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Texto

“Oração do Desapego”

     Estou retirando  hoje você da minha vida como quem arruma gavetas...não é porque não me serve...mas porque não me cabe mais...o teu modelo ficou desengonçado em mim, e  olhei-me vestida nele como quem usa uma roupa antiga...não combina mais com a realidade  e se eu insistir, vou acabar me achando ridícula...
    Estou arrumando meu coração, meus pensamentos, minha vida...preciso retirar tua lembrança, teu retrato,teu  e-mail...preciso viver..retirar a bagunça instalada dentro de mim que não me deixava encontrar nada além de você. Por todo  esse tempo eu te amei todos os dias.Te amei sozinha...não porque eu quis,  porque não podia ser diferente e o coração não me deixava outra alternativa...eu chorei, te amei, esperei...enquanto você provavelmente amava outra pessoa e ela tinha os beijos que eu queria, o abraço que não tive, a  chegada que não vinha,o  sorriso que eu amava..Você deve ter pensado que ela te amou, mas   na verdade, quem te amou fui eu...Porque sozinha eu tive você...enquanto ela te amava porque você estava presente.Mas enfim,como toda gaveta um dia  precisa ser arrumada, estou fazendo isso hoje, num domingo nublado...e depois, ela ainda continuará aberta.Queria que tivesse sol pra eu deixar meu quarto iluminado  numa luz maior que a que eu via quando pensava na possibilidade de revê-lo.Mas nem isso tive...Não tive de ti direito a despedidas, muito menos amor...Abracei as lembranças  achando que podia trazer você  e o trouxe muitas vezes a mim, como quem rouba uma estrela...que olhando distante...acha que a tem.Tive você  indevidamente por muitas vezes, te amei no mais amargo de meus desejos...em sonos e sonhos...e de tudo que senti,o mais desejado era teu abraço... poder encontrar teus braços um só dia ...e deixar você  ir de uma vez..mas fazer essa despedida.
     Eu procurava na multidão  um rosto que fosse o teu,e se eu tivesse todo dinheiro do mundo...ia te perguntar quanto te custaria um momento do teu abraço...mas eu não tinha dinheiro... muito menos chance...Não se compra uma estrela...ainda que eu fosse “ O pequeno Príncipe”.  Sim, estou  arrumando gavetas...o restante do teu perfume,  como num frasco quebrado impregnou minha vida e eu preciso de uma vez esquecer o cheiro do passado, por isso preciso deixar de senti-lo quando abro minhas gavetas...quando encontro meu coração que nem percebe o tempo que sofreu. Se chorei todos os dias? Sim,Todos os dias...Estou jogando fora a fronha que sentiu minha dor.Mudei a cama de lugar,retirei as cortinas azuladas que serviram de cenário às declarações de solidão explícita e  insone......quero tudo amarelo como o brilho do sol...Quero o cheiro do amor presente,quero a chegada repentina,o abraço quente...Estou incinerando tudo...
    De tantas dores eu me curei...mas  esta foi a que mais demorou a passar...e vai doer mais ainda quando queimar o despego dentro de mim, quando arder como o  merthiolate que a nossa mãe usava em dias de tombo, quando criança.Eu tive o mesmo medo desse tombo,não por causa da queda, mas por causa do “Merthiolate” que dói ainda mais pela antecipação,  que pela a dor propriamente dita, e eu não tenho mais a minha mãe pra assoprar...agora é comigo. A gente cresce e tem que sentir as dores sozinho e se libertar delas como quem rasga uma seda importada, mas que  fora -de -moda, já não serve...e a gente pensa que um dia talvez a moda volte e possamos usá-la. Mas o dia está lá fora nos esperando e ninguém pode sair de casa apenas  “fantasiado” de alegria...só aos palhaços é conferida a façanha, mesmo  porque, eles estão interpretando..e na verdade, não estão sorrindo,  não fosse assim, não precisariam pintar de branco o  sorriso em  torno dos lábios pra enganar a própria tristeza.Outros modelos na vitrine me trazem a realidade e eu quero experimentar a nova moda de sentir-me vida.De sentir o perfume da primavera que chega de mansinho me avisando que as flores estão prontas pra serem colhidas. Que o vaso está cheio de água a esperá-las  para  ornamentar as janelas do meu coração que ansioso, só me pede pra ver um novo dia amanhecer ..E que não seja apenas para descrevê-lo ,mas para vivê-lo...
    Estou replantando meu jardim...limpando meu quarto,abrindo as janelas,lavei meus cabelos... só não mudei o meu perfume, porque preciso ainda saber que essa sou eu.Eu não  sou feita de versos, mas de um coração, que apesar da distância, um dia te amou. por isso,recolhi as folhas, varri meu quintal, arrumei a cozinha...Quero uma casa com  cheiro de bolo, de café quente, de domingo, de gente que sente falta de mim...do meu gato que chora de saudade, mesmo perto. Da buzina que anuncia que vou ser engolida num abraço de amor verdadeiro. E quero estar de uma vez em paz  porque estou entregando você, a quem de direito e, pedir perdão por te tomar indevidamente de outros braços,  enquanto eu pensava que o tinha,enquanto era  ela a pessoa  que  te amava  o tempo todo...
    Esta é a minha despedida em forma de oração, porém de pé...pra esquecer  que um dia...  meu coração esteve de joelhos...( Por Rose Fontes)
Rose Fontes
Enviado por Rose Fontes em 10/01/2012
Código do texto: T3433050

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Sobre a autora
Rose Fontes
Maricá - Rio de Janeiro - Brasil, 50 anos
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