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A Arca de Zândrus - Vol. 1 - O Guardião - Capítulo 10

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Capítulo 10
QUANDO A NOITE CAI

Volano assobiava levemente, como que se estivesse falando com Dinfa, a qual também parecia se comunicar perfeitamente com o mago, entrando e saindo por túneis que criara outrora, conduzindo o grupo rumo à região das Montanhas Geladas.
O ambiente contava apenas com a iluminação das pedrinhas brilhantes que Thapas cedera. A umidade fazia com que Valmiro freqüentemente limpasse o nariz na manga de suas vestes. Depois de algum tempo em que estavam fazendo o percurso, o jovem bruxo aproximou-se do pai.

– Ahn... sei que há muito tempo me disse para não mais conversarmos a respeito... Mas... é que lá nos degraus do Templo... – falava cabisbaixo, sem querer encarar Volano nos olhos.
– O assunto voltou a ocupar seus pensamentos, não é? – indagou o mago, e o jovem balançou a cabeça positivamente. O Mestre olhou para Tóro de tal forma que o bárbaro compreendeu que ambos queriam ficar a sós, ainda que não entendesse qual era o tal assunto que voltara a ocupar os pensamentos do rapaz. O xetriquênio afastou-se, indo para a outra ponta da criatura. – Creio que seja injusto que continue sem conhecer a história de sua mãe.

Valmiro levantou a cabeça e olhou espantado para o pai. Seus olhos pareciam dançar num ritmo frenético. Aquelas palavras soavam-lhe como música, mas ainda assim tinha a impressão de tê-las confundido.

– Como?!
– É isso mesmo... Está na hora de você saber algumas coisas a respeito de Zadhima, a sua mãe.

O jovem aproximou-se ainda mais do pai.

– Foi quando eu ainda fazia a minha primeira especialização na Academia de Candísio. Fiz muitas amizades com outros estudiosos e alguns mentores. As mulheres sempre foram raras nesse meio. Certa vez, alguns mentores de diversas especializações enviaram grupos para o Pântano Sombrio, no intuito de que aprendêssemos como extrair a seiva de umas plantas específicas da região, além de treino supervisionado de algumas magias. Eu e Meliel ficamos em grupos separados. Tivemos de parar em uma cidade para repousarmos. À noite, enquanto os demais descansavam, resolvemos dar uma volta pelas ruas para conhecer a cidade. Foi quando vi Zadhima pela primeira vez. Estava acompanhada de outras jovens. A mulher mais bela que eu já havia visto. Nunca sentira algo assim antes. É claro que eu tentei me aproximar, mas uma outra mulher, mais velha, aproximou-se do grupo. Parecia ser a mãe daquelas jovens. Levou-as para dentro de uma hospedaria. A noite esfriara bruscamente, pois era inverno. Ficamos frente à hospedaria, esperando pela oportunidade de vê-la mais uma vez. Eu queria mais que isso. Queria poder conversar com ela. As horas foram passando, as casas apagando suas luzes. A escuridão era quase completa e as brumas davam um ar sombrio às ruas. Retornamos para a hospedaria onde estavam nossos grupos. Eu não consegui dormir. Estava ansioso para que o sol raiasse.
– E quando amanheceu, correu para a hospedaria onde minha mãe estava.
– Exato! Mas, por mais cedo que eu tivesse ido, foi muito tarde. Meliel já estava lá e só agora entendo o por quê. Disseram-nos que Zadhima e as outras haviam saído antes dos primeiros raios de sol. Nunca mais a veria outra vez, foi o que pensei.
– Mas é claro que vocês voltaram a se encontrar! Eu nasci, não é verdade?

Volano sorriu com o comentário do filho.

– Sim, é claro que a gente voltou a se encontrar. Mas levaram-se anos para isso. Acabei tendo alguns envolvimentos rápidos com outras mulheres, nada que comprometesse os meus estudos. Pouco antes de completar a minha segunda especialização, eu e Meliel fomos enviados, juntamente com outros, por um dos mentores-chefe da Academia de Candísio para uma missão diplomática no Reino dos Mineradores, os quais estavam tendo um conflito com os Bisonhos por causa da delimitação das fronteiras de seus reinos, numa região que fica entre as Terras do Noroeste e as do Norte. O clima era favorável a uma guerra. Se isso ocorresse, temíamos que o sistema de alianças montado pelos dois reinos começasse a funcionar.
– Qual sistema de alianças?
– Os problemas entre Mineradores e Bisonhos eram antigos. Por isso, cada qual fizera um pacto com outros povos, uma aliança de proteção e cooperação mútua, criando assim a Liga Verde e a Aliança Amarela. Essas terminologias correspondem à cor das bandeiras dos reinos integrantes de cada pacto. Se os Mineradores, por exemplo, fossem atacados por algum membro da Aliança Amarela, os compactuados aos Mineradores, que formavam a Liga Verde, deveriam defender aqueles, declarando guerra ao reino Amarelo que atacara, e vice-versa. Isso poderia levar a um conflito armado de proporções só vistas na época em que os povos das Terras do Oeste e do Sudoeste lutaram para se libertar do domínio de Dilames.
– Muitas guerras já ocorreram no passado, não é?
– Sim, meu filho, muitas... Mas... quando chegamos ao centro político dos Mineradores, um outro grupo já havia chegado, também com a missão de encontrar um caminho diplomático para solucionar o conflito.
– O mentor-chefe enviou dois grupos para uma mesma missão?
– Não. Esse outro grupo pertencia a um outro reino, que não tinha qualquer envolvimento com o sistema de alianças, mas que tinha interesse de que a paz entre os povos fosse mantida. A líder do grupo era a princesa desse reino. Princesa Zadhima, sua mãe.

Valmiro deu um largo sorriso. Seus olhos brilharam e sua voz teve dificuldades para sair.

– Minha mãe? Uma princesa...?
– Sim, uma princesa. E dessa vez, consegui a oportunidade de aproximar-me dela, pois uma solução diplomática estava levando mais tempo do que se esperava. Meliel recebeu repentinamente uma outra missão e partiu para as Terras do Sudoeste. Contei à sua mãe o que ocorrera anos antes. Em alguns dias, nos vimos enamorados, apaixonados.
– E o que aconteceu depois?
– Bem... uma solução pacífica estava demorando muito, como eu disse. Então, o reino de Zadhima resolveu enviar outra pessoa para liderar as negociações. Alguém com maior poder de persuasão, de maior iniciativa. Alguém que julgavam ter mais preparo para questões delicadas como aquela. Enviaram outra princesa, a irmã mais velha de sua mãe. Foram necessários apenas dois dias para que um acordo fosse firmado entre Mineradores e Bisonhos. Assim, Zadhima teve de retornar ao seu povo.
– Por quê? Pensei que estivessem apaixonados um pelo outro...
– Infelizmente, algumas circunstâncias não permitiram que nosso envolvimento continuasse. Ao menos, não àquela época. Os anos vieram e trouxeram todas as suas conseqüências. Imaginava como estaria Zadhima, se estaria envelhecendo como eu. Assumi alguns cargos importantes no Reino de Dilames, mas consegui conciliar com os estudos de minha terceira especialização. Foi a época em que mais fiz trabalhos oficiais em nome da coroa dilamésia. Muitos trabalhos, inclusive, com o objetivo de manter a paz entre diversos povos. Comecei a ter o meu nome citado em várias partes de Fesgra e recebi milhares de propostas de trabalhos, todos muito honrosos e cobiçados. Certa vez até organizaram uma grande homenagem, na qual representantes de todos os reinos vieram me prestigiar. Inclusive Zadhima e a irmã. Foi quando fiquei sabendo qual era o seu reino. Sim, o tempo passara para ela também, mas não parecia ter sido tanto. E seus olhos... ah, seus olhos...! Revelavam que ela não se esquecera de mim...
– Ela prestou-lhe homenagens?
– Sim, juntamente com a irmã, em nome de seu povo. Ela até parecia orgulhosa de estar fazendo aquilo. Mas a notícia da morte de sua rainha chegou e ela teve de abandonar os festejos rapidamente. Em poucos dias, os que foram prestar homenagens a mim dirigiram-se a um local próximo do reino de sua mãe, para prestar uma última homenagem à rainha Vívian, A Pacificadora, como era conhecida.
– E quem assumiu o trono, minha mãe ou a irmã?
– A irmã, por direito, por ser mais velha. Foi quando Zadhima resolveu abdicar de tudo para viver comigo. Mas as leis de seu povo eram muito rigorosas e ninguém podia saber disso. Contou apenas a uma grande amiga, Lauane. Para viver em paz com a sua mãe, sem prejudicá-la, tinha de fazê-lo anonimamente. Se seu povo soubesse de seu envolvimento comigo ou com qualquer outro... Por isso, abandonei tudo.
– Mas ela não havia abdicado de tudo? Por que ainda tinha de seguir as leis de seu povo?
– Porque aquele povo é especial, meu filho. É um tanto complicado. Sua mãe faz parte de uma espécie um pouco diferente da nossa...
– Como assim? – indagou Valmiro assustado, verificando seu corpo como se estivesse à procura de algo que não fosse humano.
– Sua mãe é uma Donzela Celestial. – Volano viu que essa informação não significava muita coisa para o filho. – Lembra-se do que já falei sobre as Criaturas Místicas? Quando os Místicos misturaram o sangue de diversos seres para criar as suas Criaturas, acrescentaram o das Donzelas. Esse é o motivo das Criaturas terem algumas características ímpares. E é esse o motivo também dos Místicos terem confiado suas criações ao Reino Celestial quando foram atacados pelos que se opunham a suas experiências.
– O Reino Celestial... E ninguém podia atacá-lo?
– Só se conseguissem um meio de voar e bem alto. Esse reino fica em algum lugar nas nuvens. Ninguém nunca conseguiu alcançá-lo. Jamais foi invadido.
– Minha mãe... uma Donzela Celestial...! – o jovem estava irradiante. – E que características ímpares são essas?
– As Donzelas vivem pouco mais de cem anos, e as Criaturas também. As Donzelas procriam espontaneamente a cada trinta anos, se assim o quiserem. As Criaturas, uma única vez, quando estão próximas de morrer. As Donzelas só geram filhotes fêmeas, e as Criaturas também...
– Um instante...!!! As Donzelas só geram filhotes fêmeas?! Não tem algo de errado nisso aí, não?

O mago riu com a preocupação do filho.

– É um fato engraçado para você, eu sei. As Donzelas são férteis até o último suspiro de vida. A cada trinta anos, elas ficam aptas a gerarem uma cria, mas só o fazem se o desejarem. Não precisam de acasalamento para isso. É quando nascem, invariavelmente, filhotes fêmeas. Durante esse intervalo de tempo, se quiserem procriar, só podem fazê-lo com um parceiro. É quando nascem filhotes machos. Foi o que aconteceu no seu caso. Há centenas de anos, uma disputa pelo trono colocou machos e fêmeas do Reino Celestial em guerra. As Donzelas ganharam e, a partir de então, o envolvimento com machos ficou estritamente proibido. Quem não obedecesse seria punida com a morte, mas antes veria o filho ser degolado. Assim, as próximas gerações foram dominadas pela feminilidade.

Valmiro arrepiou-se. Seu sangue parecia que não mais corria pelas veias. Imaginava a cena. Ele, ainda um bebê, no colo da mãe, e algumas Donzelas Celestiais aproximando-se da cabana na Floresta, à procura dos dois para matá-los.

– A sua mãe abdicou de tudo, mas a Lei de Procriação continuava sendo válida para ela porque seu direito em herdar o trono continuava. Caso as filhas de sua irmã não pudessem assumi-lo, era Zadhima quem devera fazê-lo.
– E minha mãe não teve filhas?
– Ela teve a oportunidade, mas preferiu não. Achava um tanto solitário gerar uma vida daquela maneira. Quando saiu de seu reino, alegou que faria uma jornada por toda a ilha para conhecer melhor os povos. Apenas Lauane sabia da verdade. Abandonei tudo que fazia para viver com Zadhima. Construí uma cabana no meio da Floresta Petrificada, aonde poucas e restritas pessoas iriam nos visitar, como Thapas, único em quem confiei contar toda a história. Só agora compreendo o por quê de Meliel ter se afastado de mim nessa época. Mas ele não sabia que Zadhima era uma Donzela e nem dos obstáculos que isso criava para que eu e sua mãe ficássemos juntos.
– O que aconteceu?
– Depois de um tempo, você nasceu. Um lindo menino. Sua mãe já sabia que seria um menino. Foi quando me explicou esses detalhes da procriação. Estávamos vivendo uma vida simples, sem glórias nem honras, nem cargos importantes e invejados. Mas estávamos felizes. Sim, eu estava muito feliz. E sua mãe fazia questão de dizer-me que também estava, todo dia. Mas... um dia, Lauane veio nos visitar e trouxe uma notícia que mudou tudo. – Volano olhava fixo para o filho. Respirou fundo e prosseguiu. – A irmã de sua mãe fora visitar um reino e levou as duas filhas. Lá, uma peste começou a assolar repentinamente a população. Quase ninguém sobreviveu.

Valmiro balançava seus olhos enlouquecidamente.

– Sua mãe era, então, a única herdeira do trono. Se não assumisse, uma nova guerra poderia ocorrer. Mas havia um problema: a Lei de Procriação e a Voz Geral. A Lei impedia que qualquer Donzela tivesse um filho, fruto do relacionamento com um macho, e a punição era a morte da mãe e dessa cria. Mesmo sendo rainha, uma lei no Reino Celestial só pode ser alterada ou anulada mediante a expressa aprovação da Voz Geral, ou seja, todas as Donzelas, sem exceção, têm de concordar com tal mudança ou anulação. Era óbvio que algumas delas fariam de tudo para que Zadhima fosse impedida de assumir o trono, caso soubessem da sua existência, meu filho.

O bruxo abaixou a cabeça e deu um longo e profundo suspiro. Volano segurou-lhe a mão.

– Então, ela preferiu o trono a mim...
– Não exatamente. Ela temia que ocorresse uma guerra. Mas também não queria ficar sem você. Porém, ela não podia exibi-lo como seu filho. Foi uma decisão muito difícil. Combinamos que eu criaria você e que Lauane, sempre que possível, nos visitaria, para poder ver como você estava e dar notícias suas à Zadhima. A partir daquele instante, não mais poderíamos vê-la, a não ser em ocasiões oficiais. Mas isso nunca aconteceu, pois não voltei mais a trabalhar para os reinos...
– ... para que pudesse me dar atenção exclusiva...
– Sim, para que eu pudesse criá-lo. Sua mãe tornou-se a rainha do Reino Celestial e teve, espontaneamente, uma filha, uma herdeira, cumprindo uma exigência do cargo.
– Então eu tenho uma irmã!
– Sim, você tem. Ela é mais nova do que você alguns anos. Mas, infelizmente, você não poderá usufruir sua companhia. Ninguém pode saber dessa história. A Lei de Procriação continua em vigor e a punição prevista também.
– Então... minha mãe ainda está viva...
– Sim, meu filho. Ao menos, não tive notícias do contrário.

O bruxo sorria e parecia estar mais leve. Sua mente produzia imagens diversificadas de uma mulher. Qual delas se pareceria com a sua mãe? A umidade do ambiente tornara-se maior e Dinfa parecia ter tomado impulso, pois aumentara a velocidade. Volano e Valmiro escorregaram por seu corpo, mas Tóro os segurou. A criatura estava agora se rastejando por uma superfície inclinada.

– Estamos subindo. Já devemos estar nas Montanhas Geladas! – arriscou o xetriquênio.

De repente, a parte frontal da minhoquinha crescida de Thapas começou a se dividir horizontalmente. Era uma boca e dela saíram quatro compridas e grossas línguas, as quais foram arrancando pedaços de rocha à sua frente e rumando-as para as laterais num ritmo acelerado.

– Então é assim que ela vai cavando os túneis... – admirou-se o mago.

Em alguns instantes, as primeiras frestas de luz puderam ser percebidas. Aos poucos, um largo buraco foi feito e por ele a criatura pôde chegar à superfície.
O dia estava surgindo. O céu ainda estava tomado por um azul um pouco forte, mas seus pontos brilhantes estavam desaparecendo à medida que o sol surgia. A temperatura estava gélida. À frente do grupo, uma suntuosa cadeia de montanhas, algumas delas com porções róseas devido à presença de sonlistro, um cristal muito utilizado em magias.
As Montanhas Geladas tinham a sua base escurecida e iam clareando à medida que ganhavam altitude. Um determinado trecho era tomado por uma densa névoa. Depois disso, suas rochas ficavam esbranquiçadas, com poucas partes descobertas pela neve. Nessa região, a Grande Floresta tinha suas árvores diferentes do restante de sua extensão. Suas folhas eram mais grossas, mas seus galhos eram mais finos, e não atingiam mais do que sete metros de altura. Algumas delas estavam desfolhadas, mas não pareciam estar mortas. O chão era de uma grama fina, de um verde bem claro, com alguns trechos meio roxeados. Poucas flores eram vistas no local, bem como aves e animais.
Tóro olhou para o alto.

– Onde Dragonesa fica?
– Depois da névoa, bem depois... – respondeu Volano.

Dinfa voltou a se enfiar no buraco debaixo da terra.

– Como subiremos? – indagou o bárbaro.
– Usando telecinese... – sugeriu Valmiro.
– Até que poderíamos fazer isso, meu filho, mas é um longo caminho e sugaria muito da nossa energia. Não conseguiríamos ir muito longe. São três mil metros de altura. Além do mais, quanto mais subirmos, mais forte estará o vento. Precisarei me concentrar nele e não em telecinese!
– Bom, então voltamos à minha pergunta. Como subiremos?

* * * * *


Roguinil abriu vagarosamente seus olhos. Ainda estava cansado, mas os raios do sol não mais o deixariam dormir. Olhou em volta, ainda sonolento, e não viu Kalena, que dormira próximo. Meliel estava acordado, em pé, olhando para o horizonte. Foi ao seu encontro.

– Onde está a princesa?
– Levantou-se mais cedo. O senhor Cogles disse que iria procurar algo para comermos e ela foi junto para ajudá-lo.
– Ahn... tudo bem. Foram em qual direção?
– Naquela. – o mago apontou com o braço para o seu lado esquerdo.
– O que está fazendo?
– Observando, tentando ver se aquelas criaturas se aproximam.
– Algum sinal?
– Até agora, não.
– Esta noite será a terceira dessa lua...
– Correto, príncipe. O tempo parece estar contra nós...

O kan-potrense saiu à procura de Cogles e Kalena. Estava indo justamente em direção à nascente do sol, o qual, através de seus raios, atrapalhava-lhe a visão. Depois de andar um pouco, chegou a uma colina de onde pôde ver, a uma certa distância, um pequeno monte. No alto, uma árvore. Talvez a princesa e o guerreiro estivessem ali. Seguiu adiante. À medida que ia descendo a colina, a visão daquela árvore ia desaparecendo e sendo substituída pelo campo verde em alto relevo à sua frente.


* * * * *

– Está cheia de frutas, mas todas no alto. Acho melhor usar o Tripon para pegar algumas...
– Ora, ora, senhor Cogles, está com medo de subir em uma árvore? – zombou Kalena, escalando o tronco do vegetal e sumindo por entre suas folhas.

O guerreiro ouviu um “pega aí” e uma das frutas acertou a sua cabeça, quicando e caindo em seguida no chão. Abaixou-se para pegá-la e uma outra voltou a acertar-lhe. Várias começaram a cair no chão, jogadas pela princesa. Cogles começou a catá-las. De repente, Kalena deu um grito. Escorregara e caíra bem em cima do guerreiro, esparramando as frutas por todos os lados. Caíra frente a frente, com o rosto bem colado ao do companheiro de jornada. Ambos começaram a rir.

* * * * *

Roguinil já estava quase no topo do monte e podia ouvir as risadas dos dois. Quando as primeiras imagens deles foram tornando-se visíveis, o príncipe ficou com a respiração ofegante. O que era aquilo? Era daquele jeito que tinham ido atrás de alimento? Que audácia a de Cogles! Não, o guerreiro não sabia do envolvimento dos príncipes, não podia responsabilizá-lo pela atitude. Mas, e quanto a Kalena? O que lhe significou a tarde anterior, lá na cama de Kira, em seu Templo? Nada? Trocaram intimidades, carícias e agora estava prestes a fazer o mesmo com um outro homem!
Nunca, nenhuma mulher, o humilhara desse jeito. Seu sangue parecia ferver. Seus punhos estavam cerrados. Em seus olhos, o ódio era perceptível.
Vagarosamente, desembainhou a espada.

* * * * *

Tóro não tinha maiores dificuldades para escalar a montanha. Era um bárbaro, um caçador, estava acostumado a situações similares. Além do mais, contava com a ajuda das luvas de couro de leão. Já para Volano e Valmiro, os primeiros metros foram um suplício. Suavam, mesmo com a temperatura fria, devido ao grande esforço que empreendiam.
O mago pisou em falso e escorregou, mas seu filho o segurou pela mão; não conseguiu resistir por muito tempo. Os envolvidos com magia sempre foram conhecidos como péssimos exemplos de força física, mas excelentes no reflexo, na exatidão e na agilidade com feitiços. A poucos palmos do chão, Volano evitou um choque de seus corpos utilizando sua telecinese. A alguns metros de altura, Tóro avaliava a situação.

– Desse jeito, não chegarão ao topo nunca! – esbravejava.
– Ele tem razão, meu pai. Jamais conseguiremos subir desse jeito!

O Mestre suspirava forte. Encostou a ponta do cajado em sua testa. Parecia pensar em algo. De repente, deu um sorriso.

– É... talvez dê certo. Por que não?

O mago fez sinal para que o xetriquênio descesse. Enquanto isso, ergueu os braços. Repetia algumas palavras, poucas do conhecimento do filho. A brisa foi parando lentamente, até que cessou por completo. Apontou o cajado para a montanha e um forte vento surgiu, revirando tudo que estivesse à frente, e postou-se no pé da montanha. Era um pequeno redemoinho que Volano controlava com o cajado. Aos poucos, um degrau foi surgindo em meio às pedras. Mais acima, um outro, e outro mais adiante.

– O ar, com a força do vento e a paciência do cosmos através dos milhares de anos, vai transformando as rochas, modelando-as a seu gosto, com os formatos mais variados possíveis. Estou interferindo no processo, acelerando-o. É claro que estou providenciando um formato nas rochas que nos seja favorável!

À medida que mais degraus iam surgindo, o grupo ganhava altitude.

* * * * *

Meliel estava irrequieto. Já fazia algum tempo que os demais haviam saído e não tinha mais paciência para esperar. Abaixou-se para pegar seu cajado. Tomou um susto. Roguinil aparecera de repente sem fazer qualquer ruído. Segurava a espada, suja com sangue, pingando no chão. Estava com o rosto sério, meio aborrecido, meio irritado.
O mago foi levantando-se lentamente, atento a todos os movimentos do príncipe.

– O que houve? – tomou coragem para perguntar.
– Trouxe a comida... – respondeu o kan-potrense, jogando no chão um pequeno animal, todo estraçalhado, que caçara.
– Onde... onde estão Kalena e Cogles?

Antes que Roguinil respondesse algo, a princesa e o guerreiro surgiram, carregando muitas frutas que arrancaram da árvore.

– Trouxemos comida! – informava Kalena, alegremente, colocando as frutas no chão e dirigindo-se para Roguinil. – Espero que tenha dormido bem...
– É... acho que dormi demais! – falou-lhe rispidamente, virando as costas e se afastando.

A jovem dilamésia olhou confusa para Meliel e Cogles. Ambos lhe fizeram sinal de que também não entenderam a atitude do príncipe. Tentou mais uma vez uma aproximação, mas Roguinil apenas afastava-se.

– Precisamos voltar àquela vila para descobrirmos o que são aquelas criaturas. Faremos isso após comermos. – informou o mago, juntando uns gravetos e colocando fogo neles para assar o animal que o kan-potrense trouxera.

Menos de uma hora depois, o grupo partiu rumo à vila. Antes, Meliel pegara algumas pedrinhas e as juntara no chão, próximo à escadaria frontal do Templo, dando-lhes um formato.
Durante o percurso, Roguinil continuava distante de Kalena, evitando qualquer contato. Com Cogles também não era o de sempre, mas ao menos lhe respondia algumas palavras.

* * * * *

Os degraus que iam sendo criados por Volano eram irregulares, sem um padrão. À medida que ganhavam altitude, ficavam escorregadios por causa de uma fina camada de gelo que ia se formando rapidamente. Algumas vezes, Valmiro e, até mesmo Tóro, caíram, mas nada que os machucasse seriamente.
Essa “escada” improvisada pelo mago não circundava a montanha; isso tomaria muito tempo. Atingia um determinado ponto e, depois, Volano virava-se para o sentido oposto, e continuava com a magia e com a formação de mais degraus.
O grupo já havia alcançado centenas de metros de altura. O sol há muito ultrapassara o centro do céu, melhorando a situação, pois seus raios levavam calor àquela parte gélida da montanha. A alguns metros acima do grupo, iniciava a faixa de neblina.

– Esse será o pior trecho dessa escalada. – comentou o mago.
– Por quê?
– Porque, xetriquênio, essa neblina se estende por mais de duzentos metros de largura. A nossa visibilidade será quase nula, e o risco de um acidente será enorme. Além do mais, a partir dessa cerração, o ar torna-se mais gélido e vai se tornando congelante. Corremos o risco de não suportar o frio ainda dentro desse nevoeiro.
– O que faremos, então? – indagou Valmiro, apertando ainda mais a corda por dentro de suas vestes que prendia o grimoire.
– Vocês podem usar sua telecinese por quanto tempo? – Tóro tinha um ar de quem planejava alguma coisa.
– Cada um, separadamente, por alguns segundos, a depender do objeto que se concentre para levitar. – respondeu o Mestre. – Por quê?
– Tenho uma idéia. Mas só dará certo se vocês usarem direito esse negócio de telecinese.
– No que está pensando, senhor Tóro? – perguntou o jovem bruxo.

Um forte ‘aaahhhhhh....’ foi ouvido. Um projétil fora arremessado por entre a espessa camada de névoa, ultrapassando-a e atingindo um ponto mais acima da montanha. Era Valmiro, que só não se chocou mais forte contra a parede da montanha porque utilizou telecinese instantes antes para suavizar o impacto.
Menos de dois segundos depois, via seu pai surgindo das brumas, também arremessado pelo xetriquênio. O mago, mais ágil, usou seu poder e levitou, chegando suavemente ao ponto onde seu filho se encontrava.

– Ele é louco!!! – esbravejou o rapaz. – Podíamos ter caído!
– Na verdade... foi uma idéia muito criativa! Naturalmente, Tóro já é forte. Com aquelas luvas, sua força se multiplicou, o que permitiu que nos jogasse aqui .
– Tudo bem... Mas ele podia ter nos avisado de que faria isso! Levei o maior susto! Onde ele está?
– Ele escalará por entre a neblina. Garante que não será congelado. Precisamos continuar. Em algumas horas, a lua surgirá. A terceira dessa sua fase. – falava com um ar de preocupado.

O vento soprava forte. Mesmo com os raios do sol, a temperatura àquela localidade era fria. As mãos de Valmiro estavam geladas e as pontas de seus dedos ganhavam uma coloração roxeada. Sentia seu nariz congelante e constantemente fungava.

– É um risco muito grande continuarmos. Mas temos de fazê-lo. – Volano preparava o seu cajado para reiniciar a magia de ventos que formariam degraus quando seu filho interrompeu.
– E se não fôssemos aqui por fora? E se, ao invés disso, continuássemos, mas por dentro da montanha?

O mago olhava surpreso para o jovem, com um ar de incrédulo. De repente, seu olhar pareceu sorrir.

– Talvez... talvez dê certo! Por quê não? Vamos tentar! – ordenava o Mestre, empolgado.

Os dois tornaram seus olhos violetas e esferas dessa cor surgiram na palma de suas mãos. Lançaram-nas contra a parede. Fizeram outras e mais outras, até que um buraco foi surgindo.

– Está dando certo!!! – gritava Valmiro, entusiasmado.

Aos poucos, um pequeno túnel se formou, no qual pai e filho entraram.

– Ainda está frio... – falava o bruxo.
– Mas bem menos que lá fora.
– Vamos levar muito tempo até chegarmos no topo. Precisávamos de mais pessoas fazendo essa magia...

 Volano concordava com o filho. Mas não havia outras pessoas para ajudá-los. Pensou por um instante.

– Pessoas, não, mas elementais nós temos! – o mago afastou o jovem para trás e ergueu um pouco o seu cajado, o qual teve a ponta iluminada por um tom violeta. Duas linhas de igual tonalidade surgiram à sua frente e foram engrossando, ganhando membros e uma cabeça ovulada. Dois elementais da especialização Mundo das Trevas haviam sido criados. – Preciso me concentrar para controlá-los, ou eles podem se revoltar contra nós. Fique atrás de mim.
Usando o cajado, o mago ordenou aos elementais que dessem continuidade à construção daquele túnel, o qual foi sendo ampliado à medida que os seres cavavam a rocha usando raios que saíam de suas mãos. O túnel agora era “construído” de forma inclinada, o que levaria pai e filho ao topo da montanha.

* * * * *

O sol chegara ao poente. O céu estava avermelhado e o frio tornara-se mais intenso. O inverno aproximava-se, com sinais de que seria rigoroso.
Roguinil continuava evitando Kalena, a qual, depois de algumas tentativas, deu-se por vencida e desistiu. O grupo alcançara as primeiras casas daquela vila. Como ocorrera na noite anterior, nenhum sinal de pessoas. E dessa vez, nem daquelas criaturas. Pelo menos, até agora.
A noite chegou rapidamente. As moradias não mais estavam iluminadas; as velas dos candelabros já deviam ter se consumido por completo durante o dia.
Apesar de terem levado as frutas vermelhas para comerem no meio do caminho, Cogles ainda sentia fome. Meliel parecia ser o único que não estava preocupado em alimentar-se. Estava, na verdade, muito curioso em conhecer melhor aquelas criaturas. Nunca as vira antes. O que seriam? De onde surgiram? Alimentavam-se só de humanos? Não. Lembrou do que acontecera aos arcontauros.
Como apareceram naquela vila? Ninguém os vira chegando? Não houve tempo para que os habitantes pudessem se defender? Havia alguma forma de se defender? As suspeitas de Cogles estariam corretas? Seriam aquelas criaturas o “algo” que vinha matando as Criaturas Místicas?
Ouviram um barulho. Parecia ser um objeto metálico caindo no chão. Pararam. Aguardaram ansiosos por algum outro barulho, algum ruído que denunciasse onde aquelas criaturas estavam. Se é que estavam por ali. O vento estava forte e gélido. Continuaram ouvindo o som de algo metálico. Seguiram em frente, alcançando uma outra rua de casas. Viram um balde de metal no chão. O forte vento o estava arrastando.
Kalena suspirou aliviada. Cogles sentiu um pingo cair em sua cabeça.

– Acho que vai chover. – falou, passando a mão pela cabeça e olhando para cima. No alto da casa, uma das criaturas escancarava sua mandíbula, deixando sua saliva escorrer, parecendo que estava com um enorme apetite. – Acho que isso não é chuva, não...

A criatura pulou em cima do guerreiro, mas Roguinil o empurrou rapidamente. A fera estava sobre o kan-potrense, cobrindo-o por completo. Kalena pegou o Tripon e Meliel já estava com os olhos avermelhados quando, de repente, a criatura deu um forte rosnado. Sua carcaça superior parecia estar sendo elevada. A ponta da espada do príncipe surgiu por entre ela, esparramando um viscoso líquido verde.
Roguinil rasgava o animal ao meio. Ficara coberto por aquela gosma esverdeada. A jovem dilamésia ia ao seu encontro, mas pensou melhor e ficou parada, observando-o levantar-se.

– Precisa de um banho... – brincou Cogles.
– Salvo a sua vida e é assim que me agradece?! – o príncipe tinha um tom áspero.
– Tomem cuidado. Deve haver outros desses monstros por aí. – alertou o mago, seguindo cautelosamente em frente.

Os humanos alcançaram o centro da vila. Viram a casa onde estiveram na noite anterior. O príncipe entrou à procura de algum sinal dos centauros. Nada, nem mesmo seus ossos. Havia apenas o rastro de sangue que se estendia pela rua.
Kalena queria criar uma esfera de luz para que pudessem enxergar melhor o ambiente, mas seu mentor a impediu, alegando que isso poderia atrair milhares daquelas criaturas.
Viram no final da rua uma das feras passando, indo para a rua de trás. Cuidadosamente, foram atrás. Não havia mais casas, apenas um terreno baldio. Mais adiante, parecia haver um imenso buraco, onde a criatura entrou. Seguiram-na, rastejando-se pelo chão úmido, lamacento e sujo. Aos poucos, foram tendo uma visão nada agradável. O ser circulava por entre dezenas de centenas de ovos, alguns avermelhados, outros esverdeados, com algumas protuberâncias negras.

– Estão se reproduzindo... – observou a princesa.
– Onde estão os outros? – indagou Cogles.
– Alimento. Se estão colocando ovos, é certo de que foram procurar alimento. – concluiu Roguinil.
– Devem alimentar-se apenas de carne. Devoraram os moradores dessa vila e os arcontauros. – pontuou Meliel. – Assim sendo, onde mais encontrarão o que comer?

Todos se olharam. Pareciam ter chegado a uma mesma conclusão.

– Há quanto tempo de distância fica a próxima vila? – perguntou Kalena.
– Há mais de três horas, seguindo para o oeste. E não é uma vila. É uma cidade, com muito mais pessoas do que aqui. – respondeu seu mentor, com um ar preocupado.
– As criaturas comerão essas pessoas, porão novos ovos e continuarão em busca de mais alimento... – observava Roguinil.
– ... A menos que as detenhamos antes. Precisamos destruir esses ovos e ir atrás das criaturas. – sugeriu Cogles.
– Mas e quanto a Volano e os outros? Ficou combinado de que os esperaríamos no Templo, não foi?
– Correto, princesa. Mas parece que os habitantes desta vila não tiveram a menor chance contra essas criaturas. – lamentou Meliel. – Temos de impedir que alcancem outros povoados.
– Então o que estamos esperando? – o kan-potrense desembainhou a espada, preparando-se para o ataque. – Pegaremos aquele ali primeiramente, depois cuidaremos dos ovos.

O príncipe levantou-se e começou a correr em direção à criatura. O ser parecia sentir-se encurralado, solitário perante o ataque daqueles humanos, indefeso. Mero engano. A fera apanhou com suas patas dianteiras um dos ovos vermelhos e arremessou na direção de Roguinil.
O guerreiro atingiu o projétil com a espada, tentando cortá-lo ao meio. Foi quando o ovo explodiu, jogando-o para trás.
Os demais se entreolharam, com um semblante de que não compreenderam o ocorrido. Como um ovo podia ter explodido? Nunca tinham visto situação similar. De repente, alguns ovos esverdeados começaram a chocar. Expeliam uma gosma da mesma coloração. Pequenas criaturas foram saindo de dentro, caindo no solo. À medida que respiravam, pareciam inchar. Estavam ganhando tamanho, atingindo os três metros de comprimento em menos de um minuto. Cogles contabilizou. Agora eram nove seres que tinham de enfrentar.
Roguinil levantou-se, ainda um pouco zonzo. Tentava entender o que ocorrera, mas uma das feras avançou. O príncipe cortou-lhe o chifre, afastando-a. Mas ela não parecia que se intimidaria. Voltou a atacar e o kan-potrense acertou o olho esquerdo com a espada, enfiando-a profundamente. A criatura rugia, se debatia, tentava rasgar o braço do humano com as presas, mas o guerreiro empreendia grande força em sua arma, vencendo a fera afinal.
Outras quatro posicionaram-se de tal forma que cercaram Roguinil, o qual estava alerta, empunhando a espada, percorrendo seus olhos em todas as direções. Mais quatro criaturas surgiram, posicionando-se de forma intercalada às demais. Por mais bravo que o príncipe fosse, e o era bastante, sabia que agora se encontrava numa situação bastante complicada. Qual seria o melhor ataque? Ou será que deveria aguardar que avançassem para então se defender? Conseguiria perfurar seus corpos sem sofrer nenhum dano?
Quanto mais se questionava, mais chegava à certeza de que aquelas criaturas eram as últimas que enfrentaria.
As feras avançaram. Roguinil posicionou a espada. Sentiu seu corpo leve, mas não sentia mais o chão. As criaturas iam ficando pequenas, distantes. O que estava acontecendo? Olhou para baixo e pôde constatar que estava se afastando do chão. Era essa a sensação que as demais pessoas tinham quando morriam? Entrou em pânico. Morrera? Parecia que sim. Não conseguia ouvir mais nada a seu redor. Imagens do seu passado começaram a surgir em sua mente numa velocidade espantosa.
De repente, ouviu uma voz chamar por seu nome. Era uma voz conhecida. Olhou para trás e viu Meliel, Cogles e Kalena, esta com os olhos esbranquiçados e braços erguidos em sua direção. Entendeu assim que não morrera, afinal. A princesa dilamésia estava usando a sua telecinese para levitá-lo do local, afastando-o daquelas criaturas, trazendo-o para próximo de si.
Mais alguns ovos esverdeados começaram a chocar e dessa vez numa quantidade muito maior.

– Acho que já entendi... Os ovos verdes resultam em novos seres, enquanto os vermelhos apenas explodem. – comentou o mago.
– Cuidado!!! – alertou Cogles quando as feras lançaram ovos vermelhos na direção dos humanos.

Fortes explosões ocorreram, arremessando cada um para um lado. As criaturas agruparam-se e começaram a disparar diversos desses ovos. Inúmeras explosões ocorreram ao redor do grupo, ferindo Cogles e Kalena.

– Você está bem? – perguntou o mentor à sua pupila, a qual respondeu positivamente com a cabeça, alegando que era apenas um arranhão.
– Como combateremos? Não podemos nos aproximar dos ovos para destruí-los pois explodirão em cima da gente! – observou Roguinil.
– Se esses ovos explodem, é por que possuem fogo dentro. E fogo se combate com fogo. – Meliel ergueu o cajado.
 
Os olhos do mago ficaram de um vermelho vivo; parecia que soltariam chamas. A temperatura esquentou e os ovos vermelhos começaram a levitar. De repente, foram impulsionados em direção aos de cor esverdeada, acertando-os furiosamente, causando uma gigantesca labareda, iluminando todo o local.
As criaturas rugiam, debatiam-se, andavam descontroladamente de um lado para o outro. Pareciam estar confusas. Aproximavam-se da grande flama e miravam as cinzas dos ovos. Uma delas soltou um forte rosnado e todas as demais se enfileiraram e partiram em direção aos humanos. Meliel voltara ao seu estado normal.

– Agora é comigo! – falou Roguinil, empunhando a espada e correndo rumo às feras.

O príncipe pulou no dorso de uma das criaturas e depois no de outra, encravando nesta a Arma, ferindo e derrubando a fera. Uma delas pulou e acertaria o kan-potrense, mas Kalena foi mais ágil e disparou o Tripon, acertando a criatura bem na região de seu coração. Ainda assim, havia muitas outras para serem abatidas.
Uma fera diminuiu seus passos quando se aproximou de Cogles. Encarava o guerreiro e rosnava. O líder militar da Federação de Povoados olhava para todos os lados. Estava sem o chicote prateado. Quando a criatura avançou, deu um salto, impulsionando seu corpo para frente, caindo em cima da fera, ficando numa posição voltada para a cauda do animal.
Pegou duas adagas que levava escondidas e enfiou-as nas laterais da criatura, a qual deu um leve rosnado. Sua carcaça era dura e o guerreiro só conseguira feri-la superficialmente. Saiu de cima da fera e correu um pouco, tomando distância. A criatura parou e fez o retorno, avançando na direção de Cogles, que preparou as adagas e arremessou-as nos olhos da fera, acertando-os. O animal perdeu o controle e acabou tropeçando, embolando-se. Quase acertara o humano, que saiu do caminho. Aproximou-se da criatura, que já estava parada, meio tonta, e retirou as adagas de seus olhos, enfiando-as na região do pescoço, que se revelou mais vulnerável que o restante do corpo.
Enquanto isso ocorria, duas outras feras tentaram fechar o cerco contra Meliel, mas o mago demonstrou que é mesmo um especialista do Elemento do Fogo e provocou flamas em suas mãos, arremessando-as nas criaturas, incendiando-as rapidamente.
Kalena, de posse do Tripon, correu em direção a Roguinil, o qual já havia abatido uma boa quantidade daqueles seres. A princesa disparou a Arma, dilacerando uma das criaturas, acertando-lhe o pescoço, os olhos e as patas dianteiras. Enquanto corria, com os olhos esbranquiçados, a dilamésia lançou vários raios de igual tonalidade no chão, que ricochetearam e acertaram algumas feras, perfurando a carcaça de seus corpos.
Uma das criaturas derrubou a princesa usando a cauda, pulando em cima em seguida. Prendeu os braços e as pernas da jovem com as patas, deixando-a sem meios de defender-se. O peso que o animal imprimia era tanto que a dilamésia não conseguia arremessar o Tripon. A fera abriu sua bocarra e já ia devorar a cabeça da princesa, mas Roguinil correu e, com a espada, decepou o bestunto do animal, arremessando-o para longe.
Empurrando com o pé direito, retirou o restante do corpo da fera de cima de Kalena, que lançou-lhe um olhar de agradecida. O príncipe suspirou, tremeu os olhos. Virou-se de costas e correu em direção à outra criatura.
Em poucos instantes, o último daqueles seres era mutilado pela fúria do kan-potrense.

– Deve haver outros... Certamente, foram para a próxima cidade. Precisamos correr e ajudar seus habitantes. – dizia Meliel, com a respiração ofegante. – Deixarei um aviso para que Volano e os demais nos achem, como fiz quando saímos do Templo. – o mago pegou umas pedrinhas e juntou-as no chão, dando-lhes formato.
– Estou cansada. Preciso repousar.
– Infelizmente não teremos como fazê-lo agora. O seu descanso pode significar a morte para outras pessoas. – falou Roguinil, ríspido, embainhando a espada e seguindo em frente.

Meliel não gostou do jeito que o príncipe falara com Kalena, mas concordou com as suas palavras. Mesmo que estivessem cansados, não podiam permitir que os habitantes da próxima cidade fossem atacados de surpresa por aquelas criaturas. Tinham a oportunidade de ajudá-los e o fariam.
Volano combinara de encontrá-los no Templo de Kira três dias depois de terem se separado na Passagem pela Muralha. Isso seria dentro de duas manhãs. Meliel contava que seu amigo visse os sinais que deixara no chão, feitos com as pedrinhas, e que seguisse as pistas até ele e seu grupo, portando o coração de Dragonesa e a Arca de Zândrus, elementos agora imprescindíveis para aprisionar o Guardião e Gorak.

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Peter Ângelo
Enviado por Peter Ângelo em 23/11/2007
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Sobre o autor
Peter Ângelo
Salvador - Bahia - Brasil, 39 anos
12 textos (742 leituras)
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