Neblina e a Ninja, prefácio e introdução

 

NEBLINA E A NINJA

 

 

 

Miguel Carqueija

 

 

 

PREFÁCIO

 

(por Marcello Simão Branco)

 

 

Miguel Carqueija é uma figura singular na ficção científica brasileira. A começar por sua constância e produtividade, pois é um dos autores mais presentes desde o início da Segunda Onda da FC brasileira, a partir do começo dos anos 80. Primeiro nos fanzines, a seguir em coletâneas produzidas por ele mesmo, depois em antologias temáticas e, mais recentemente, através da publicação de livros com autoria própria, o que demarca sua evolução como autor e em paralelo com as características do próprio gênero que ele ajudou a desenvolver no país.

Outra peculiaridade notável é a sua personalidade. Pode-se discordar de suas idéias, mas se há uma pessoa que as têm e as defende com vigor dentro da comunidade brasileira de FC, é Carqueija. A partir da força de suas crenças e opiniões obviamente está, vez por outra, envolvido em polêmicas. Mas, ao contrário de outros colegas, nunca perde a compostura. Cavalheiro, para ele se aplica o ditado: “Brigam as idéias e não as pessoas”.

Carqueija também é identificado fortemente com os temas que trabalha em sua obra. Dentre eles, o papel da mulher tem destaque por meio de várias aventuras. Mais que mero entretenimento, contudo, a posição de protagonismo por elas exercida nos revela como o autor as enxerga no seio da sociedade contemporânea, ao refletir como o ponto de vista e a ação a partir de uma perspectiva mais, digamos, intuitiva e sensível, pode iluminar problemas e apontar possíveis soluções, seja de ordem social, psicológica ou política.

Mas o tom dos relatos de Carqueija não é intimista e sim expansivo, por meio de vibrantes aventuras em que a mulher é colocada em destaque sobre assuntos importantes. Tal é o que ocorre numa de suas histórias mais divertidas, a novela de FC “Neblina e a Ninja”.

Tive o prazer de publicá-la originalmente nas páginas do fanzine Megalon por onze edições, de janeiro de 1994 a janeiro de 1996, sendo a primeira e mais longa série a aparecer num fanzine brasileiro de FC.

A história mostra um futuro em que a humanidade voltou às cavernas, por causa de problemas ambientais e de guerras. Reconstruiu sua civilização nos subterrâneos da Terra, mantida através da energia solar filtrada através de cristais que a retiram de torres que absorvem a luz, e reproduziu as divisões geopolíticas que vicejavam na superfície. A narrativa se passa na cidade de Nova Brasília. Dentro deste contexto, ocorre mais uma vez o clássico embate entre o Bem e o Mal, por meio, justamente, de duas altivas e poderosas figuras femininas. Neblina, uma investigadora com poderes especiais e Ninja, uma temível oponente que lidera a gangue dos Bandidos Negros.

Crimes começam a acontecer em Nova Brasília e logo se descobre que Ninja e seus asseclas estão à frente de assassinatos e sequestros. A polícia mostra-se incompetente para combatê-los através dos métodos convencionais, abrindo espaço para a figura destemida de Neblina.

Como o leitor deverá perceber, o ritmo dos acontecimentos é intenso, com agilidade narrativa, semelhante ao consagrado recurso dos folhetins. A esta moldura estilística fluente, Carqueija insere especulações culturais e políticas pertinentes, tanto na construção de um mundo aparentemente retrô, como no protagonismo feminino e, principalmente, sobre as motivações e rivalidades subjacentes aos atos das duas competidoras que, em certo sentido, são luz e sombra uma da outra.

De certo modo, com a disputa entre as duas podemos pensar num instigante paralelismo com a própria situação da humanidade, ao ter de abandonar a luz para viver no escuro, devido aos seus contratempos e contradições. Por este aspecto e sob uma aparente narrativa de entretenimento ligeiro, temos, além do prazer da leitura, um subtexto crítico que a fundamenta e que segue, em muitos sentidos, elementos da própria visão de mundo do autor.

 

(Marcello Simão Branco é jornalista, pesquisador e escritor, tendo editado durante anos o famoso fanzine “Megalon”, além de ter editado e organizado antologias e novelas de ficção científica.)

 

 

 

 

NEBLINA E A NINJA

 

Miguel Carqueija

 

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

 

 

A VIDA NO ABISMO

 

 

 

Num distante futuro, a superfície da Terra tornou-se praticamente inabitável e a raça humana, em consequência, precisou transferir-se para o interior do planeta, ocupando grandes cavernas naturais e construindo outras. Catástrofes diversas, naturais e artificiais, principalmente a destruição da camada de ozônio, determinaram esta situação. Assim, um gigantesco esforço transferiu centenas de milhões de pessoas para o subsolo, com seus objetos e tecnologias, e o que foi possível transportar de animais e plantas. As nações tornaram-se subterrâneas e cidades, estradas, fazendas, até rios, lagos e reservas naturais, surgiram no abismo.

Nesse estranho mundo de amanhã ainda existe o crime organizado. As quadrilhas ressuscitaram antigas tradições dos piratas e buscam manter os seus refúgios tão auto-suficientes quanto possível. Para tanto, o principal objetivo das quadrilhas acabou sendo o roubo das fontes energéticas (notadamente os cristais) indispensáveis à vida nas profundezas. A civilização do futuro baniu a energia nuclear e depende essencialmente do Sol. Para aproveitá-lo imensas torres se projetam ao “teto” do mundo, atravessando-o, e já a grande altura da superfície ostentam as suas cúpulas energéticas. Na parte superior antenas e espelhos solares captam a radiação do Sol; a mesma vai então para a cobertura, sendo concentrada na caixa de cristais de energia (diamantes sintéticos especiais) e de

lá, por dutos, levada ao interior da Terra. Essas torres são fortemente protegidas, por causa dos constantes raides dos piratas.

Nessa época também existe um avançadíssimo Estatuto dos Superdotados, reconhecido internacionalmente. Por esse estatuto, qualquer pessoa idônea que prove ser superdotada intelectualmente pode obter privilégios especiais, como o direito de ocultar a identidade, ou andar em público com o rosto mascarado, e participar de atividades ou pesquisas diversas: arqueológicas, beneficentes ou, inclusive, policiais – ainda que não possua, neste ou naquele caso, faculdade correspondente.

Eis o futuro do mundo. Eis o campo de batalha em que o Bem e o Mal mais uma vez se defrontarão, nas pessoas de Neblina e a Ninja.