Um olhar sobre Belém

Um olhar sobre Belém

“Minha terra tem mangueiras, palmeiras imperiais, chuva diária e passageira e rios maiores que os de Fernando Pessoa”.

Gosto de detalhes, de sutilezas, entrelinhas, talvez parte pela minha alma poética, outra por ser daqui, canto de um povo tão diverso, ou quem sabe por que sou Amazônida, mais verde que o usual... Não sei. Só sei que gosto demais das particularidades do meu lugar, e vivo isso, na medida do que posso bem e intensamente.

Quando ando, passo pelas Ruas da Cidade Velha, cada pequena marca do antigo é observada, o estreito das ruas, os azulejos portugueses, as portas e janelas imensas, o que há na história daquele lugar. Quando participava do Auto do Círio e percorria em cortejo algumas ruas era uma satisfação. Um deleite.

As Arquiteturas das Igrejas, Capelas, as obras requintadas de Landi é algo que provoca o refletir, do que foi o passado sócio - econômico e cultural deste lugar.

Se entro no Museu de Artes Sacras, viajo num tempo que sequer imagino caminho suave por entre a meia - luz que confere um tom de mistério e passado ao sacro e isso se completa ao pisar o Chão da Igreja Santo Alexandre, confesso, cada ida lá é uma emoção diferente.

Mas e falando de cores, sol, chuva, águas desse meu navegar...

Fico azul de alegria ao ver, o colorido intenso que permeia a cena do Pavulagem.

As fitas voejantes e coloridas dos chapéus, um aquecer aos meus olhos, alegrar meu coração. Mas se escuto o som das matracas, alfaias, ganzás, maracás, caxixes, bem ai só me resta seguir aquele som arrebatador do Batalhão da Estrela e deixar a alma cantar e dançar. Uma aula diversa do misto entre o sagrado e o profano, de um povo que se distingue pela diversidade, que se supera nas dificuldades e faz genuína cultura. Referência cultural. Reverência a arte e tradição de um povo.

A terra treme! E mais tremulante fica meu coração pávulo assim. Grata ao boizinho na tala lá em 1987 da simples brincadeira na República.

Ah, a República, linda apesar de tudo, O Da Paz, exuberando, quer saber o que dispara novamente o meu emocionar? Desata um batuque no meu peito? O anunciar do início de qualquer espetáculo com aquele trecho de abertura de O Guarani e as luzes lentas e ritualisticamente apagando. Esse ato por si só é o espetáculo. Mas sempre lá estou, e confesso já ter assistido Ver-de-Ver-o-Peso um sem número de vezes, e busco as Óperas, e perco-me nessas águas que me levam levitando pela Belém que gosto. E sigo cantando Nilson Chaves Lia Sophia, lendo Daniel Leite, versejando com Juraci Siqueira, tremendo quando toca em mim o Manari e o som forte de uma percussão inovadora, que me atira ao centro da floresta que tanto desvendei e descobri.

E sempre em pensamento me enriquecerei de ruídos de mar enchendo e vazando, na janela da varanda de minha velha casa em Salvaterra de onde via a praia, e o dormir ao barulho das ondas quebrando eram meus dias.

Por isso talvez eu seja assim, esse desaguar de poesia, fruto dessa ressalva positiva, desse ganho da infância totalmente impregnado em mim. Se pudesse me tatuaria das águas do Amazonas, da baia do Guajará, do rio Guamá. Afinal sou fruto da maresia daqui.

Se a chuva da tarde deixar, eu volto para um novo café com tapioquinha...

Se não, nos vemos depois da chuva, já não tão das três...

Se aqui pudesse acrescer uma música incidental, seria “Olhando Belém”, do paulistano Celso Viáfora e do paraense Nilson Chaves.

Elucidário:

Pavulagem - neologismo originário de pavão, que significa o formoso, bonito, e pomposo e que na linguagem popular tem o significado de "o que gosta de aparecer", ou o fanfarrão.

Auto do Círio - Drama, Fé e Carnaval. Toda sexta-feira que antecede o domingo do Círio de Nazaré, artistas amadores e profissionais de Belém protagonizam um grande espetáculo (teatro de rua) que ilumina as ruas da Cidade Velha.

Antonio José Landi - (Bolonha, 30 de outubro de 1713 — Belém, 22 de junho de 1791) foi um arquiteto italiano com marcante atuação na Amazônia. Era o quarto filho dos noves do casal Antonio Landi, médico, e Antonia Maria Teresa Gughliel.

Teatro da Paz - O Teatro da Paz foi fundado em 15 de fevereiro de 1878, durante o período áureo do Ciclo da Borracha, quando ocorreu um grande crescimento econômico na região. Belém viveu um significativo processo de transformação sócio-econômico nesse período, chegando a ser chamada de “A Capital da Borracha”. Mas, apesar desse progresso a cidade ainda não possuía um teatro de grande porte, capaz de receber espetáculos do gênero lírico. Buscando satisfazer o anseio da sociedade da época, o governo da província contrata o engenheiro militar José Tiburcio de Magalhães que dá inicio ao projeto arquitetônico inspirado no Teatro Scalla de Milão (Itália). Em julho de 1869 começa a sua construção, sendo destacada a arquitetura Neoclássica. Inaugurado como Nossa Senhora da Paz, alusão ao final da guerra do Paraguai, teve seu nome reduzido para Teatro da Paz dois dias depois da inauguração.

Trio Manari - É um grupo de percussão popular da Amazônia formado por Kléber Benigno, Nazaco Gomes e Márcio Jardim, de talento reconhecido no meio artístico nacional e internacional. Criado em 2000 e formado por Márcio Jardim, Nazaco Gomes e Kleber Benigno, com intuito de pesquisar a diversidade de instrumentos e ritmos amazônicos para compor arranjos percussivos, imprimindo-lhes uma linguagem universal, quais sejam o carimbó, o boi-bumbá, o lundu, o marabaixo, o retumbão, o samba do cacete, o vaqueiro do Marajó, dentre outros.

Roseane Namastê
Enviado por Roseane Namastê em 15/06/2010
Código do texto: T2320850
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