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CARTA SUICÍDA

Falo como uma simplória desistente vivendo em um mundo ilusório.
Que ainda tenho a respiração ofegante, busco o ar nas víceras temporais, respiro tão fundo que meu corpo é tomado pela vertigem.
Agora, apenas estou de partida desse mundo ingrato.
Por mais banal que seja, digo-lhes com os olhos lacrimejantes que não pude resisitr aos meus amores, não pude conviver com meu ódio, não suportei a dor.
Deixo apenas como lembrança, alguns sorrisos, que poucos foram os que perceberam quão gélidos eram.
Hoje paro, olho a paisagem morta, com flores sintéticas, pássaros presos em gaiolas, alimentos trangênicos, robôs vivendo como gente. Tantas coisas mudaram, até mesmo o cheiro da terra molhada após a chuva, até mesmo o vento que tacava-me o rosto, água e ácido agora apresentam as mesmas propriedades químicas.
Estranho mundo!
Tanta coisa muda, tanta coisa continua a mesma, as classes sociais continuam se difundindo, a promiscuidade continua tomando conta das ruas, enquanto algumas crianças nascem em berço de ouro, outras morrem em condições deploráveis, condições subhumanas.
Não quero mais fazer parte dessa fusão de amor e ódio, de saúde e doença, de mal e bem, de anjos e demônios, de políticos que roubam milhões e de pessoas que tiram o pouco que tem para ajudar o outro.
Não quero mais fazer parte desse circo, em que palhaços usam máscara para não demonstrar seu rosto choroso.
Não quero mais fazer parte desse jogo, não quero me banhar desse mar de poluição, consumir dessa terra pecaminosa, respirar o ar infuso.
Pois o tempo todo eu soube que poderia esconder os cortes dos meus pulsos, mas agora percebi que não posso mais esconder as deformidades da minha alma.
Definitivamente estou desistindo, e a lâmina sobre meu pulso da-me o contentamento, o sangue correndo por minhas mãos!
Sacio-me dessa beleza medieval, desse sangue puro e vermelho como meus olhos.
E então sei que posso sentir as dores do mundo.
Enquanto a trépida noite cai, vejo flosrecer a face da morte, seu ambíguo desejo carnal leva-me a entregar-me totalmente, sentindo o odor funéreo do momento.
Sinto dizer-lhes que não vejo vales verdejantes e altas colinas, sinto dizer-lhes que não valorizei meus momentos e por isso é tamanha minha loucura, sinto dizer-lhes que poucas coisas nessa vida me deram realmente prazer. Talvez como uma alma suicída no devaneio tardio, direcione os olhares aos reais motivos dos meus clamores.
Pois nesse instante, apenas dou o consolo da morte a um corpo vivo, que a muito tempo vagava com uma alma morta sem a devida hemostasia.
funérea
Enviado por funérea em 30/09/2006
Código do texto: T253176
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Sobre a autora
funérea
Pinheiral - Rio de Janeiro - Brasil, 28 anos
11 textos (893 leituras)
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funérea