[A Manhã de Todos os Dias]

... E será que temos de concordar que mais longa é a vida do homem, maior é número de suas mortes, ou, por outra, de suas perdas? Tétrico pensar, muito tétrico para as 04h30 da manhã, quando os galos já cantam ao longe... que animal infernal é o galo, infernal!

Tenho um receio infantil: de ouvir um galo cantar quando eu estiver morrendo, tendo um pé já na barca de Caronte, e tirando a moeda da boca para pagar a passagem... Irei embora no canto dos galos... será? Se eu tivesse alma, certamente ela voaria longe, pousaria no galho mais alto do limoeiro em flor, e ficaria lá, ouvindo o cantarolar das águas que descem da invernada onde primeiro a manhã se inunda de luz... Mas eu não tenho alma: pior para mim, não voltarei jamais à Fazenda Barreirão!

04h30 da madrugada... Nesta hora, os galos já estão joaocabralianamente tecendo a manhã... isto é, o canto de um galo indo até outro, e o de outro, a um outro.... pois como disse o poeta, um só galo não pode tecer a manhã.

Com pouco, como acontece todos os dias, a manhã se abrirá sobre esta feia cidade do meu desterro, se contaminará com a fumaça do óleo diesel dos ônibus que levam os infelizes para o tripalium de cada dia. Para estes, a manhã tece a lembrança de músculos cansados, e da vida sem nexo.

Então, todos os galos ficam silentes... Uma disjunção: vejo enormes mangueiras tristonhas; eu vou morrer sem conseguir entender por que as mangueiras são tristes ao amanhecer. Estariam elas alegres com o canto madrugador dos galos?

[Penas Desterro, 03 de dezembro de 2011]

Carlos Rodolfo Stopa
Enviado por Carlos Rodolfo Stopa em 03/12/2011
Reeditado em 03/12/2011
Código do texto: T3369553
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