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A Arca de Zândrus - Vol. 1 - O Guardião - Capítulo 5

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Capítulo 5
SÍVA

Uma fresta de luz penetrou o quarto e acabou acordando Kalena, que olhou em volta e viu que Valmiro já se levantara. Rapidamente, também se levantou e foi lavar o rosto. Ouviu as vozes de seus companheiros de jornada e apressou-se em ficar pronta.
Após um rápido desjejum, o grupo agradeceu a hospitalidade dos donos da casa e saiu.

– Onde está Roguinil? – perguntou Cogles.
– Estou aqui! – gritou o príncipe da janela de uma casa próxima, saindo logo em seguida.

O kan-potrense ainda ajeitava suas vestes quando uma mulher apareceu na janela com um largo sorriso, dizendo-lhe para regressar logo. Roguinil olhou meio desconcertado para Kalena.

– Precisamos de cavalos ou de um outro meio de transporte para nos levar até a outra margem do Grande Lago. E acho melhor fazermos isso por terra. Enfrentar aquelas serpentes por dois dias seguidos é exigir muito de mim! – brincou Cogles.

Há alguns metros dali, um pequeno grupo de mercadores preparava-se para uma viagem. Meliel conseguiu negociar uma carona com a caravana até o bosque nas margens do Grande Lago.
A viagem foi tranqüila, sem nenhum ataque de monstros ou feras, aquáticas ou terrestres. Volano e Meliel continuavam atualizando os acontecimentos dos últimos anos. Roguinil e Cogles conversavam ora com um mercador, ora com outro. Tóro tratava de concentrar-se no ambiente em volta. Valmiro aproveitou para ler o grimoire juntamente com Kalena.

– Estranho... Veja... essa parte do livro... teve suas folhas arrancadas...
– Arrancadas? Por que alguém arrancaria as folhas de um livro?
– É óbvio que quem fez isso, princesa, não pretendia dividir com outras pessoas as informações contidas nas folhas.
– E por quê alguém iria querer esconder essas informações?
– Essa é uma boa pergunta. Quem fez isso e o quê há escrito nessas folhas?

Os dois interromperam a conversa ao ouvir estrondosas gargalhadas vindas um pouco mais à frente. Eram Volano e Meliel. Os jovens bruxos aproximaram seus cavalos e puderam ainda escutar um trecho da conversa dos magos.

– E Brunélio perguntou-me durante anos como fiz aquilo... – Meliel não controlava suas risadas.
– Do quê vocês dois tanto riem? – interferiu Kalena.

Os magos rapidamente tomaram uma postura mais séria. Entreolhavam-se, um tanto embaraçados.

– Ahn... de nada muito importante, princesa.
– Ora, Meliel, qual o problema? Conte-lhe um pouco sobre suas peripécias acadêmicas. Talvez ela precise de alguns truques futuramente, como esse de interferir no tempo... – sugeriu Volano.
– Interferir no tempo?! – Kalena assustou-se.
– Sim... Você... não... sabia disso? – perguntou o Mestre dos Magos, extremamente desconcertado, já percebendo que falara em demasiado.
– É possível interferir no tempo? – indagava a jovem ao seu mentor.
– Sim, é possível. – confirmou Meliel após um longo suspiro, como se ainda avaliasse se deveria ou não responder positivamente. – Complicado e perigoso de se fazer..., mas possível. É uma das habilidades do Cosmos.
– O senhor nunca me falou disso! Quando me ensinará? –a dilamésia se empolgara com a novidade.
– Nunca, minha princesa, nunca.
– Como nunca?! Não é uma das habilidades da especialização Cosmos, a qual eu estudo?
– Sim, é. Mas é uma habilidade, assim como outras, muito perigosa.
Kalena sempre foi tida como uma disciplinada aprendiz, aos olhos de Meliel, e agora não entendia quais as razões que seu mentor tinha para privar-lhe de um conhecimento como aquele.
– Mexer no tempo, minha jovem, significa desequilibrar o cosmos. Há certas ordens que não podem ser perturbadas. Há toda uma organização, todo um equilíbrio no funcionamento do cosmos. Não podemos interferir nisso com viagens no tempo. Nem para alterar o que aconteceu, nem para testemunhar o que acontecerá. Nem mesmo para congelar o instante. A terrível conseqüência disso seria o caos absoluto. O hoje ontem, o ontem amanhã, o amanhã agora, o agora a qualquer hora, tudo ao mesmo momento, sem nenhuma seqüência cronológica racional. Mesmo que saibamos como burlar as leis do cosmos, não devemos fazê-lo. Alguns magos já tentaram brincar com a organização cósmica outrora. Nem queira saber o quão próximo da loucura e da destruição do cosmos estivemos. Por isso, a Ordem dos Magos decidiu que esse conhecimento não mais seria perpetuado, sendo proibido o seu ensino nas academias, e os livros sobre ele tiveram de ser queimados.
– Mas é claro que houve quem desobedecesse a essas ordens...
– Do que meu pai está falando?
– Bom..., aqueles que sabiam como interferir no tempo ficaram terminantemente proibidos de fazê-lo ou de ensinar a outras pessoas, e também de registrá-lo. As coisas que falamos tendem a modificar-se ou a perder-se com o tempo. Mas o que escrevemos... é eterno. Eu e Volano estudamos juntos numa tradicional academia de magia, a Academia de Candísio. Certa manhã, fui presenteado com um certo rolo de pergaminho que um certo amigo encontrou em uma certa sala secreta enquanto estava fazendo certa coisa errada. – olhava atravessado para Volano. – O pergaminho havia sido escrito por um antigo mago, cuja uma das especializações era a do Cosmos. Nele, a descrição detalhada de uma magia de intervenção no cosmos.
– Você sabe como viajar no tempo...!
– Não, Kalena, não sei como fazer isso... A magia contida no pergaminho era a de parar o tempo...

Os olhos de Valmiro e Kalena brilhavam intensa e entusiasticamente.

– Uma vez tive de utilizá-la para livrar-me de Brunélio, um Mestre dos Mestres que era um dos mentores-chefe da Academia onde estudamos. Fazia de tudo para pegar-me em alguma falha. Mas sei o quanto é perigoso e prejudicial ao cosmos fazê-lo. Por isso, nunca a ensinei a ninguém. É um conhecimento que levarei de volta ao cosmos quando abandonar essa hospedagem. Não irei perpetuá-lo, Kalena. Espero que possa compreender a minha decisão.

A princesa baixou a cabeça em tom de respeito à decisão de seu mestre.

– Bem... esse é um dos pontos que eu e meu velho amigo entramos em eterno conflito. Concordo que é uma magia perigosa. Mas discordo ter de privar você de aprendê-la. Não cabe a nós decidir o que vocês devem ou não aprender. Nossa competência se limita a transmitir-lhes o conhecimento e a orientá-los o que fazer com ele. Cabe a vocês julgar o que é o certo e o que é o errado.


Volano olhou para Meliel e conduziu seu cavalo de volta à frente da caravana. Voltou-se para trás.

– Muitas vezes, meu velho amigo, você teve a oportunidade de verificar que o certo pode ser o errado... e o errado... pode ser a coisa certa a se fazer.

Algumas horas depois do meio do dia, a caravana alcançou o Grande Lago. Levariam-se mais algumas horas até contornarem-no e alcançarem o bosque próximo ao Templo de Kira. Mas pararam para fazer uma rápida refeição.

– Temos de acelerar nosso passo.
– O que o preocupa, Volano?
– Hoje é a primeira noite de lua crescente. Os poderes do Guardião começam a ficar cada vez mais fortes à medida que a noite se aproxima. O meio da noite é o ponto culminante de seus poderes. A partir daí, começam a enfraquecer. Mas, a depender da distância que ele esteja do Templo, poderá libertar Gorak. Não podemos contar que ele só chegue ao Templo amanhã de manhã. É melhor nos prevenirmos e adiantarmos nossa chegada.
– Dependemos da velocidade dos mercadores. Não posso fazê-los ir mais rápido! – argumentou Meliel.

Alguns instantes depois, a viagem foi retomada. O jovem bruxo continuava a leitura do grimoire.

– Kalena! Veja o que descobri: “...como mencionado anteriormente,  o Guardião é a chave do portal para se entrar no Mundo das Trevas. Mais do que abrir o Portal de Roncox, o que lhe confere uma posição de Porteiro, o primeiro demônio que dele saiu guarda a entrada das Trevas. Por isso o chamo de Guardião.”
– Então há como enviar os demônios de volta para o seu mundo! Prendê-los nos Templos ou na Arca não é nossa única opção!
– “Infelizmente, isso tudo é teoria, fruto de dias e noites tentando achar uma maneira de enviar os demônios de volta ao seu mundo. Nunca encontramos um portal similar ao de Roncox. Como comprovar minha teoria? Como fazer com quê o Guardião envie os outros demônios de volta às Trevas?”
– Será...? Será que o Guardião realmente guarda o meio de enviar os demônios de volta ao Mundo das Trevas?
– Bem... é apenas uma teoria. Mas pelo que já li desse livro, muitas idéias que Zândrus tinha eram rejeitadas por outros magos inicialmente.
– Como poderíamos fazer para que o Guardião abrisse esse outro portal?
– Não faço a menor idéia. Zândrus não fala mais desse assunto aqui. Parece que essas palavras eram as últimas de muitas outras, como que para fechar a conclusão de toda uma explicação. – raciocinou Valmiro.
– O que você quer dizer com isso?
– Quero dizer que aquelas folhas arrancadas podem conter mais informações sobre o Guardião. Talvez toda uma análise que Zândrus tenha feito sobre esse demônio.
– E quem teria interesse nessas informações?
– Alguém que soubesse da existência do Guardião.
– Mas poucas pessoas sabem que não é apenas uma lenda. Apenas os magos da Ordem e... – Kalena parou subitamente.
– O que foi? Por que você está com esse olhar de assustada?
– É que... estudiosos de magia sabem da lenda da Arca, dos demônios presos nos Templos e do Portal de Roncox. Mas que não passa de uma lenda. Apenas estudiosos de Mundo das Trevas e a Ordem dos Magos sabem que não é apenas lenda. E, além deles...

Agora era Valmiro quem olhava assustado para Kalena.

– “Apesar dos pertences de Zândrus se encontrarem na Torre de Vidro, a Arca fica sob a guarda do Muntal...”. Li isso uma vez no livro de um poderoso mago; acho que ele era o Mago-Maior de Dilames.

Ambos entreolharam-se por um instante.

– Kalena... você acha... você acha que...
– Não sei... Tenho medo até de pensar nisso.
– Mas você... você me disse que... que seu pai... nem sabe da existência do grimoire. Como ele poderia, então, arrancar essas folhas?
– Talvez a gente ache que ele não sabe...
– Se realmente foi o seu pai, como você mesma está pensando, qual o interesse que ele teria de arrancar meras folhas se ele poderia ter o livro completo?
– Tem razão. Como pude desconfiar dele? – Kalena parecia envergonhada.

A caravana contornara todo o Grande Lago e já era possível avistar o bosque, há pouco mais de duzentos metros. O sol estava se pondo e a escuridão logo chegaria. Kalena começou a fazer o feitiço para criar a esfera de luz, mas Meliel a interrompeu e ele mesmo criou uma, maior e mais intensa. Os mercadores pararam seus cavalos e começaram a montar acampamento.

– Vocês vão parar? – perguntou Volano.
– Sim, precisamos descansar. Além disso, é arriscado viajar de noite. Acertamos que os traríamos até o bosque. Lá está ele. Aqui acaba o nosso acordo. – respondeu-lhe um dos mercadores.
– E agora, mago?
– E agora, príncipe, continuaremos, mesmo que seja a pé. – respondeu Volano. – O Templo de Kira não fica muito distante. É do outro lado do bosque.
– Mas não podemos continuar sem encontrar com a caçadora de recompensas. Ela está com a Arca. – observou Cogles.
– Correto. Sem a Arca não há como prender o Guardião. – concordou Volano. – Mas onde está essa caçadora de recompensas, afinal?
– Meu pai acertou que aqui seria o ponto de encontro. Disse-lhe para nos aguardar a partir desta noite, juntamente com os guardas.
– Já deveriam estar aqui... – Volano demonstrava-se impaciente.
– Bem, nada mais podemos fazer a não ser esperar que apareçam. – explicitou Tóro.

Meliel desfez sua magia após o grupo ter acendido uma fogueira, na qual os mercadores assavam algumas carnes. Tóro acabara de encher a boca com um volumoso pedaço de carne e um copo de vinho quando gritos puderam ser ouvidos.

– Vêm lá do bosque. – afirmou Roguinil.
– Era bom demais para ser verdade. Um dia inteiro sem monstros ou perigos. Nada além da paisagem verde das terras kan-potrenses à nossa frente. Eu devia ter desconfiado que à noite algo aconteceria. – resmungou Cogles.

Rapidamente, magos, bruxos e guerreiros levantaram-se e correram rumo ao bosque, deixando para trás alguns pertences com a caravana de mercadores. O céu estava pouco iluminado, mas alguns vultos puderam ser percebidos há alguns metros de distância. Um outro grito foi dado e um objeto foi arremessado em direção ao grupo.



– Mas... é um... é um dos guardas que meu pai enviou para cá! – espantou-se Kalena após uma rápida olhada para o “objeto” que caíra à sua frente.
“Corram! Corram!”, era o que ouviam vindo do interior do bosque. Alguém gritava assustado. Algumas árvores se balançavam e o chão tremia. Uma grande correria era perceptível.
– Os soldados estão aí dentro e algo os está atacando!
– É mesmo, princesa?! – ironizou Roguinil.
– Então o que estamos esperando? – indagou Tóro, colocando-se à frente do grupo e adentrando o bosque.

Meliel criou uma nova esfera de luz, dessa vez maior, iluminando uma grande área. No interior do bosque, pôde-se ver os soldados correndo para todos os lados, fugindo de corpulentas criaturas de seis metros de altura que os atacava. Alguns passos adentrando o bosque e o corpo de um dos soldados foi encontrado estirado no chão, ensangüentado e com a cabeça esmagada. Uma sombra tapou a visão do grupo. Era uma dessas criaturas que se aproximara, segurando um grosso galho de árvore.

– O que é isso? – gritou Valmiro.

A criatura, toda feita de pedra, buracos no lugar dos olhos e mãos largas, empurrou Valmiro com o galho, jogando-o para o alto de uma árvore. Roguinil desembainhou a espada e cortou as pernas do ser de pedra. O restante do corpo da criatura estava caindo e atingiria o príncipe, mas Tóro segurou com apenas uma de suas mãos e jogou o monte de rocha para o lado.
As pernas e o restante do corpo da criatura, separados, começaram a trepidar e pedras próximas do local foram sendo atraídas, aglomerando-se aos dois blocos de rocha e constituindo dois seres de pedra.

– Regeneração... Fantástico! – deslumbrou-se Volano.
– Fantástico?! Como vamos nos livrar desses monstros se eles se refazem? – perguntou Cogles pouco antes que um outro ser de pedra o pegasse pelo braço e o arremessasse na mesma árvore que Valmiro estava.
– Oi... – disse o guerreiro ao bruxo, após se acomodar em um dos galhos.

Kalena jogou o Tripon que, com as pontas afiadas, passou pelo meio de quatro seres de pedra, decepando cada um. Tóro segurou o braço de um outro quando este quase lhe dera um soco, e o arrancou. Depois, empreendeu um forte murro no monstro, derrubando-o no chão, totalmente espatifado. Roguinil cortava em várias partes outros monstros de rochas.
Mas cada pedaço dessas criaturas se recompunha com pedras espalhadas pelo local. O braço de pedra que Tóro segurava também começou a ser puxado em direção aos montes de rocha, mas o guerreiro fazia força para não deixar isso ocorrer e acabou vencendo, ficando com aquele membro. Os seres de pedra, além de se regenerarem, ainda acabavam se multiplicando cada vez que eram estraçalhados.
Três rochedos ambulantes fecharam o cerco a Meliel. O mago pegou seu cajado, cuja ponta esférica brilhava, e o enfiou no chão, com os olhos avermelhados. Três pequenas chamas surgiram da terra e foram ganhando tamanho, cabeça, braços e pernas. Meliel criara elementais de fogo quase da mesma altura dos seres de pedra. Do alto da árvore, Valmiro e Cogles viam a cena.

– Nossa! Ele também é especialista em Elemento do Fogo! – sussurrou o jovem bruxo, admirado com o que vira.

Os elementais arremessaram esferas de lume nos monstros de rocha, que iam se afastando por causa do impacto. Mas um deles conseguiu se aproximar de um elemental e ergueu sua pesada mão para acertar o ser criado por Meliel. Com o punho cerrado, imprimiu grande força de cima para baixo e acertou a cabeça do elemental. Mas a mão de pedra passou pelo corpo do ser de fogo, não o danificando em absolutamente nada. O mago parecia estar protegido das criaturas de pedra, ao menos enquanto estivesse cercado por seus elementais.
Sete seres de rocha vieram de todos os lados e cercaram Volano.

– Veja, senhor Cogles. Meu pai vai acabar rapidinho com aqueles monstros. Ele é um Mestre dos Magos! – falava Valmiro, orgulhoso do poder de seu pai.

O mago abriu os braços com a palma das mãos voltadas para cima e seus olhos tomaram uma coloração de um azul translúcido. O vento tornou-se forte e pareceu se concentrar em suas mãos. Aos poucos, o vento tomou a forma de dois pequenos redemoinhos de ar. Volano arremessou-os na direção dos seres de pedra.
Os turbilhões de vento ganharam tamanho e cobriram aquelas criaturas. Volano repetiu o feitiço por várias vezes até que todos os seres de pedra fossem dominados pela magia. A forte ventania que tomou conta do local durou alguns segundos, mas foi o suficiente para desfazer os elementais de fogo criados por Meliel.
Os olhos do Mestre dos Magos, que parecia um pouco cansado, voltaram ao normal e os turbilhões foram perdendo rapidamente força até sumirem por completo. No lugar dos seres de pedra, grandes montes de cristais de areia foram formados. A única coisa que sobrara daquelas criaturas foi o braço de uma delas, que Tóro se apoderara. O bárbaro empreendeu um murro naquele objeto, que se espatifou, mas logo se refez utilizando as pedras próximas. “Gostei”, falou com um largo sorriso.

– É... não precisaram da nossa ajuda, não é mesmo? – afirmou Cogles para Valmiro, rindo. – Vamos descer...

Um pequeno tremor foi sentido e os montes de areia começaram a diminuir de tamanho. Pareciam estar sendo sugados pela terra. Desapareceram por completo e o tremor parou. Volano e Meliel entreolharam-se, como se adivinhassem o que iria acontecer. “Corram!”, gritou um dos magos. Pedaços de terra foram arremessados para o ar, formando um buraco no chão, de onde um ser de pedra emergiu. O mesmo ocorreu em outros pontos próximos. O número dessas criaturas quadruplicara!

– Impossível! É simplesmente impossível derrotar esses monstros! – esbravejava Tóro.
– Precisamos fazer algo! – disse Valmiro para Cogles.
– Tudo bem, mas o quê? Jogar água para que virem lama? – retrucou o guerreiro.

O jovem bruxo percebeu algo estranho no tronco da árvore. Parecia que se mexia. Notou uma pequena pedra brilhante. Achava curioso aquele objeto estar logo ali, no alto da árvore. Algum pequeno animal levara até ali? Teria sido parte de um dos seres de pedra que voou com o vento dos redemoinhos de Volano? “Talvez essa pequena pedra brilhante faça parte das criaturas de rocha e seja isso que lhes dá o poder de regenerar-se toda vez que são destruídas”, foi o pensamento do rapaz.
Ergueu o braço para pegar a pedra brilhante e viu que o tronco se mexeu. Uma mão surgiu e deu um tapa na sua. O bruxo assustara-se e mais uma vez viu um estranho movimento no tronco. Algo parecia estar dentro dele e fazia um volumoso e disforme movimento. De repente, “aquilo” começou a descer pelo tronco até o chão. Os seres de pedra, que estavam avançando em direção ao restante do grupo, pararam e se voltaram para aquela árvore. Meliel e os outros estranharam e também fixaram sua atenção no vegetal.
Uma das criaturas de rocha, velozmente, passou sua mão próximo ao pé da árvore e pegou algo. Um pequeno grito foi ouvido nesse instante.

– É Síva. – afirmou Meliel.
– Quem é Síva? – perguntou Roguinil.
– A caçadora de recompensas. – respondeu-lhe o mago.

Nesse instante, o ser de pedra agitava bruscamente a mão no ar, que estava quase fechada como se segurasse algo, mas nada se via. Após alguns movimentos assim, pôde-se ver uma cabeça humana surgir e depois o restante do corpo. Roguinil afastou-se.

– Tóro, me arremesse.
 
O príncipe correu em direção ao xetriquênio, que estava curvado e com as palmas das mãos unidas. Roguinil colocou um de seus pés nas mãos de Tóro, tendo apoio e pegando impulso para que o amigo o jogasse para o alto. Fazendo rodopios no ar, o kan-potrense alcançou o braço do monstro de pedra e cortou-lhe a mão com a espada.
O membro separado caiu no chão, rachando e permitindo que Síva ficasse livre. A criatura de pedra, nada satisfeita com a atitude de Roguinil, acertou-lhe com a outra mão, arremessando-o para longe.
O príncipe teve a sua trajetória interrompida. Simplesmente parara no ar. Percebeu Kalena, lá de baixo, com olhos incolores e com a mão estendida em sua direção.

– Por quê demorou tanto? – brincou Roguinil.

A princesa, que estava com um leve sorriso em seu rosto, ficou séria e, já com os olhos normais, baixou seu braço, deixando que a própria gravidade tomasse conta do corpo de Roguinil, o qual, inevitavelmente, acertou o chão como se fosse um meteorito.
Todas as criaturas de pedra dirigiram-se para o ponto onde se encontrava Síva, a qual saiu correndo e, desviando dos seres, passando entre suas pernas, acabou saindo do bosque em direção ao Grande Lago.
Os mercadores, ali acampados, ainda assavam e comiam carnes e se embriagavam com seu vinho, desinteressados em toda aquela agitação no bosque. Viram Síva correndo em sua direção e tremores foram sentidos. As árvores eram arrancadas, liberando passagem para alguma coisa grande, muito grande. Os seres de pedra agora eram visíveis. Os mercadores, em pânico, corriam para todos os lados, alguns arrumando suas mercadorias em seus cavalos, outros se aproveitando da confusão e apoderando-se de mercadorias alheias.
Milagrosamente, em menos de dois minutos, todos os mercadores já estavam completamente prontos para continuar a viagem, mesmo à noite. E foi o que fizeram!
Síva agora se via encurralada pelo Lago, de um lado, e pelas criaturas de rocha, por outro. Saindo do bosque, guerreiros, bruxos e magos foram ao socorro da caçadora de recompensas. As pedras vivas foram se organizando em um círculo, e depois em outro, circundando o primeiro. Pareciam ter aprendido que Síva poderia tentar mais uma vez fugir entre suas pernas.
A caçadora deu um salto no ar e ficou acima das criaturas. Do alto, cruzando seus braços para pegar algo em seu cinto, arremessou pequenos objetos brilhantes nas criaturas. Eram pequenas estrelas feitas de metal que começaram a rodopiar velozmente o corpo dos monstros, partindo-os em vários pedaços.
Já no chão, Síva tinha pouco tempo até que as criaturas do primeiro círculo se refizessem, e talvez em um número maior. Suas estrelas voltaram às suas mãos e ela as guardou de volta no cinto. Um dos seres aproximou-se e a caçadora deu um salto e foi parar no corpo de uma outra criatura de pedra, na altura do que seria o seu peitoral. Um terceiro monstro empreendeu um murro em sua direção. Síva deu um outro salto e livrou-se do ataque, parando no chão. Pôde testemunhar que se não tivesse feito isso, a morte seria certa, uma vez que o ser de pedra onde estava ficou com um buraco no meio do corpo.
A caçadora pegou uma corda de seu cinto e, numa velocidade incrível, percorreu por entre as pernas de seis criaturas de rocha, as quais caíram ao tentar se moverem, espatifando-se no chão e levantando uma nuvem de poeira. Quando toda aquela fumaça se assentou, tanto os seres de pedra quanto os guerreiros, bruxos e magos espantaram-se. Onde estava Síva? Como poderia ter sumido sem que ao menos os humanos a tivessem visto?
Os monstros de rocha entreolhavam-se e viravam-se para todos os lados, à procura da caçadora.

– Vocês não estão achando algo estranho, não?
– O quê, senhor Cogles. – perguntou Meliel.
– Essas coisas... elas estão nos vendo aqui, mas não estão vindo nos atacar. Estão procurando a caçadora de recompensas. Só querem atacar a ela! Isso não é estranho?
– Talvez, não. – respondeu Volano após uma rápida reflexão. – Ela é uma caçadora de recompensas, não é? Portanto, uma ladra nata. Provavelmente, roubou algo dessas criaturas, algo precioso, talvez vital!
– Eu acho que sei o que é... – disse Valmiro com um leve sorriso.

Tóro notou algo estranho no chão. Um monte de terra, com um certo comprimento, aproximava-se do grupo. De repente, uma cabeça surgiu e o restante do corpo logo em seguida. Era Síva, deitada no chão. Arrastara-se até o grupo, fugindo dos seres de pedra.

– Vocês vão ficar aí parados? – perguntou a caçadora.
– Ela está com uma pedra brilhante! Talvez seja isso que aquelas criaturas estejam querendo. – alegou Valmiro.

Volano ajudou Síva a levantar-se.

– Tem algum fundamento o que o rapaz está dizendo? – perguntou o mago à caçadora. – Porque, se tiver, é melhor devolver esse objeto. Já deve ter percebido que é impossível destruir esses seres. E eles estão se multiplicando...
Síva olhava atenta para Volano. Mordia os lábios.

– É... acho que tem sim...
– Você está ou não com uma pedra brilhante? – Volano engrossou a voz.
– Estou... Eu peguei debaixo de uma rocha ali no bosque, não achei que tivesse dono! Ou melhor, donos! – respondeu Síva, quase que envergonhada.
– Dê-me a pedra. Eu irei devolver.

Quando Volano acabara de falar, uma das criaturas, que veio vagarosamente em direção ao grupo, pegou Síva pela perna, erguendo-a no ar de cabeça para baixo. Um pequeno objeto brilhante caiu de suas vestes e atingiu o chão. Volano pegou e admirou aquela pedra que nunca vira igual. Rapidamente, estendeu sua mão com o artefato para o ser, o qual pegou o que queria e largou a caçadora no chão. Os demais o seguiram e adentraram no bosque.
Agora, mais calmamente, Roguinil pôde olhar atentamente para Síva. Era mais baixa que a maioria das mulheres e parecia não pesar muito, daí sua destreza nos movimentos. Sua pele era um pouco mais escura que a de Kalena e tinha cabelos castanhos e curtos, cortados na frente de uma forma que lembrava pontas de uma estrela. Suas sobrancelhas finas pareciam um longo arco, ressaltando seus grandes olhos, cor de mel.
Usava uma veste de um couro marrom escuro que parecia estar grudado em seu corpo como se fizesse parte dele, e deixava algumas partes à mostra, revelando alguns ferimentos, inclusive. Provavelmente, eram o resultado de sua peripécia no Muntal. Possuía um cinto com alguns pequenos objetos. Nos dois braços usava braceletes de prata. O da esquerda continha uma dúzia de pequenas pedras de esmeralda cravejadas, no formato de um círculo, com mais uma no centro. O da direita, que era mais grosso, continha três pequenos encaixes. Havia ainda uma longa capa com um capuz, que dava para cobrir todo o corpo da caçadora. Também era de cor marrom em tom escuro, mas cintilava.
Aquela jovem inspirou ardentes desejos no príncipe.

– Olá! – disse Síva após um largo sorriso.
– “Olá”?! Você rouba um artefato do Muntal e liberta um demônio, depois rouba aquela pedra, pondo todos nós em risco com aqueles seres indestrutíveis, e vem com esse sorriso nos dizer “olá”?! – esbravejou Kalena.
– Se você achar melhor, eu posso dizer “oi”. – brincou a caçadora.
– Não vamos agora ficar julgando ninguém. Muito bem, minha jovem, onde está a Arca? – perguntou-lhe Volano.

Síva pegou de seu cinto, por trás da manta, um pequeno saco de pano e colocou sua mão dentro. O saco foi se alongando e ganhando um tamanho vinte vezes maior. De dentro, retirou a Arca de Zândrus.

– Como ela fez isso? – admirou-se Kalena.
– Consegui com um amigo. Diminui ou aumenta de tamanho conforme a minha necessidade, e as coisas que coloco aqui também. Não há nada que eu não possa levar aqui dentro.

Volano arregalava os olhos, que pareciam brilhar mais do que as estrelas no céu. A Arca era feita de madeira, com não mais que meio metro de comprimento, com dobradiças de ferro. Em seu centro havia uma face demoníaca, também feita de ferro, com dois longos chifres em alto relevo, grossos e pontudos dentes e grandes olhos negros. O Mestre estendeu vagarosamente sua mão, trêmula, para tocar no artefato No meio do caminho parou. Parecia pensativo.

– Ora, vamos logo! Pega logo nisso aqui! – falou Síva, puxando o braço do mago até a Arca, para tocá-la.
– A... a... Arca... a Arca de... de Zân... de Zândrus... – falava, completamente arrepiado.

 Os guerreiros olhavam para o artefato, mas não tinham a mesma admiração que Volano.

– Você acreditou que aí dentro tinha um grande tesouro? – perguntou Kalena, em tom irônico.

Síva pareceu não se importar com as palavras da princesa.

– Quanto o seu contratante havia lhe prometido? – questionou Cogles.
– Uma parte do que tivesse aí dentro, correto? – respondeu Meliel.
– Correto, mago. – confirmou Síva.
– Uma parte de quanto? Qual era o valor? – insistiu Cogles.
– Desculpe, mas as únicas pessoas que ficam sabendo de valores sou eu mesma e a pessoa que contrata meus serviços. Ninguém mais. Sabe... coisa de negócios.
– Como era essa pessoa que lhe contratou para roubar a Arca? – perguntou Roguinil.
– Ela já nos respondeu isso, príncipe, lá no Muntal. – apressou-se Meliel em responder. – A pessoa estava encapuzada, escondendo o seu rosto.
– Não sei quem é. Aliás, nunca procuro saber quem está contratando meus serviços. A única coisa que me importa é que me pague por ele. E muito bem. Mas de uma coisa vocês podem ter certeza. A pessoa que me contratou é um homem.
– Como pode ter certeza disso se você não viu nem o rosto? – perguntou Tóro, inseparável do braço de pedra.
– Porque, senhores, sou uma caçadora, e como tal, tenho sentidos e instintos aguçados. Sinto cheiro de homem a uma boa distância. – falou, olhando de forma sedutora para Roguinil. – E também sinto o fedor de mulher! – olhou com desprezo para Kalena. – Além do mais, sua voz era grossa, imponente. Uma mulher jamais conseguiria disfarçar aquela voz, eu garanto. E tem mais. Ao contrário de mim, ele é alto. – olhou para Kalena com um ar de repúdio, talvez de inveja pela estatura da princesa, que nesse instante fez questão de ficar mais ereta, como que para demonstrar uma certa superioridade em relação à caçadora de recompensas.
– Em nenhum instante você desconfiou de que não se tratava realmente de um tesouro? – perguntou Cogles.
– Você pergunta demais, não é? Só achei estranho quando já estava com essa Arca em mãos. Marcamos de nos encontrar naquele moinho abandonado, um pouco distante da cidade. Mas aí resolvi ir para a Grande Floresta e olhar com calma o que havia dentro da Arca. É um objeto interessante. Para abrir, tem de pressionar esses chifres aí. Foi quando esses olhos ficaram violetas e uma grande fumaça, de igual cor, saiu daí de dentro, configurando-se em uma sombra, que se arrastou por dentro da Floresta. Certa de que não era um tesouro, e sim um grande problema, voltei para o castelo e procurei o rei, que me atendeu de imediato. Aí ele me mandou voltar à Grande Floresta com uns soldados, pegar a Arca e trazê-la até vocês aqui para que possamos capturar aquela sombra de volta.
– Bom, os guardas, ao que parece, sumiram... E os cavalos que vocês usavam também! – observou Roguinil.
– Medrosos. Correram por causa daqueles seres de pedra. – zombou Síva.
– E o que vocês estavam fazendo lá no bosque, se o ponto de encontro era aqui? – perguntou Kalena.

A caçadora sentia o ar zombador e humilhante nas palavras da princesa. Respirou profundo, olhou para todos, que estavam ansiosos com a resposta, e falou.

– A tal sombra... nós estávamos aqui, esperando por vocês, e vi aquela sombra passando por aqui e entrando no bosque... aí fomos atrás dela... foi quando encontrei aquela pedra brilhante. Bom, peguei e...

Volano parecia ter perdido todo o ar. Estava com o rosto pálido e com as pernas bambas. Meliel, que também não parecia estar nada bem, aproximou-se do amigo como que para dar-lhe um suporte. O Mestre dos Magos olhou para o céu e viu a lua crescente, a primeira de sete.

– Ele acelerou os passos. De alguma forma, conseguiu chegar antes. E seus poderes vão aumentar a cada instante, até a metade da noite. – afirmou Volano.
– O que ele está dizendo? – sussurrou Síva nos ouvidos de Cogles.
– A tal sombra é um demônio com poderes para libertar um outro demônio que está no Templo de Kira. Temos de impedi-lo de fazer isso. – respondeu o guerreiro.
– Ahn? –a caçadora franziu a testa com um ar de que não havia compreendido uma palavra sequer.
– Rápido, todos vocês! Precisamos chegar logo no Templo. Está a menos de uma hora daqui... – ordenou Volano, tomando a frente do grupo e seguindo para o bosque. – E quanto a você... guarde isso de volta nessa sua sacola. – falou para Síva, entregando-lhe a Arca.
– Algumas coisas nossas estão faltando... – observou Cogles.
– Os mercadores devem ter levado quando fugiram das criaturas de pedra. – suspeitou Roguinil.
– Agora estamos sem comida, sem água, sem cavalos... de novo! – entristeceu-se Cogles.

Roguinil e Tóro entreolharam-se e depois para Síva. Abaixaram a cabeça e foram atrás de Volano e Meliel. Kalena olhou com desprezo para a caçadora e puxou Valmiro pelo braço, seguindo o príncipe. Cogles pareceu ser o único disposto a ser receptivo com a nova integrante do grupo.

– Não dê importância. Venha, estamos todos cansados e com fome. E precisando de um bom banho.

O guerreiro encarregou-se de fazer uma rápida apresentação de cada um a Síva, falando-lhe seus nomes, de onde vinham e quais armas usavam.

– Sabe Síva... considero-me um homem curioso e tenho orgulho disso; aprendo muito. E agora, dentre tantas curiosidades, há uma que realmente tira o meu sono. Esse artefato que pode prender os demônios... é uma caixa tão pequena... Mas insistem chamá-lo de arca, como se fosse uma caixa grande!

A caçadora apenas riu. Uma forte chuva começou a cair. Relâmpagos iluminavam a noite. Trovões formavam uma sinfonia um tanto tenebrosa para aquela ocasião. Meliel parou bruscamente e voltou-se para Valmiro.

– O grimoire... Continua com você?
– Continua.
– Não se separe dele por nada!


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Peter Ângelo
Enviado por Peter Ângelo em 19/10/2007
Reeditado em 21/10/2007
Código do texto: T701670

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Sobre o autor
Peter Ângelo
Salvador - Bahia - Brasil, 39 anos
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