Ficção Extemporânea: Amor Fati

Eu gostaria de propôr uma reflexão honesta para além de bem e mal e ao mesmo tempo lançar um desafio.

(Nota: se não conseguir pensar o problema fora do âmbito moral, então esqueça o que leu)

Quando dizemos Sim para um instante, quando dizemos "Sim, eu quero isto", então estamos dizendo, inconscientemente, que aprovamos como condicionantes tudo quanto já aconteceu de bom e de ruim na vida, pois não podemos separar o menor acontecimento do maior, tudo se interpenetra e se interliga... Estamos dizendo Sim para Hitler, para a escravidão, para a crueldade; não como assentimento, e sim porque a alegria, inclusive a menor dela, afirma a existência de todos fenômenos que participam do entrelaçamento cósmico...

- A dor diz - passa! A alegria diz - volta. Porque a alegria quer o retorno de si mesma, toda alegria quer a eternidade circular...

Compreende? Quero tornar este processo consciente...

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... aqui eu vos aconselho a não cair na armadilha de pensar em resignação ou fatalismo, acautelai-vos dessa sabedoria antiga - a resignação é a última forma da moral...

Não falo de aceitar a vida como uma fatalidade da qual nada podemos fazer, como se fosse o último dia a ser vivido ou resignar-se do que não pode ser mudado - basta um mínimo de bom senso para aceitarmos o óbvio. Mas eu proponho outra postura, eu quero ir além, eu quero elevar a sabedoria a um novo heroísmo, a uma nova função existencial além de conservar: como podemos viver a vida como primeiro e único dia?

...

Se um dia negamos, se depois nos resignamos, por que não haveríamos de poder querer de novo o que já foi? Uma nova sabedoria, uma nova busca, um novo mundo ainda inexplorado e cheio de perigos é o que proponho. A metáfora do "retorno do mesmo" nos abre para a criação de nós próprios através da experimentação do pensamento livre dos limites da razão e da moral.

Para isso devemos querer de novo... para abrir as subjetividades singulares presas pelas celas do pensamento teleológico. Mas quem hoje vive uma vida que desejaria repeti-la eternamente? Onde está o desejo redentor que se fisga ao pensamento para fazer o experimento sair da cachola? O que nos falta é amor? Coragem? Alegria? Espírito aventureiro?

Como já se deve ter entendido, a proposta é uma ética de vida singular fora do âmbito sistêmico da moral, uma vida à sua própria maneira, para além de bem e mal.

Se continuamos a avaliar a vida pelo prisma hedonista da moral e não compreendemos que estamos nos colocando num trono que não nos pertence, então ainda somos, no íntimo, crianças que só querem comer a parte doce da existência... e o que estou propondo é se somos capazes de abraçar a proposta e viver com a potência de um querer inexorável... inevitável em sua singularidade cósmica, abençoando a vida em sua imperfeição, onde a menor alegria sobrepõe-se ao maior infortúnio e faz querer de novo - Instante imenso...

Cada bom momento de nossa vida está entrelaçado com a maldade do outro: se mexermos aqui, mexemos acolá... se queremos isso e não aquilo, estamos sendo mimados e irresponsáveis: - e talvez toda sabedoria que queira expurgar o mal não passa de uma irresponsabilidade por parte daqueles que não querem se responsabilizar pela vida, indolentes que se queixam daquilo mesmo pelo qual partilham o riso - julgar um instante é dizer não a toda existência: teoria do caos...

Acautelai-vos! -/ não confundam postura de vida com assentimento de tortura\

Será que a menor alegria é capaz de abençoar a dor mais profunda?

Escrevo para todos e para ninguém: porque se pode levar o problema a sério ou não... é uma questão de valor, de consciência, é preciso enxergar que há aqui uma questão de primeira categoria para o pensamento - experimental...

É uma loucura egocêntrica do ser humano virar as costas a estas questões, e covardia fugir do desafio...

Quem somos nós para julgar o que acontece? Ou agimos ou julgamos. Ou colocamos a mão na massa ou somos apenas telespectadores. Instinto ou razão? Eis a questão. Só o desejo profundo abre as portas do Amor Fati. Só o querer transcende a moral da razão. Quem não coloca sua vontade nas coisas coloca nelas pelo menos um sentido, ou seja, acredita encontrar nelas uma vontade que as justifique, mas a "Providência" não existe, não temos mais nenhum direito a esta interpretação, nos resta ficar atentos para pegar o caos pelos cabelos e nele colocarmos nossa vontade criadora: - Assim eu quis, assim eu quero, assim eu hei de querer...

- Sim!

Amém

Fiódor
Enviado por Fiódor em 27/07/2023
Reeditado em 07/02/2024
Código do texto: T7847493
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