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O Natal de Moacir

Moacir checou a conta bancária de novo. Não, não podia ser! Puxou extratos, boletos, uma calculadora de quatro operações com os botões gastos e compartimento de pilhas fechado na base da fita isolante. Numa folha amassada refez as contas.

- Puta que pariu!

Não ia dar. Ele contava com o décimo terceiro para fazer as compras, quitar as dívidas atrasadas, aliviar um pouco a carga no cheque especial, mas no final das contas não ia sobrar dinheiro para quase nada. De novo.

- Que merda!

A escola da Julinha. O financiamento da casa. O crediário da geladeira. O cartão de crédito. Combustível. Supermercado. Roupas. Os remédios da sua mãe. Tevê à cabo. Internet. Telefone. Luz. Gás. Água. Condomínio. O empréstimo do banco.

Somando tudo ele ainda ficava devendo. E precisava pensar em janeiro. IPVA, IPTU, licenciamento do carro, uniforme, material escolar...

Não ia dar. E ele contava tanto que ia sobrar uma graninha para comprar o celular que a Lelê tinha pedido de Natal. Ela estava precisando, com o novo emprego e tudo, mas ele não ia conseguir. Até a Julinha ia ficar sem a bicicleta que ele prometeu. No máximo ia conseguir comprar um patinete. De segunda mão.

- Caralho...

Mas o que mais o incomodava era que pelo sexto ano consecutivo não ia conseguir comprar o presente que ele queria. Todo Natal ele tinha algo que queria comprar para si próprio, como recompensa por conseguir atravessar mais um ano equilibrando-se no fio da faca. E nunca conseguia. A lista era longa. Começou com certa pretensão:Um DVD Player. Uma câmera digital. Um som com MP3 para o carro. Depois começou a diminuir o valor de seus desejos: Uma caixa de ferramentas. Um discman sem MP3 mesmo. Esse ano ele queria somente o box do Poderoso Chefão em DVD (o aparelho ele comprou de qualquer jeito, em doze vezes sem juros). E não ia dar.

- Cacete!

Sabia que era um desejo egoísta. Tinha tantas coisas mais importantes para fazer. Mas já fazia tanto tempo que ele havia relegado seus desejos para segundo plano que aquilo era mais que um desejo material. Era quase uma compensação. Ele merecia, pô!

E o dia de Natal chegou. Foi na casa de sua mãe. Encontrou os parentes que só encontrava em duas situações: Natal ou enterro. E pela cara do seu tio Tonho, o próximo encontro não estava muito longe. A porcaria do gato havia arranhado toda sua poltrona favorita. A tia Malú estava falando alto como sempre. E só abobrinha! Como é possível? Todo ano a mesma coisa! A molecada corria de um lado para o outro. O Zezinho chegou a derrubar sua cerveja no carpete. Malú gritou seu já conhecido bordão: "Menino, olha os modos!", mas não se dignou a buscar um pano para enxugar a bagunça. O tio Joca trouxe uma garrafa de uísque paraguaio, bebeu metade sozinho, e começou a cantar Caubi Peixoto. Marcos, seu irmão, mostrou a nova câmera digital que ele tinha comprado. "Cinco Megapicsseus!", bradou ele, como se tivesse a menor noção do que aquilo significava. Estava com uma namorada nova, uma loira gostosíssima, mas burra que nem uma peteca. Ele sempre gostou de estereótipos. Sua ex-mulher também estava lá, lançando dardos com os olhos. Depois de algum tempo ela estava ajudando o tio Joca com o uísque. Aquilo não ia terminar bem.

Moacir sentou perto da televisão. Não tinha saco para o Natal em família. Estava passando especial da Xuxa. Pegou o controle e colocou no canal de esportes. A vaia foi imediata. Não das crianças, o pretenso público alvo daquele programa imbecil, mas das tias. Até sua mãe reclamou. Voltou para o canal, e levantou do sofá. Precisava de mais uma cerveja.

Na cozinha o tio Joca observava com os  olhos ébrios Pedro e o tio Juarez. Estavam comparando ganhos no ano. Pedro, namorado de sua prima Vitória, era operador da bolsa. Juarez era estelionatário. Para Moacir pareciam dois moleques disputando para ver quem tinha o pipi maior. Juarez ganhou, como sempre.

De repente ouviu o grito estridente de Malú. Era hora dos presentes. Gerou-se uma comoção na sala. Alguém reclamou que tinham pisado no seu pé. Muitas risadas. Crianças ansiosas. Xuxa cantando ao fundo com sua vozinha insuportável. Ninguém baixou o volume. Malú, mais empolgada que as crianças, vestia um gorro de Papai Noel. Parecia um ogro de Natal.

A distribuição começou. Primeiro as crianças, primeiro as crianças! Logo o ambiente estava lotado de papel colorido rasgado, fitas e barulhos. Alguém deu um skate pro Zezinho, e ele começou a andar ali mesmo. Julinha deu um sorriso amarelo quando viu o patinete, mas beijou Moacir mesmo assim. Lelê tentou se empolgar com o relógio que ganhara, mas no fundo ela sabia que era falsificado. Marcos fez questão de esfregar na sua cara o palmtop que tinha ganho de sua nova namorada (e que provavelmente ele tinha pago). "Cento e cinqüenta e dois megabaites!", comemorou. Mega babaca.

Quase no final da cerveja jogaram um pacote dourado no colo de Moacir. Retangular, do tamanho de uma caixa de DVD, mas mais grosso. Seu nome estava lá, mas não o do remetente. O coração de Moacir disparou. Será que haviam feito aquela surpresa para ele? Não, não podia ser. A Lelê ainda não teria condições. Sua mãe muito menos. Ele sabia o quanto ela tinha no banco. A Julinha não tinha dinheiro nenhum. Vivia reclamando que queria uma mesada, então não podia ser ela.

Moacir esboçou um sorriso. Estava com medo de abrir. Era maravilhoso demais para ser verdade. Não o presente em si, mas o que ele significava. Ele foi lembrado, finalmente! Depois de tantos anos seus esforços foram reconhecidos. Não importava realmente quem tinha comprado o presente. Podia ter sido até coisa do Papai Noel!

Sentiu os ombros relaxarem. Olhou para a esposa, e ela lhe mandou um beijo. Estava usando o relógio falsificado no pulso. Moacir se repreendeu por ter sido tão muquirana naquela noite tão especial. Ia no dia seguinte trocar aquele relógio vagabundo por um celular. Com tela colorida e tudo. A Lelê merecia. Nem que fosse necessário fazer mais um crediário. Dane-se o dinheiro!

Sem que realmente percebesse, seus dedos romperam o lacre da embalagem. Com os olhos úmidos desfez o pacote. A confusão da festa de repente se tornou uma música. Precisava deixar de ser ranzinza. A Lelê não merecia, nem a Julinha. Tirou o papel de embrulho e jogou-o de lado. De um salto ergueu-se do sofá.

- Porra! Duas caixas de lenço Presidente é de foder!


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Alexandre Heredia é co-editor do NecroZine (http://www.necrozine.blogspot.com/), e mantém os sites Psicopata Enrustido (http://www.psicopataenrustido.blogspot.com/) e Antelóquios (http://www.anteloquios.blogspot.com).
Alexandre Heredia
Enviado por Alexandre Heredia em 12/05/2005
Código do texto: T16497
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Sobre o autor
Alexandre Heredia
São Paulo - São Paulo - Brasil, 42 anos
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Alexandre Heredia