisa levá-lo em suas mãos.
– Não, príncipe. Este livro é muito precioso para ficar longe de minhas mãos e de meus olhos.
– Sempre tive uma curiosidade para saber mais sobre os feiticeiros.
– O que posso dizer-lhe, senhor Cogles? Somos seres vivos como vocês e possuímos habilidades específicas, como outras pessoas possuem. O senhor, por exemplo, é habilidoso com armas, o que já não é o nosso forte.
– Por quê não vemos feiticeiros jovens? São todos uns velhos! E nunca vejo feiticeiras! Só feiticeiros!

Meliel não parecia ter paciência no momento para dar explicações sobre o mundo da magia. Ainda assim, decidiu fazê-lo apenas para tornar a viagem menos entediante.

– E como acha que os velhos tornaram-se feiticeiros, senhor Tóro? Por mais poderoso que seja um mago, há certas leis da natureza que não podemos mudar. Todos os magos velhos que o senhor vê já foram jovens um dia. Não há como escapar disso. – Meliel deu um longo sorriso – A magia é uma arte muito difícil de se aprender. Vocês guerreiros passam anos treinando e acumulando experiências para se tornarem grandes lutadores. Nós do mundo da magia também passamos por um aprendizado. Só que vocês, a partir de um certo ponto e à medida que envelhecem mais, vão deixando de ser fortes, perdem a habilidade, a destreza. Continuam com o conhecimento do que aprenderam, mas já não conseguem exteriorizar isso como antes. Nós, envolvidos com magia, quanto mais velhos, mais fortes, pois acumulamos experiência. Nossa força não está no corpo físico, e sim no domínio dos diversos encantamentos e feitiços. E isso se torna mais forte com o tempo. Por isso, bárbaro, o senhor só tem notícias dos velhos, pois os jovens ainda não são magos ou feiticeiros e seus feitos não são tão fantásticos.
– Como alguém se torna um mago?
– Estudando, senhor Cogles. Há algumas academias para se aprender magia. É verdade que hoje são poucas, mas são boas. A melhor continua sendo a de Candísio. O aprendiz pode ser instruído por um feiticeiro, que será seu mentor, ou procurar o conhecimento por conta própria.
– Como alguém pode aprender algo sozinho? Sempre é necessário que alguém ensine... – zombou Tóro.
– Há algumas pessoas que se tornaram feiticeiras estudando sozinhas, xetriquênio, sem qualquer auxílio de veteranos.
– Qualquer um pode ser mago?
– Qualquer um, senhor Cogles. Mas é preciso muita dedicação. Aconselha-se que o interessado inicie seu aprendizado ainda criança. Em seus primeiros anos, estudará exclusivamente Magia Básica, conhecimentos mínimos vitais para qualquer um que se envolva com magia. Concluída essa etapa, por volta da puberdade, o aprendiz escolherá uma especialidade.
– Como assim?
– Há vários tipos de magia, senhor Cogles. Todas necessitam de muitos anos de estudo para que se possa dominá-las. Quem consegue isso, torna-se um especialista. Volano, por exemplo, estudou muito sobre criaturas das trevas. É um especialista nessa área, o Mundo das Trevas. É ainda na adolescência que o aprendiz começa a dividir seus estudos de Magia Mediana, necessária a todos, porém mais complexa que Magia Básica, com os de Magia Específica. Será quando o estudante deixará de ser considerado um aprendiz e passará a ser chamado de bruxo.
– Qual a diferença entre bruxo e feiticeiro? É tudo a mesma coisa!
– Não, senhor Tóro, não é não. Um bruxo é aquele que conhece poções, encantamentos e feitiços simplificados, além de alguma coisa sobre a área específica que está estudando. Levará algum tempo e muita dedicação até que o bruxo se torne um feiticeiro, um especialista em algum tipo de conhecimento da magia. Geralmente, uma especialização requer uns vinte anos de estudo. É claro que esse tempo depende muito da dedicação de cada um, pois pode-se levar mais ou menos tempo. Há quem tenha completado uma especialização com apenas quinze anos de estudo, a exemplo de Volano, assim como há quem tenha levado mais de vinte e cinco anos!
– Interessante...
– Não se deslumbre ainda, senhor Cogles. Magia exige muita dedicação, como eu já disse. Por isso não se vê muitas feiticeiras, como observou o senhor Tóro. Geralmente, as mulheres preferem dedicar seu tempo a aprender dotes domésticos. Cuidando de marido e filhos, não lhes sobra tempo para estudar magia. Aconselha-se, inclusive, aos homens que queiram tornar-se feiticeiros, a abdicar de uma vida conjugal.
– Uma vida sem mulheres? Vocês são loucos!
– Envolver-se com as mulheres não é proibido, senhor Tóro. Apenas é aconselhável o não casamento, para que haja disponibilidade do aprendiz em dedicar-se com exclusividade aos seus estudos. Mas a procriação é até incentivada após completar-se a especialização. Parte do conhecimento é passado para o filho através do sangue. Isso torna esses descendentes promissores em seus estudos de magia.
– Um feiticeiro pode fazer várias especializações?
– Pode sim, senhor Cogles. Quando um feiticeiro finaliza sua segunda especialização, passa então a ser chamado de mago. Quando possui três ou mais especializações, é considerado um Mestre dos Magos. Até hoje, só houve um único homem que conseguiu cinco especializações. Ele foi um Mestre dos Mestres.
– E o senhor, é feiticeiro, mago, mestre...?
– Sou um mago, senhor Cogles. Mas não precisa se atentar a essas nomenclaturas. São meramente hierárquicas. O que importa é o que sabemos e o quanto sabemos do que sabemos.

Os esclarecimentos prestados por Meliel de fato ajudaram a tornar parte da viagem menos exaustiva. A noite já estava alta quando a caravana alcançou a Floresta Petrificada. As brumas davam um ar mais sombrio ao local naquela época do ano. A lua não incidia qualquer claridade, o que dificultava a visão.

– Bem, senhores, daqui para frente toda atenção é pouca. Sei que a maioria das criaturas desta floresta não representa perigo maior do que o que vocês já enfrentaram em suas vidas. Mas ainda assim, não podemos nos dar ao luxo de sermos distraídos. Não quero perder nenhum de vocês e nem vê-los feridos.
– Quanto a nós pode ficar despreocupado, mago. Só não sei quanto à princesa. A Floresta Petrificada não tem a delicadeza de nossa nobre companhia.
– O senhor também é nobre, príncipe Roguinil, e nem por isso é delicado. – afirmou Meliel, num tom áspero.

A escuridão parecia mais densa no interior da floresta.

– Vamos, princesa, mostre a esses senhores que está preparada para essa floresta. – incitou Meliel.

Kalena olhou firme para as árvores petrificadas. Ergueu os braços e juntou as palmas das mãos no ar. Fechou os olhos e começou a balbuciar algumas palavras desconhecidas para os guerreiros. Uma brisa começou a agitar seus cabelos avermelhados. De repente, abriu seus olhos, que não estavam mais esverdeados e sim esbranquiçados.

Lentamente foi separando suas mãos. Delas, uma esfera de luz branca podia ser vista. Arremessou-a para a floresta, que se iluminou numa pequena circunferência. A claridade continuou apesar de Kalena ter voltado ao seu estado normal. Com um leve sorriso, meio que zombador, olhou para Roguinil.

– Ela... ela...
– ... é uma bruxa, senhor Cogles. – completou Meliel.
– Surpreso, príncipe? – perguntou a dilamésia, com um ar sarcástico.
– Como uma princesa pode ser uma bruxa?! Agora mesmo o senhor falou de estudos, dedicação...
– Kalena é muita esforçada, senhor Roguinil. Sou o responsável por seus estudos desde que tinha cinco anos. Ela está bastante adiantada em seu aprendizado. Creio que mais alguns anos sejam suficientes para que complete sua primeira especialização. E olha que é uma das mais difíceis, mais demoradas. Mas, como disse, Kalena é muito esforçada e dedicada, o que lhe tem garantido uma aceleração em seus estudos. Diferente de Katrina...

O grupo começou a entrar na floresta, seguindo a esfera de luz branca. Alguns ruídos puderam ser ouvidos, mas logo perceberam que se tratava de algumas aves noturnas incomodadas com a luz. O caminho parecia estar tranqüilo. Parecia.

Aos poucos, foram percebendo os diversos formatos das árvores, que eram feitas de pedras. Algumas mais finas, outras mais grossas, algumas com diversos galhos. Quanto mais adentravam a floresta, mais ela ficava densa, com árvores cada vez maiores.

O céu já não era mais visível e a neblina cobria todo o solo infértil. Nenhum ruído, nenhum som se fazia ouvir naquele instante, mas o grupo percebia alguns vultos passando entre as árvores. E pareciam ser grandes. Resolveram parar por um momento para melhor avaliar o que eram aquelas sombras. Um estalo foi ouvido na direção contrária a dos humanos, os quais se viraram para trás.

Um ser com o dobro do tamanho de Tóro, de abundante pele acinzentada, grandes olhos avermelhados e com a boca escancarada, revelando seus enormes e afiados dentes, estava agora frente ao grupo. Aos poucos, outras seis criaturas dessas foram surgindo, fazendo um cerco aos humanos. Do alto de uma árvore, em um dos grossos galhos, um outro deles, maior e mais forte, com uma pele que misturava o acinzentado com pardo, observava a cena.


– Bem, senhores, temos à nossa frente os ungoros, uma espécie de fera carnívora só encontrada nesta floresta. Aquele, o maior de todos, deve ser o líder. Os outros não farão nada enquanto ele não ordenar. Creio ser essa uma boa ocasião para começarem a dominar o manuseio de suas Armas.

Enquanto Meliel falava, a fera do alto da árvore deu um ensurdecedor e imponente rugido, o que fez com que seu bando começasse a fechar o círculo. Cogles pegou o chicote da sua cintura e o desamarrou, lançando-o em direção a um dos ungoros, entrelaçando-o.

A distância entre os dois era maior do que o comprimento original do chicote, mas este alongou-se o suficiente para alcançar e aprisionar a criatura. Assim, o guerreiro suspendeu a Arma ao ar, que nesse momento revezava-se entre uma consistência maleável e rígida de seu material, ao puro gosto e necessidade de Cogles. Tendo o ungoro preso ao alto, arremessou-o em cima de outros dois, derrubando-os.

Um deles veio por trás de Tóro e o envolveu em seus braços, imprimindo uma grande força para esmagar o bárbaro. Enquanto o xetriquênio gritava de dor, Roguinil correu em sua direção, dando um salto no ar e acertando horizontalmente a cabeça da fera com a sua espada, decepando-a.

O príncipe, ao chegar no chão quase ao mesmo tempo em que o bestunto que acabara de arrancar, ficou agachado bem próximo ao lado do bárbaro, que conseguiu se livrar do abraço do ungoro a tempo de impedir que um outro, que vinha por trás do kan-potrense, esmagasse a cabeça do nobre guerreiro com as próprias mãos.

Tóro segurou as patas do animal, que deu um rugido raivoso e fixou seus olhos nos do xetriquênio. Este segurou a fera pelos braços e levantou-a ao ar, afastando-se de Roguinil. Começou a rodopiá-la e, com bastante impulso, soltou-a, acertando e derrubando um outro desse ser.

Enquanto toda essa cena acontecia com Tóro, dois ungoros se aproximaram de Kalena, um de cada lado. Outros dois, que haviam sido derrubados anteriormente pela fera arremessada do alto por Cogles, também cercaram Meliel, que estava próximo à princesa.

O mago fechou os olhos e começou a balbuciar algumas palavras, enquanto levantava o braço direito em sentido perpendicular ao corpo, com a mão aberta em posição vertical. Abriu os olhos, esbranquiçados, e uma luz começou a se formar na palma de sua mão. Um raio saiu dela e acertou uma das criaturas, que urrou de dor em tom ensurdecedor. O raio atravessou seu corpo e dirigiu-se para outra fera, que também rugiu.

O raio atingiu o terceiro e depois o quarto ungoro que estavam em volta da princesa e de seu mentor. Com um buraco no meio de seus corpos e sangrando muito, os seres caíram mo chão, mortos.

Restavam apenas dois deles e mais o líder, que rosnava e batia as mãos de punhos fechados em seu peito e agitava-se no galho de pedra. Kalena pegou o Tripon, afastou-se mais ainda da árvore com o seu cavalo e arremessou a Arma para o alto, em direção ao líder das criaturas. A esfera de luz branca antes criada pela dilamésia enfraqueceu-se e o ambiente já não estava tão claro como antes.

Ao aproximar-se da fera, as pedras vermelhas do Tripon começaram a brilhar e pontas afiadas surgiram em suas três extremidades. Como deslizava no ar numa rotação frenética, a Arma tornara-se agora um objeto cortante e acabou acertando a face do ungoro, atravessando a cabeça e partindo ao meio.

O ser despencou do galho e seu corpo acertou um outro que estava lá embaixo, deixando-o inconsciente. O Tripon, sem as pontas afiadas, retornou à mão de Kalena. A esfera de luz branca voltou à sua intensidade anterior.

– Hmmm..., que nojento! Sangue... – a princesa tinha uma expressão de nojo ao ver o sangue na Arma. Limpou-a com um lenço que retirara do bolso.

O ungoro que restou, vendo seu líder e bando derrotados, apressou-se em fugir.

– Ele retornará com outros, numa quantidade maior. Devemos nos apressar. – ordenou o mago. – E... Kalena... precisa treinar mais a sua concentração. Se ficássemos sem iluminação, não sei se teria conseguido acertar o líder do bando.

Meliel conduziu seu cavalo na frente do grupo, levando consigo um outro que estava sob a sua responsabilidade.

– Parabéns, princesa. Confesso que foi... incrivelmente hábil com aquele monstro.
– Vindo de você, aceito como um grande elogio, príncipe Roguinil.
– Mas não precisava ser tão impiedosa com aquele animal. Cortar-lhe a cabeça pela metade! Isso é tão... selvagem!

Kalena sorriu com as palavras do kan-potrense e seguiu seu mestre de magia. Cogles aproximou-se de Roguinil.

– Até que não é tão delicada assim, não é...?

O nobre guerreiro, olhando fixo para Kalena, respondeu positivamente com a cabeça e pôs seu cavalo logo atrás do dela, sendo seguido pelos demais.

Algumas horas se passaram sem que o grupo sofresse algum outro ataque. Os príncipes trocavam algumas palavras uma vez ou outra. Cogles prestava atenção em cada detalhe da trilha que percorriam. Às vezes, o outro cavalo que levava empacava, mas o guerreiro era muito bom com animais e facilmente o fazia voltar a andar.

Tóro seguia logo atrás, sem dar uma palavra. Não olhava para os lados, apenas à frente, parecendo não estar atento à paisagem em volta. Mero engano. Os xetriquênios sempre foram tidos como exímios caçadores. O fato de não mexer a cabeça para os lados de vez em quando não significava que o bárbaro não sabia do que acontecia ao redor. Estava atento a cada brisa, a cada respiração, a cada ruído. Por isso permanecia calado, pois se concentrava no ambiente. Tentava fazer parte dele e assim poder senti-lo e perceber facilmente se algum perigo se aproximava.

Meliel, frente à fileira, calmamente fazia o percurso. Em um determinado momento, diminuiu os passos de seu cavalo e parou. Os outros fizeram o mesmo.

– Algum problema, mago?
– Entramos no território da Mantícora já faz mais de uma hora, Roguinil. E até agora nenhum sinal dela.
– Ótimo! Não queremos mesmo enfrentá-la, não é?
– Não, senhor Cogles, não queremos enfrentá-la. Mas é estranho que ainda não tenha aparecido. Parece que a Mantícora tem uma sensibilidade bastante alta para perceber presença de outros seres próximos a ela. É estranho que ainda não tenha percebido a nossa.
– Talvez esteja dormindo... Vamos deixá-la assim, certo?
– ...Certo, senhor Cogles.... certo... – concordou o mago com um ar de dúvida.

O grupo continuou a sua caminhada até chegar a uma clareira. Ao longe, a carcaça de um animal chamou a atenção. Os humanos aproximaram-se lentamente, vigilantes com qualquer movimento nas árvores. Meliel olhou atentamente a carcaça, que tinha corpo e cabeça de leão, grandes asas e uma cauda de escorpião. Depois de alguns instantes de reflexão, falou com uma voz segura.

– Agora está explicada a razão da Mantícora não ter nos atacado esse tempo todo.
– Está querendo dizer... que esse animal morto... é a Mantícora?!
– Infelizmente, sim, princesa. É a Mantícora... – respondeu seu mentor com um ar desolado.
– Mas... como ela morreu? Quem poderia derrotar... – Cogles interrompeu suas palavras quando chegou a uma conclusão. – Você disse que “algo” estava matando as Criaturas Místicas...
– Sim, senhor Cogles. A Mantícora é mais uma vítima que temos notícia.
– Será que foram aqueles ungoros?
– Acredito que não, Kalena. Apesar dos ungoros serem fortes, não são hábeis para enfrentar e derrotar a Mantícora. Lembre-se que ela voa. Ou melhor, voava. Além disso, sua extraordinária força de leão a fazia um páreo duro. Sem contar no poderoso veneno de sua cauda. Decididamente, não são os ungoros que estão matando as Criaturas Místicas, mesmo porque eles são característicos dessa floresta. Temos notícias de que outras Criaturas, em outros lugares, também têm morrido nos últimos tempos. – respondeu Meliel.
– Já estamos próximos da cabana de Volano?
– Sim, senhor Tóro. Mais uns trezentos metros e devemos chegar nos limites de sua cabana.
– Então vamos correr.
– Por quê, senhor Tóro?
– Cerones estão por toda parte, nos galhos das árvores. Estão nos espiando desde que entramos nessa clareira. Vão nos atacar a qualquer momento. – justificou o xetriquênio.
– Cerones? O que são cerones?
– São grandes lacraias aladas, princesa. – respondeu Roguinil.
– Seu veneno pode matar um bezerro em questão de minutos. Um bando deles pode nos matar em menos tempo. – completou Cogles.
– E é exatamente um bando enorme que está nas árvores nesse exato instante, nos observando, princesa. Se você tiver alguma magia para fazê-los desaparecer, use-a agora. – pediu-lhe Tóro.

Nesse instante, um cerone saiu voando de uma das árvores e foi em direção a Kalena, que pegou o Tripon para atirá-lo. Mas a lacraia alada pousou no ombro da dilamésia, que gritou de dor. Meliel arrancou o inseto com o cajado. A parte da vestimenta onde a criatura pousou ficou queimada e a pele da princesa estava ferida.

Outros cerones saíram das árvores e avançaram nos humanos. Roguinil cortava ao meio vários deles com a espada, enquanto Cogles derrubava alguns no chão com o chicote. Tóro apanhava com as mãos, protegidas pelas luvas, e esmagava vários deles. Mas eram muitos e começaram a pousar no corpo desprotegido do bárbaro.

Kalena arremessava o Tripon, que fez piruetas no ar e estraçalhou diversas criaturas daquelas que vinham em sua direção. Aos poucos, o grupo foi sendo cercado por milhares delas que surgiam de todos os lados.

Tóro, totalmente coberto por cerones, caiu no chão. Quanto mais desses insetos eram mortos pelos humanos, mais apareciam.

Uma pequena brisa começou a ser sentida. Aos poucos, ela esfriava. O leve vento cedeu lugar a um mais forte, mais gélido. Alguns cerones foram empurrados para direção oposta ao grupo. O vento ficou mais violento e congelante. Flocos de neve puderam ser sentidos.

Meliel gritou para que se abraçassem, à exceção de Tóro, mantendo o calor dos corpos. Ajoelharam-se ao chão, próximos ao corpo do bárbaro. Milhares de cerones caíram no chão, congelados. Alguns poucos conseguiram fugir.

O vento já não era tão forte quanto antes, mas a temperatura ainda continuava severamente baixa. Kalena, tremendo bastante, conseguiu ver que o solo e as árvores próximas estavam cobertos por neve, mesmo com pouca luminosidade, pois a esfera de luz que criara começou a se desfazer quando as criaturas atacaram, e agora estava bastante fraca.

As lacraias aladas presas ao corpo de Tóro pareciam estar congeladas. Ele continuava imóvel desde que caíra no chão. Cogles batia velozmente o queixo e sua pele já tinha uma coloração levemente roxa. Os cavalos estavam caídos no solo, cobertos pela neve, e um deles, completamente imóvel, morrera de frio. Outros três também estavam com muitos cerones presos ao corpo.

A bagagem que os humanos levavam agora estava quase que toda espalhada pelo chão, e todo o alimento completamente congelado. Meliel, apesar de toda a situação, em nenhum instante largou o livro que carregava em sua mão esquerda.

Há alguns metros, um vulto se aproximava. Kalena começou a perder os sentidos e a esfera de luz se desvaneceu. Tudo ao redor era a mais completa escuridão. Nada se via, mas os que ainda estavam conscientes foram capazes de perceber passos vindo em sua direção. O mago tentou fazer algum feitiço, mas seus lábios mal se mexiam.

Os passos estavam mais próximos e era até possível ouvir-se a respiração do ser que se aproximava.

– Acho... acho que agora... saberemos o quê está matando... as Cria...turas Míst... – falou Roguinil, tremendo de frio e perdendo os sentidos.


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Peter Ângelo
Enviado por Peter Ângelo em 06/10/2007
Reeditado em 09/10/2007
Código do texto: T683623

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Sobre o autor
Peter Ângelo
Salvador - Bahia - Brasil, 39 anos
12 textos (742 leituras)
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