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a lenda do principe de fithmar

         capitulo 1-A entrada de um estranho

Steven estava sentado na beira da sua cama revendo mentalmente as imagens daquela noite. Lá fora o sol inundava aos poucos os húmidos campos saudando os madrugadores.
Os ruídos dos moradores a levantarem-se eram audíveis no seu quarto. Quando ouviu alguém descer as escadas de madeira Steven levantou-se e lavou a cara no pequeno pote que Michelle deixara na sua cómoda. Ouviu então uma batida na porta de seu quarto
-Entre… - Disse roucamente limpando a cara.
Viu a cabeça de uma mulher, na casa dos 20 loura, olhos verdes, lábios carnudos e definidos, e nariz pequeno espreitar.
-Olá! – Disse Michelle alegremente
-Olá…
-Já estamos à mesa. Vens?
-Eu vou já.
Vestiu umas calças de couro castanho, uma camisola de linho branca, calçou as botas velhas e desgastadas que já há tanto tinha e dirigiu-se à pequena cozinha.
Ao chegar lá viu que já todos estavam sentados na velha mesa de madeira, aguardando que as panquecas estivessem prontas. Steven cumprimentou todos e sentou-se junto de Auriga. Em menos de 2 minutos um prato com quatro panquecas foi posto à sua frente. Steven pôs um pouco de doce de abóbora numa, chocolate derretido noutra e compota de framboesa num pedaço de pão.
-Steven será que hoje podes vir connosco até à taberna do Clone? Vamos ver se conseguimos negociar o edifício abandonado que ele tem junto da estalagem. – Perguntou Cassio.
-Claro.
Steven vivia com o seu tio e primos desde que os seus pais faleceram, aos seus 13 anos.
Acabou de comer calmamente e foi com os primos por as selas nos cavalos. Depois dirigiu-se ao quarto, tirou uma sacola com uma dúzia de moedas duma gaveta, vestiu o casaco de couro feito pelo tio e foi ter com os outros há entrada da casa.
A casa ficava um bocado afastada da vila, a cerca 2 minutos de cavalo e 6 a pé.
Desceram o monte, em direcção ao vale. Lá em baixo a pequena vila, na margem do rio, encontrava-se agitada. Era época das festanças e artistas viajantes de todo o reino exibiam os seus espectáculos à noite. Durante o dia, doçaria do reino era vendida, assim como bugigangas.
Ao chegarem junto da taberna de Clone, amarraram os cavalos nas traseiras e entraram.
A pequena taberna estava apinhada de gente, e o barulho de várias vozes a falar, o fumo intenso dos cachimbos e o calor humano fazia-se sentir.
Steven, Michelle, Auriga, Cassandra, Lupus, Lepus, Mónic e Anna, a mulher de Cassio, sentaram-se numa mesa enquanto Cassio ia falar com Clone.
-Hoje à noite queres vir connosco à feira Steven? – Perguntou Monic.
-Pode ser! Quem vem?
-Só nós, os pais vão ficar em casa. – Respondeu prontamente Cassandra.
Por essa altura já Cassio voltava.
-Bom correu tudo bem, vamos fechar negócio amanhã em princípio. Não precisei de nada hoje, mas acho melhor que venham amanha para me ajudarem com os papéis. – Disse ele. Cassio era analfabeto e precisava da ajuda de Steven e dos seus filhos em alguns assuntos.
Pegaram nos cavalos, deram uma volta pela feira e foram para casa.
Michelle era a mais velha dos primos de Steven. Tinha 28 anos e era solteira. Estava constantemente a arranjar namorados e já namorara com metade da vila. Seguia-se Lupus e Lepus, dois gémeos com cerca de 23 anos. Estes ainda eram muito crianças e ajudavam o velho pai, Cassio, nos negócios. Monic tinha 19 anos e era bastante responsável. Era um exemplo para os irmãos e Anna e Cassio orgulhavam-se muito dela. Cassandra tinha 16 anos e era bastante espontânea e divertida. Metia-se constantemente em sarilhos. Auriga tinha a mesma idade que Steven, 17 anos, e era muito parecido com Cassandra. Ele, Cassandra e Steven estavam sempre em alhadas.
Ao chegarem a casa tomaram todos banho, vestiram-se, jantaram rapidamente e dirigiram-se há vila.
Na vila já as tendas para os espectáculos estavam montadas e vários saltimbancos já exibiam os seus truques. Parecia que toda a vila saíra para ir ver o espectáculo.
Steven foi com Auriga e Cassandra para a taberna de Joice, um lugar agradável onde os jovens costumavam ir para conversar. O lugar estava com muita gente e, dificilmente, lá arranjaram uma mesa. Do outro lado da taberna estavam Lupus e Lepus com as suas namoradas, Angie e Mantor.
-Stev Sabes da Kirke? – Perguntou Cassandra metendo-se com ele. Kirke era o diminutivo de Kirstenken. Kirke era filha de Goph, o ferreiro da vila. Desde pequena que os quatro andavam sempre juntos e no último ano Steven começara a ganhar um fraquinho por ela.
-Não Cass, não sei! – Respondeu-lhe Steven fulminando-a com o olhar.
Nesse momento a campainha da porta tocou e viu-se Kirke entrar, com um ar divertido. Dirigiu-se a eles e sentou-se no tosco banco de madeira junto de Steven.
-Vocês nem sabem o que acabei de ver!! O mestre Conan, aos beijos com uma feirante! – Disse ela começando a rir às gargalhadas. Cassandra, Steven e Auriga riram-se juntamente com ela.
-Tas a gozar?! – Disse Joel recuperando do ataque de riso colectivo
-Juro-te!
-Quem diria! – Brincou Steven – O rígido mestre Conan aos beijos com uma feirante!
Acabaram de beber as suas bebidas e foram para uma das tendas, assistir a m espectáculo. Dirigiam-se para lá quando um homem de vestes ricas, negras, e uma mascara branca se aproximou de Steven. Pegou-lhe no braço e sussurrou:
-O caminho está livre, segunda porta a contar das nuvens lado esquerdo, três toques e diz “Smithra”. Entra e segue pelo pano na lareira. O pergaminho e instruções ser-te-ão entregue.
E tão rapidamente quanto apareceu o homem desvaneceu-se na multidão. Confuso Steven procurou na multidão mas não o voltou a ver. Foi ter com os amigos que tinham continuado e foi encontrá-los numa tenda a comer, Lydras, uma especialidade dos feirantes, uma coisa que só eles sabiam como fazer em todo o reino. Era uma espécie de massa mais fina que o pão, com uma diferente substância e chocolate que, de alguma forma, eles conseguiam por liquido e um pó doce, que poucos se davam ao luxo de ter, chamado de “aucaris”.
-Nem sonham o que me aconteceu. – Disse ele chegando junto deles.
-O que se passou? – Perguntou Auriga com a boca coberta de chocolate.
-Aqui não… - Respondeu-lhe puxando-os para uma rua vazia.  Contou-lhes o que o homem disse e quando acabou Cassandra deixou cair o seu Lydra, com os olhos esbugalhados e uma expressão de incredulidade.
-Que foi Cass? – Perguntou Kirke assustada
Cassandra apontou para o céu e murmurou:
-A segunda porta para lá das nuvens…
Os três olharam para o céu confusos. Não viram nada de mais, especialmente porque estava uma noite escura, sem estrelas.
-Não estamos a perceber – Disse por fim Auriga.
Cassandra pareceu acordar do seu hipnotismo e disse apontando para uma casa:
-Não é o céu trengos! A varanda! Aquela varanda!  Tem lá um desenho dumas nuvens.
Steven olhou novamente e viu de facto um pergaminho de papel pendurado numa varanda. Tinha um ar corroído e já estava meio rasgado pelo vento que se levantava mas ainda era possível distinguir duas nuvens desenhadas nele.
-O que é que é suposto significar isso? – Perguntou Auriga ainda não entendendo.
-A segunda porta a partir das nuvens! – Exclamou Steven começando a correr. – É isso!
-Ei, ei! Onde é que vais?! – Perguntou Kirke indo atrás dele.
-Vou ver afinal porque é que o homem me mandou aqui!
-Steven! – Exclamou Auriga num tom de repreensão. – O homem com certeza enganou-se!
-Opa Auri não queres, não vens!!! – Respondeu Cassandra.
Correram todos até à segunda porta para lá do desenho. Quando pararam Cassandra hesitou e disse a Steven:
-Tens a certeza que queres ir ver o que é?
-Oh… Por algum motivo ele me disse aquilo
-E se era só uma partida?
-Tu sabes como sou curioso Cass ….
-Eu sei…Ambos somos
-Eu, sinceramente, começo a achar que devíamos esquecer isto, estamos a fazer um grande drama, são coincidências a mais. – Disse Kirke.
-Então fazemos assim, eu e a Cass entramos e damos uma vista de olhos, vocês ficam aqui à porta. Se demorarmos muito chamem alguém e só entrem com alguém de confiança, de preferência um adulto, e se tiver alguma navalha ou algo do género ainda melhor. – Sugeriu Steven
Auriga e Kirke concordaram e sentaram-se na rua de terra batida, encostados à fria parede. Cassandra e Steven entreolharam-se e, cuidadosamente, deram três toques na velha porta de madeira e sussurraram “smithra”. Houve um momento de silêncio. Aguardaram um bom bocado mas nada… Quando Cassandra já se começava a fartar encostou-se à porta e esta abriu-se.
-Estava aberta – Disse ela confusa para Steven
Entraram os dois para uma pequena divisória. Em frente da porta estava um longo tapete, já com muito pó e, ao fundo da sala, quatro poltronas, descrevendo um circulo, em frente a uma lareira, coberta com um pano velho e roto. No centro das poltronas estava uma mesa redonda, com um castiçal velho e enferrujado, ostentando três velas brancas, já quase no fim. Na parede de pedra há sua direita Steven viu uma porta fechada e uma mesa com pergaminhos e tinteiros. Do lado Esquerdo toda a parede estava coberta por um espelho, dando um aspecto sombrio e irreal à sala. Todo o espaço estava coberto de muito pó e teias de aranha.
-Steven… Isto está a começar a assustar-me…
-Também a mim… Queres ir embora?
-Oh…Não…Vamos ver o que é o tal pergaminho… Anda! – Respondeu-lhe começando a avançar para a lareira. – txii isto tem tanto pó!
-Podes crer!
Steven foi à frente de Cassandra e levantou o pano. Encontrou um escuro túnel.
-Cassandra, acho que vamos precisar desse castiçal ai, importas de mo passar?
Cassandra pegou no castiçal e passou a Steven. Ele pôs-se de gatas e começou a avançar para dentro do túnel. Sentiu debaixo das mãos uma espécie de musgo húmido. Com nojo tentou ignorar isso e começou a avançar no frio túnel, sentindo ocasionalmente as teias de aranha prenderem-se ao seu corpo. Cedo descobriu que não tinha mais que alguns metros a percorrer. Submergiu para uma ampla sala, iluminada com a luz do luar que penetrava através de uma janela tosca, na extremidade da sala. A única coisa existente na divisão era um alçapão de madeira, com um puxador de ferro, e uma mesa de madeira, tosca e desgastada. Por cima da mesa tinha uma caixinha, também ela de madeira. Esta, em contraste a toda a divisória estava limpa e era linda. Tinha as suas superfícies trabalhadas, com desenhos gravados nela, envolvendo-se e fluindo tão naturalmente que seduzia quem olhasse para ela. Steven posou o castiçal na mesa e passou os dedos pelos desenhos gravados na caixa, enquanto Cassandra inspeccionava melhor a divisória. Olhando pela janela, viu que esta dava acesso a um pátio, com chão em pedra, coberto de musgo e ervas daninhas a espreitarem por entre as fendas de uma pedra para outra, e umas grandes paredes de pedra, cobertas de umas ervas, que trepavam por ela acima, e, ocasionalmente, encontrava umas lindas flores cor-de-rosa.
Steven tentou abrir a caixa mas esta encontrava-se fechada. Foi para junto de Cassandra e deu uma vista de olhos para o pátio.
-Isto é tudo muito estranho. – Disse Cassandra desconfiada. - Que tinha a caixa?
-Não sei, não a consegui abrir…
-E o alçapão?
-Ainda não fui ver
-Então do que estás à espera?! – Exclamou ela dirigindo-se para o alçapão. Puxou com força o puxador de ferro mas nada aconteceu. Olhou para as suas mãos e disse – Isto está cheio de ferrugem!
Steven tirou as botas de couro, as meias de lã e pô-las à volta da mão, utilizando-as como uma espécie de protecção. Fez força para cima com o puxador de ferro mas o alçapão não se moveu mais do que uns milímetros.
-Está perro! – Disse ele com voz rouca, ainda fazendo força para cima. Ao fim de uns segundos a fazer pressão conseguiu por fim abri-lo, sendo atirado para o chão com impulso. Tornou a calçar a meia e as botas de couro enquanto Cassandra se dirigia a mesa e trazia de volta o castiçal. Apontou para baixo fazendo luz para outro longo túnel, este agora feito de madeiras, no subsolo. Ao ver que o túnel mais lá à frente dava uma curva Cassandra disse para Steven:
-Acho que isto ainda vai demorar… Não será melhor irmos falar com Auriga e Kirke?
-Provavelmente…Eles assim podem chamar alguém. Queres que eu vá lá ou vais tu?
-Nem penses que eu vou sozinha, ou que fico aqui sozinha! Vamos os dois!
-Prontos, está bem…
Seguiram de volta pelo túnel inicial e foram dar à sala principal. Abriram a porta e viram Kirke aflita às voltas na rua. Quando os viu deu um salto e um guincho, assustada
-Que susto! Julgávamos que vos tinha acontecido alguma coisa! O Auri foi mesmo agora chamar alguém!!!
-Quê?! – Exclamou Steven aborrecido. – Nós não demorámos assim tanto! Vou ver se o apanho!
E saiu disparado, na direcção que Kirke disse que ele fora.
-O que é que descobriram lá dentro? – Perguntou Kirke curiosa quando viu Steven desaparecer na noite.
Cassandra contou-lhe o que viram. Quando acabou Kirke ficou entusiasmada.
-Ai vamos lá agora! – Exclamou ela em pulgas para ver a casa
-Tu ouviste o que eu disse? Aquilo é sinistro, eu por mim nem lá voltava!
-Vá lá! Deixaste-me curiosa! Temos tempo para ir até que eles voltem!!
-Ok…Mas vamos num instante!
Olhando para ambos os lados da rua para ver se os rapazes vinham aí entraram dentro da casa. Kirke percorreu com o olhar a pequena e abafada sala com cheiro a mofo, e, rapidamente, se dirigiu à lareira. Perguntou a Cassandra se ia dar à outra divisão e quando a outra afirmou que sim pegou no castiçal com as velas e, abaixando-se atravessou o túnel. Foram então dar à ampla sala. Desta vez o alçapão encontrava-se aberto e a primeira coisa que Kirke fez foi espreitar lá para dentro.
-Vamos? – Perguntou Cassandra ansiosa
-Ainda não! – Exclamou Kirke como que indignada.
Agachou-se e pousou o castiçal no chão, junto do alçapão. Quando viu as mãos livres, com um pequeno salto de agilidade, apoiando-se no chão poeirento saltou para dentro do túnel de madeira.
-O que é que estás a fazer pá?!!! – Exclamou Cassandra aborrecida
-Estou só a espreitar, espera um bocado!
Pegou com cuidado para não se queimar em uma das velas que estavam no castiçal e fez luz sobre o túnel. Ao fundo via-se uma claridade, vinda duma apertada curva. Do seu lado esquerdo estava apenas uma fria parede tapada com tábuas velhas e podres, pregadas com pregos ferrugentos. Avançou um bocado na direcção da claridade. Cassandra começou a praguejar e disse-lhe para esperar. Cuidadosamente pegou no castiçal e deixou-se afundar para o túnel. Pediu a Kirke que pusesse a vela no espaço livre do castiçal e avançaram as duas…

Entretanto lá fora Steven descobrira Auriga a tempo e ambos voltaram para junto do prédio. Pelo caminho Steven descrevera a Auriga o que vira e este, já de si um pouco medroso, ficou um tanto assustado. Ao ver que nenhuma das duas se encontrava à sua espera entreolharam-se alarmados.
-Achas que elas entraram sozinhas? – Perguntou Auriga com uma nota de medo na voz
-Talvez…Talvez a Cass tenha contado à Kirke o que vimos e ela entusiasmou-se… Sabes como a Kirke às vezes se excita quando se depara com o perigo…
-Sei…Estás… - Subitamente a voz falhou-lhe. Aclarando-a prosseguiu tentando dar um falso ar de confiança. – Estás a pensar ir à procura delas?
-Claro! – Exclamou Steven surpreendido com a pergunta do amigo, já abrindo a porta.
-Espera Steven! Não será…Perigoso?
-Não Auri! Olha se quiseres podes ficar aqui
-Não, não. Prefiro antes estar contigo!
Avançaram mais uma vez pela pequena sala. Steven ia decidido e confiante desta vez, sem olhar para o ambiente que o rodeava. Auri por sua vez estava receoso e não pareceu melhorar muito ao ver a sinistra sala. Steven reparou que o castiçal já não se encontrava em cima da mesa, o que significaria que teriam que atravessar o pequeno túnel às escuras. Estava um pouco hesitante em entrar lá com Auriga, uma vez que isso só iria piorar o seu estado, mas, surpreendentemente, Auriga conseguiu passar o túnel sem se queixar, apesar de Steven notar o ligeiro esbranquiçado que a sua cara se tornara. Ao saírem na larga sala Steven viu claridade a vir do alçapão. Apressou-se a saltar para dentro dele. Contudo Auriga não parecia querer seguir o exemplo do amigo.
-Então? – Perguntou ele impaciente
-Então? “Então?” diz ele! – Exclamou Auriga fingindo-se ofendido. – Por amor de deus! Sabemos lá se são elas que estão ai Stev!
Steven, que já estava a ficar farto da atitude do amigo fitou-o zangado com os olhos e com firmeza disse:
-Eu tenho a certeza que são elas. Se quiseres podes voltar lá para cima. Mas se voltares, voltas sozinho.
Auriga abriu duas vezes a boca para protestar mas nenhum som saiu. Acabou por encolher os ombros e descer pelo pequeno buraco.
Caminharam por cerca de 400 metros até que o túnel de madeira se formava numa recta e mostrava uma porta de onde provinha luz. Cuidadosamente aproximaram-se dela, tendo cuidado para não fazer barulho sob o chão de terra batida. Steven espreitou e viu um velho homem de barbas compridas brancas, assim como o seu cabelo sentado sobre um banco improvisado de madeira. O velho ostentava um ar cansado. Tinha a face muito enrugada e expressões fatigadas, umas vestes sujas e frias e uma bengala tosca. A seu lado estavam sentadas Kirke e Cassandra, em cima de um baú a conversar animadamente com o velho. A sala não era muito grande. Tinha a um canto, encostada na parede à sua direita um monte de trapos, cuidadosamente dobrados numa tentativa vã de os pôr direitos, o que Steven depreendeu ser a cama do velho. Ao lado da cama estava uma lamparina, uma caixinha de metal, um lápis, um caderno vermelho, velho, encardido e amarelado nas pontas e um copo com um liquido vermelho, que Steven pensou ser vinho. Na parede dos fundos, em frente à porta estava uma mesa pequena quadrada, já sem metade de umas das pernas, apoiada em cubos de madeira, com um banco de madeira muito rachado e poeirento. Sobre a mesa encontravam-se dois talheres, uns quantos pratos, duas bigornas de água, uma garrafa de vinho, trigo e sementes e especiarias. A outro canto estavam uns sacos de café amontoados no que parecia ser uma espécie de sofá improvisado. Junto do sofá via-se outros mantimentos, como roupas esfarrapadas, mantas rotas e com borboutos e comidas e latas de conserva.
Ao ver Steven e Auriga Cassandra deu um salto.
-Vocês!
-Que recepção tão calorenta. – Disse Steven sorrindo, satisfeito por as ver bem.
-Sentem-se rapazes – Disse o velho numa voz rouca e sumida.
Auriga e Steven sentaram-se nos sacos de café ainda um pouco confusos.
-Estava agora a explicar a estas duas jovens encantadoras porque estou aqui há tanto tempo….
-há tanto tempo? Como assim? – Perguntou Auriga desconfiado
-Não me interrompas por favor rapaz… Detesto isso, e não gostaria nada de ter que te expulsar daqui…
Auriga calou-se imediatamente corando um bocado.
-Como estava a dizer…Era eu ainda jovem, como vocês quando um feirante me abordou, numa noite, na época das festividades. Disse-me para vir ter a esta casa. Quando cá cheguei outros 5 jovens como eu se encontravam sentados em 5 almofadas de cetim. Sentei-me na sexta ainda bastante confuso. Contaram-nos a lenda do príncipe de filthmar. Não sei se já ouviram falar…
Assentiram com a cabeça. Steven recordava-se de lhe terem contado uma lenda, que contava que viriam tempos negros e o príncipe de fithmar seria o único que os poderia salvar do mal. No entanto ninguém sabia quem era o príncipe de Fithmar.
-Disseram-nos que tínhamos sido escolhidos para fazer de guardiães do segredo... Que quando chegasse a altura deveríamos instruir o príncipe, e até lá, guardar a sua espada. De 5 a 5 anos um mensageiro, com a vossa idade, seria ordenado e viria dar-nos mais mantimentos, para sobrevivermos por outros 5 anos. Entre um desses mensageiros estaria o príncipe, a forma de o reconhecer era por um sinal que ele tinha nas costas. Obviamente um dos rapazes recusou. Ao recusar e sair porta fora foi morto com uma espada. Nós, com medo de sermos também mortos, aceitámos. Nos primeiros 30 anos correu tudo bem, fomos postos cá em baixo, com direito de ver a luz do dia um dia de cada 5 em 5 anos, traziam-nos os mantimentos, davam-nos as notícias do mundo lá fora. No entanto…Há 8 anos que não vem ajuda… Há oito anos que não saímos… Os meus amigos envelheceram, outros morreram de subnutrição ou doenças, ou enlouqueceram e só resto eu.
Os 4 fitaram o velho atónitos. Era uma história muito “fantástica”, muito repescada. Por fim Steven disse:
-Como é que o senhor tem sobrevivido? E porque é que não sai daqui?
-Tínhamos mantimentos suficientes para um de nós sobreviver, como podes ver. Nós jurámos que não sairíamos… Mas suponho que tal como eles nos abandonaram também os deveria abandonar…
-E porque é que nos está a contar tudo isso?
-Sabes o que é passar 1 ano e meio sozinho?
Steven arrependeu-se de ter dito aquilo. Por fim Cassandra disse:
-Venha connosco
-Desculpa?! – Perguntaram o velho e Auriga em conjunto.
-Auri ‘tá calado. Sim, venha connosco. Nós damo-lhe comida e abrigo…
-Não posso negar tal oferta…São muitos anos aqui preso…
O velho arrumou numa trouxa meia dúzia de roupas esfarrapadas, o caderno e o lápis e a caixa e seguiu com eles para cima.
Caminharam até à casa de Kirke, para ela ir dizer à mãe que dormia na casa de Cass, Steven e Auriga, e depois, na noite escura foram para a quinta dos tios de Steven. Ao chegarem lá apenas uma luz se via acesa na velha casa de madeira, a luz da cozinha. Entraram pela porta dos fundos, que dava acesso à cozinha e viram Cassio e Anna sentados a jogar um velho jogo de madeira e pedras polidas. Ao entrarem Cassio virou a cara para a porta e soltou um grunhido de exclamação ao ver o velho.
-Quem é esse? – Perguntou de maus modos. – Já disse que não gosto que tragam estranhos.
Os olhos do velho encheram-se de lágrimas e dirigindo-se para Cassio que nem um louco, de braços abertos e dando sonoras gargalhadas, que mais pareciam grunhidos de um porco prestes a ser morto, pegou na cara de Cassio. Este fez uma expressão de nojo e afastou o velho, levantando-se de um salto.
-Que raio! Quem é você?!! Rapazes, expliquem-se!
Sentaram-se ainda todos muito confusos, o velho ainda um pouco excitado, e explicaram como o conheceram. Quando acabaram Cassio exclamou:
-E resolvem trazê-lo para cá?! Que te passou pela cabeça Cassandra?!
-Então, então Cass, estás a ficar velho e resmungão com o tempo! – Disse o velho rindo, agora normalmente.
-Cass? Tu chamaste-me Cass? – Uma expressão de incredulidade atravessou o rosto de Cassio. – Mas… Só…Não…
-Sim, só o teu irmão, Fithus, te chamava isso. – Disse ele sorrindo. – Estou aqui…Irmão
enthilza
Enviado por enthilza em 20/12/2005
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Sobre a autora
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Portugal, 25 anos
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