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Sai na frente na “corrida evolutiva”!





NEU* e a SAÚDE mental


Espiritualidade e saúde
Revista científica divulga estudos sobre a espiritualidade
LUIZ CARLOS FORMIGA

No artigo publicado no Jornal dos Espíritos: “Viver as diferenças. Intolerância: a grande geradora do preconceito” deixei “uma petição inicial” (11 anos), na Revista de Enfermagem da UERJ, 4 (1): 89-102, 1996 - http://www.jornaldosespiritos.com/2007.3/col49.3.htm
Lá usei como título: “O que espero de meus médicos, idéias para uma declaração de direitos do paciente terminal”. Na petição não esqueci os fatos e os fundamentos, as causas de pedir remota e próxima: “espero que meus médicos lembrem e aceitem que sou admirador de Allan Kardec e de suas pesquisas, que descobriu que a morte do corpo não mata a vida. Meus médicos deverão lembrar que sou reencarnacionista. Deverão admitir e aceitar, sem preconceito,  que eu tenha esta "nova” visão da realidade, mesmo que seja diferente da concepção de mundo do pensamento hegemônico. Aos da equipe de saúde, talvez tenham sido meus alunos, quero lembrar não só a necessidade psicobiológica (eliminação intestinal, vesical, conforto físico), mas as necessidades psicossociais (comunicação, recreação, privacidade) e, principalmente nesta hora, as psicoespirituais. Praticar a minha religião, receber a terapêutica do passe, é para mim não só uma necessidade como também um direito.
Mas não é só por esse motivo que estou divulgando a Revista de Psiquiatria -
http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/
No seu editorial o Editor, Alexandre Moreira Almeida, diz que “desde tempos imemoriais, crenças, práticas e experiências espirituais têm sido um dos componentes mais prevalentes e influentes da maioria das sociedades. Profissionais de saúde, pesquisadores e a população em geral têm, cada vez mais, reconhecido a importância da dimensão religiosa/espiritual para a saúde. O número de estudos que investigam a relação entre espiritualidade e saúde tem crescido”.
Por outro lado, depois de muitos anos trabalhando com pesquisas ele afirma que “estudar cientificamente a espiritualidade é uma empreitada muito entusiasmante e perigosa. Essa é uma área repleta de preconceitos, preconceitos a favor e contra a espiritualidade.“
Para ajudar a quebrar esse preconceito e afirmando que saúde é um direito que tem que ser conquistado, embora obrigação do Estado, estamos divulgando o “marco histórico” que é a "Revista de Psiquiatria", onde o pesquisador foi editor convidado.


Luiz Carlos Formiga...

  http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/vol34/s1/5.html                              
Revista de Psiquiatria clínica, número 34, suplemento 1, 2007

Editorial
Espiritualidade e saúde: passado e futuro de uma relação controversa e desafiadora, de Alexander Moreira Almeida.
Prefácio
Religião, espiritualidade e psiquiatria: uma nova era na atenção à saúde mental, de Harold G. Koenig.
Artigos Originais
Investigando o desconhecido: filosofia da ciência e investigação de fenômenos “anômalos” na psiquiatria, de Silvio Seno Chibeni, Alexander Moreira Almeida.

Os primeiros curadores da humanidade: abordagens psicológicas e psiquiátricas sobre os xamãs e o xamanismo, de Stanley Krippner.

Estudos sobre religião e saúde mental realizados no Brasil: histórico e perspectivas atuais, de Paulo Dalgalarrondo.

O olhar dos psiquiatras brasileiros sobre os fenômenos de transe e possessão, de Angélica A. Silva de Almeida, Ana Maria G. R. Oda e Paulo Dalgalarrondo.

Perspectivas históricas da influência da mediunidade na construção de idéias psicológicas e psiquiátricas, de Carlos S. Alvarado, Fátima Regina Machado, Wellington Zangari e Nancy L. Zingrone.

Uso de práticas espirituais em instituição para portadores de deficiência mental, Frederico Camelo Leão e Francisco Lotufo Neto.

Programa de treinamento sobre a intervenção terapêutica “relaxamento, imagens mentais e espiritualidade” (RIME) para re-significar a dor espiritual de pacientes terminais, de Ana Catarina Araújo Elias, Joel Sales Giglio, Cibele Andrucioli de Mattos Pimenta e Linda Gentry El-Dash.

Revisões da Literatura
A religiosidade, a espiritualidade e o consumo de drogas, de Zila van der Meer Sanchez e Solange Aparecida Nappo.

A importância da integração da espiritualidade e da religiosidade no manejo da dor e dos cuidados paliativos, de Mario F. P. Peres, Ana Claudia de Lima Quintana Arantes, Patrícia Silva Lessa e Cristofer André Caous.

O impacto da espiritualidade na saúde física, de Hélio Penna Guimarães e Álvaro Avezum.

Religião, espiritualidade e transtornos psicóticos, de Harold G. Koenig.

Qualidade de vida e espiritualidade, de Raquel Gehrke Panzini, Neusa Sicca da Rocha, Denise Ruschel Bandeira e Marcelo Pio de Almeida Fleck.

Experiências de quase-morte: implicações clínicas, de Bruce Greyson.

Coping (enfrentamento) religioso/espiritual, de Raquel Gehrke Panzini e Denise Ruschel Bandeira.

Espiritualidade, religiosidade e psicoterapia, de Julio Fernando Prieto Peres, Manoel José Pereira Simão e Antonia Gladys Nasello.

Pontos de vista
Explicando o significado do WHOQOL-SRPB, de Marcelo P. Fleck, Suzanne Skevington.

Metade de uma carreira com a paranormalidade, de Ian Stevenson.

Órgão Oficial do Departamento e Instituto de Psiquiatria Faculdade de Medicina  - Universidade de São Paulo.

LUIZ CARLOS D. FORMIGA é professor universitário da UFRJ e UERJ, aposentado.

Religião, espiritualidade e psiquiatria:
uma nova era na atenção à saúde mental

Religion, spirituality and psychiatry: a new era in mental health care
Harold G. Koenig
Professor of Psychiatry & Behavioral Sciences. Associate Professor of Medicine, Duke University Medical Center. Geriatric Research, Education and Clinic Center Durham VA Medical Center.
Endereço para correspondência: Harold G. Koenig. Box 3400, Duke University Medical Center, Durham, NC 27710.
E-mail: koenig@geri.duke.edu.

Apoio financeiro do NIMH grant R01-MH57662 (Dr. Koenig).
Tradução: Alexander Moreira-Almeida.



A publicação deste número especial da Revista de Psiquiatria Clínica representa um marco no campo da religião, espiritualidade e saúde mental no Brasil e em outros países de Língua Portuguesa. De meu conhecimento, esta é a primeira revista psiquiátrica a devotar um número inteiro a esse tópico.
Os artigos aqui reunidos foram redigidos pelos pesquisadores brasileiros mais renomados na área e também incluem artigos de vários autores de fora do Brasil.
Neste prefácio, apresentarei um breve resumo de como o campo da religião, espiritualidade e saúde mental tem se desenvolvido, expressarei minha visão sobre o futuro deste campo e enfatizarei a importância da colaboração entre clínicos e cientistas brasileiros para assegurar que as necessidades psicológicas, sociais e espirituais dos pacientes sejam adequadamente atendidas.

Muitos dos primeiros hospitais destinados ao cuidado de pessoas com doenças mentais foram organizados por monges e sacerdotes. O tratamento “moral” (que valorizava o papel da religião e as contribuições dos clérigos nos cuidados) tornou-se o tipo dominante de cuidado psiquiátrico nos Estados Unidos e Europa no começo do século XIX. Entretanto, este cenário mudou no início do século XX com os escritos de Sigmund Freud na psiquiatria e de G. Stanley Hall na psicologia (Koenig, 1995). Esses autores acreditavam que religião gerava neurose e que teorias psicológicas iriam substituir as religiões como propiciadoras de visão de mundo e fonte de tratamento. Tais atitudes negativas em relação à religião não eram baseadas em pesquisas científicas nem em estudos sistemáticos, mas primordialmente
nas crenças e opiniões pessoais desses pioneiros. Como conseqüência, durante a maior parte do século
XX, o campo dos cuidados à saúde mental subestimou e freqüentemente desqualificou as crenças e práticas religiosas dos pacientes. Tais posturas estão refletidas em textos fortemente anti-religiosos escritos ainda nas décadas de 1980 e 1990 (Ellis, 1988; Watters, 1992).

Contudo, mudanças começaram a ocorrer na área da saúde mental na década de 1990 e na virada para o século XXI. Investigações sistemáticas passaram a demonstrar que pessoas religiosas não eram sempre neuróticas ou instáveis e que indivíduos com fé religiosa profunda na realidade pareciam lidar melhor com estresses da vida, recuperar-se mais rapidamente de depressão e apresentar menos ansiedade e outras emoções negativas que as pessoas menos religiosas (Larson et al., 1992; Koenig et al., 1992; 1993; Koenig et al., 1998; Koenig, 2006). Além disso, esses achados provinham não apenas de grupos de pesquisadores dos Estados Unidos, mas também de cientistas no Canadá (Baetz et al., 2002; Gee e Veevers, 1990; Harvey et al., 1987; O’Connor e Vallerand, 1989), Grã-Bretanha (Shams e Jackson, 1993; Cook et al., 1997), Irlanda (Maltby, 1997), Espanha (Luna et al., 1992), Suíça (Pfeifer e Waelty, 1995), Alemanha (Schwab e Petersen, 1990; Siegrist, 1996; Becker et al., 2006), Holanda e outras áreas da Europa (Braam et al., 1997; Braam et al., 2004), Malásia (Razali et al., 1998; Azhar et al., 1994), Tailândia (Tapanya et al., 1997), Austrália (Francis e Kaldor, 2002; Wollin et al., 2003), Nigéria (Ndom, 1996), Egito (Thorson, 1998), Oriente Médio (Anson et al., 1990; Abdel-Kalek, 2006) e Índia (Verghese et al., 1989).

De fato, uma pesquisa on-line na PsycINFO (uma base de dados que contém 2,3 milhões de pesquisas e artigos acadêmicos de 49 países em 27 idiomas), usando as palavras-chave “religion”, “religiosity”, “religious beliefs” e “spirituality”, revela algumas tendências interessantes. Quando restringi os anos da busca de 1971 a 1975, foram identificados 1.113 artigos, mas ao repetir a pesquisa restringindo-a aos anos entre 2001 e 2005, obtive 6.437 artigos, havendo um aumento de mais de 600% em 30 anos. Assim, parece ocorrer um rápido incremento na pesquisa e discussão acadêmicas relacionadas à relação entre religião, espiritualidade e saúde mental.

Dado que religião é importante para a maioria dos brasileiros e outros sul-americanos, não causa surpresa que haja interesse na ligação entre envolvimento religioso e saúde mental. Dos 6.437 artigos sobre religião/espiritualidade publicados entre 2001 e 2005, 20 envolveram artigos sobre religião, espiritualidade e saúde de brasileiros. Seis desses 20 artigos relatavam resultados de estudos quantitativos e quatro dessas pesquisas eram focadas em saúde mental.
Revisarei brevemente estes últimos aqui.

O primeiro estudou abordou 110 espíritas que freqüentavam um centro espírita bem conhecido em
São Paulo. Socialização, felicidade, religiosidade, mediunidade, personalidade e experiências dissociativas gerais foram medidas usando escalas padronizadas (Negro et al., 2002). Atividade mediúnica foi associada com mais experiências dissociativas, mas com bons escores em socialização e adaptação. Um segundo estudo envolveu 989 pacientes consecutivamente admitidos em uma unidade psiquiátrica em um hospital brasileiro (Dalgalarrondo et al., 2004a). Católicos e protestantes (a maioria era pentecostal) foram comparados em termos de sintomas, diagnóstico, tempo de internação e resultados clínicos. Protestantes eram mais jovens, mulheres, com menor nível educacional e tinham menor probabilidade de ser casados. Comparados com católicos, protestantes tinham maior probabilidade de ter esquizofrenia e menor probabilidade de ter transtornos por abuso de substâncias. Não houve diferenças quanto ao tempo de internação ou condição clínica no momento da alta. Os autores interpretaram que esses resultados poderiam ser devidos a padrões de busca de tratamento dos protestantes pentecostais, um grupo predominantemente de menor nível socioeconômico.

Um terceiro estudo examinou 2.287 estudantes de quatro escolas publicas e três escolas privadas (Dalgalarondo et al., 2004b). O uso de álcool, tabaco, medicamentos e drogas ilícitas no ultimo mês foi investigado. Estudantes sem uma filiação religiosa ou sem educação religiosa tinham um uso significativamente maior de drogas ilícitas (êxtase ou cocaína). O último estudo investigou os efeitos da filiação religiosa (pentecostais, espíritas e católicas) no uso de substâncias e na saúde mental (esta última medida pelo GHQ-12, em que pontuações maiores indicam maior morbidade psicológica) em 1.796 estudantes (Dalgalarondo et al., 2005). Pentecostais usaram menos tabaco, álcool e drogas e pontuaram menos no GHQ-12; espíritas usaram mais substâncias psicoativas e obtiveram maiores pontuações no
GHQ-12; e os católicos alcançaram escores intermediários entre os dois grupos. Esses quatro estudos dão ao leitor uma noção do tipo de pesquisa que está sendo realizada nesta área no Brasil.

Por que todo esse interesse nesta área? Porque estudos entre religião, espiritualidade e saúde mental? Há várias razões. Os resultados dessas pesquisas têm importantes implicações para o cuidado clínico dos pacientes. O conhecimento do impacto que as crenças religiosas podem ter na etiologia, diagnóstico e evolução dos transtornos psiquiátricos ajudará os psiquiatras a compreender melhor seus pacientes, avaliar quando as crenças religiosas ou espirituais são utilizadas para lidar melhor com a doença mental e quando podem estar exacerbando essa doença. A vasta maioria das pesquisas em populações saudáveis sugere que as crenças e práticas religiosas estão associadas com maior bem-estar, melhor saúde mental e um enfrentamento mais exitoso de situações estressantes. Essas associações entre religiosidade e melhor saúde mental são encontradas de modo mais marcante em situações de alto estresse. De
certo modo, esses achados também são verificados entre pacientes psiquiátricos, já que estes enfrentam um enorme estresse ambiental e psicossocial em razão de seus transtornos, necessitando de estratégias eficazes de enfrentamento. Por outro lado, alguns poucos estudos indicam associação entre envolvimento religioso e maior psicopatologia (veja artigo sobre religião e transtornos psicóticos nesta edição).

Em virtude do papel que as crenças religiosas e espirituais podem ter na doença psiquiátrica, é importante que psiquiatras coletem uma história espiritual em que sejam exploradas as crenças do paciente que podem estar influenciando a doença mental e como o paciente está lidando com a doença. Além disso, são necessárias muito mais pesquisas para melhor compreender como os diversos sistemas de crenças religiosas no Brasil e em outros países da América do Sul interagem com e influenciam os transtornos mentais.

A área da religião e da saúde mental é um campo clínico e de pesquisa com enorme potencial. Espero que este volume pioneiro da Revista de Psiquiatria Clínica possa estimular e abrir caminho a novas pesquisas e discussões que, em última instância, permitirão que os clínicos reconheçam a importância das crenças espirituais na saúde e nas doenças mentais dos pacientes que servimos, desse modo conduzindo a uma nova era de cuidados psiquiátricos culturalmente sensíveis à pessoa como um todo.


Referências

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http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/vol34/s1/5.html
Juli Lima
Enviado por Juli Lima em 06/12/2009
Reeditado em 06/12/2009
Código do texto: T1962977
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