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O Tempo

A maior dor do homem é a sua efemeridade. É triste saber que morrer é privilégio de todos, embora viver não o seja. Físicos calculam e montam mil conjecturas sobre o tempo. Tempo absoluto e tempo relativo, horizonte de eventos, buracos de minhoca... Na verdade, a única certeza é a de que o tempo passa. Envelhecemos, não no dia do nosso aniversário, mas continuamente, e sentimos, a cada dia, sinais de que algo está mudando em nosso corpo, em nossa alma. Futuro vira presente, presente vira passado, tudo num passe de mágica: e assim os fatos se vão sucedendo.
Meu tempo é hoje, como diria Paulinho da Viola; e é esse o momento que tenho para fazer o que me é de dever que faça. Hoje pode ser o dia mais feliz da minha vida, pois é o momento em que posso pensar sobre isso. Que posso sentir, tocar, beijar, beber, viver.
Um dos motivos que me levou a me tornar um profissional da arte foi que não agüentaria a dor de, já na minha meia-idade, arrepender-me da escolha da minha carreira. A arte deixa marcas profundas demais na alma quando você não a deixar viver dentro de si; e o preço cobrado é muito alto. São milhões de pessoas que abriram mão de sua felicidade pessoal em nome de sua carreira. Andar de terno e gravata, circular com carro importado, ter um apartamento de luxo, seja o motivo que for - esse é o preço de suas vidas, de seu Presente, de seu Agora. E é um preço que não quis pagar. A minha arte me permite mais. Ela me permite ser feliz. Feliz com as pessoas que amo, feliz por vê-las alegres, feliz por tê-las perto de mim - e não porque fui um maníaco obstinado pela minha carreira. Não que ache errado batalhar; muito pelo contrário (e posso dizer que trabalho desde os treze anos, seja lavando o prédio onde morava, seja entregando salgadinho, e mais tarde indo para um Banco na Avenida Rio Branco.) Mas preciso das pessoas que amo HOJE, e não daqui a cinqüenta anos. E não quero que meus planos pessoais me tornem tão áspero e alheio que possa vir a ser um marido ausente, um pai ausente, um filho ausente. Um amigo ausente. Quem me conhece sabe que prezo as minhas amizades como quem preza a própria vida, e meus amigos sinceros sempre contarão com a minha ajuda, com meu carinho.
Se posso ser feliz sozinho, também posso confiar-me às pessoas que amo, e esperar que elas me façam feliz. Aí, sim... que felicidade completa... não há coisa melhor no mundo do que ser correspondido em seu amor, carinho, amizade... você recebe o que não é capaz de dar a si mesmo: amor imparcial. Sim, pois nada há de mais parcial do que o amor próprio - esse que sentimos por nós mesmos, alheios aos nossos defeitos. Esse que sentimos porque precisamos sentir, para não definharmos, morrermos secos e com a alma rota. O amor ao próximo é o sentimento que passa por cima de diferenças, de defeitos, de distância... e que é capaz de demolir barreiras enormes, tudo para chegar aonde precisa. Tudo para dar o que o outro precisa.
Aqueles que me conhecem podem perguntar-me porque ainda respeito tanto o amor, logo ele... é que o amor tem de ser vivido hoje; tenho de amar hoje, tenho pressa de amar... tenho pressa de dar meu carinho, meu coração, minha alma, meu corpo... acredito em pouca coisa, e dentre elas o Amor: que é perfeito, embora as pessoas nunca o sejam; que é eterno, embora duremos tão pouco, tão pouco... que é lindo, embora nossa beleza um dia há de murchar, e um dia não nos restará nada além de rugas e pelanca... e é nesse dia que descobriremos o quanto o Hoje de hoje foi importante... hoje, que podemos amar, que temos coração e corpo para amar.

"Ser é estar presente. Eu quero estar sempre presente na vida das pessoas que amo."

Sábias palavras de alguém que respeito muito. Infelizmente, amar não implica ser amado. Talvez essa seja a tônica da vida - nossa real felicidade não depende só de nós. Temos que procurar as pessoas que gostamos enquanto elas estão aqui, perto de nós, com os pés no chão, a um simples telefonema de distância. A alguns meros quilômetros...
Talvez eu tenha aprendido, nesses últimos "hojes", que não há distância no mundo que me separe dos meus objetivos, das pessoas que gosto. Se ainda posso vê-las, sentí-las, tocá-las, então ainda podem fazer parte da minha vida. Se a minha vida é efêmera, que eterna seja a minha saudade, mas apenas das pessoas as quais não mais poderei ver.
Vamos rezar com fervor pelos que deixaram esse mundo para viver num lugar melhor. Mas não nos limitemos a só rezar pelos que ainda estão aqui, do nosso lado, prontos a nos fazer felizes. Rezem, e liguem, e confessem seus sentimentos. Amem, permitam-se amar. Permitam-se admitir que a felicidade não está em nenhum outro lugar senão no aqui, e em nenhum outro tempo senão no agora. O agora dos amigos, dos namorados, dos familiares.

"Não guarde para amanhã o abraço que pode ser dado hoje."

Não guardarei. Não mais...
Thiago Salinas
Enviado por Thiago Salinas em 02/07/2005
Código do texto: T30416
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Sobre o autor
Thiago Salinas
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
40 textos (15565 leituras)
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Thiago Salinas