2014 - O ano da cura

2014 foi para mim o ano da cura. O ano em que minhas convicções sobre valores como o amor, a amizade, a lealdade, sobretudo a mim mesma, se fortaleceram. Foi também o ano em que compreendi visceralmente que as perdas, mesmo as mais dolorosas (e talvez por isso mesmo) são ricas oportunidades de aprendizado. O ano em que pensei ter chegado ao fim do túnel e descoberto que lá não havia luz alguma. O ano em que recuperei a capacidade de ouvir a minha própria voz e me permiti conversar comigo com um pouco mais de tolerância. O ano em que aprendi a rir das minhas limitações, das minhas imperfeições, das minhas incompetências. O ano em que entendi que não devo desculpas a ninguém por ser quem eu sou. O ano em que, afinal, comecei a compreender que ceder e conceder não são sinais de fraqueza e não fazem alguém nos amar mais, pelo contrário. O ano em me dei conta que só mudamos por nós mesmos, que a mudança vem porque escolhemos entre a desimportância e a essência, entre ser feliz ou estar certo. Que nossos esforços não fazem o impossível acontecer, mas podem tornar real o que nos parecia impossível antes de tentarmos.

2014 foi o ano em que deixei a caverna sem temer o sol, coloquei a cabeça para fora da água e também mergulhei sem receio de perder o folego. O ano em que perder o folego já não me assusta porque entendi que é melhor morrer de energia intensa que de inanição. Que é melhor morrer do que não viver. Que gestos grandiosos não são necessários a não ser que as pequenas ações sejam apenas filhas do medo. Que ser delicado e doce não é o mesmo que atender exclusivamente aos desejos alheios. Que quem nos ama nos vê como somos e aceita. Que quem não nos ama merece o nosso respeito, mas não a nossa dor. Que a dor não precisa ser necessariamente parceira do amor, nem todo o tempo. Que sofrer pode ser inevitável muitas vezes, mas não necessário.

Que a luz no fim do túnel pode estar lá, mas se não apertarmos o interruptor, se não acendermos a fogueira, se não abrirmos a janela, se não abrirmos os olhos enfim, talvez nunca a vejamos.

2014 foi também o ano em que percebi que a vida não nos foi dada para permanecer numa caixa como um brinquedo novo que não se quer quebrar. Que o presente da vida vai se desgastar com o tempo como é natural, mas que ao final de tudo será sempre aquele cobertorzinho que nos acompanhava a todos os lugares nos dando confiança, a boneca com quem conversávamos a noite ou nos momentos de solidão, a bola que nos permitiu encontrar os amigos, a bicicleta que nos levou a muitos lugares, o livro de história que nos permitiu viajar sem sair de casa, os sapatos dos adultos que experimentados nos faziam parecer grandes, os lanches trocados com outras crianças, só pelo prazer da novidade, as pedrinhas e flores apanhadas pelas ruas e que esquecíamos nos bolsos, mas ninguém podia jogar, a viagem desastrosa que acabou valendo pela companhia, as noites passadas em conversas infinitas com quem há muito não víamos, os guardanapos de papel com versos rabiscados enquanto estávamos com amigos, os laços de fita, o primeiro beijo, um oi no meio da tarde quando tudo parecia tão chato... 2014 foi o ano da cura porque o tempo não volta mesmo, mas uma intenção sincera pode fazer milagres.

Espero que 2015 seja o ano do fortalecimento das nossas crenças, nossos princípios, nossa fé. Que em 2015, a luz no fim do túnel esteja lá porque fomos capazes de acendê-la. Desejo profundamente e com todo o meu carinho que a cada ano a vida se renove, não porque não sofremos ou não envelhecemos (isso é mesmo impossível), mas porque, a cada dia, nos tornamos mais capazes de compreender seu valor, mais capazes de reinventar seus desenhos e suas cores, mais lúcidos e, apesar disso, mais loucamente capazes de apostar na felicidade e na cura.

Feliz ano novo e que Deus nos abençoe.

Raquel

31/12/2014.

Raquel DPires
Enviado por Raquel DPires em 31/12/2014
Reeditado em 08/02/2015
Código do texto: T5086392
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