VALGRAMEPE!

Por mais que eu busque, não consigo me encontrar. Envelheço e não me entendo. Continuo procurando a outra metade de mim mesmo em outras pessoas, mas não consigo me doar e ser inteiro para alguém. Todas as teorias lidas, relidas, estudadas, não impregnaram minha alma. Sou um insensível cheio de cultura e saber. O livre arbítrio concedido não me faz ser fiel, ser honesto, ser digno do amor que me dispensaram. Quantos amores recebi? Poucos retribui com sinceridade. Na solidão de todos os dias, nas noites insones ou madrugadas, as angústias, as perguntas abalam meu corpo envelhecido e cansado das andanças de uma vida com mais de meio século. Os afazeres diários camuflam minha vida medíocre, mas à noite no silêncio de um quarto desarrumado me mostram como tenho uma vida tão pobre. De amigos, de felicidade, dinheiro e sonhos. Tantos amores já passaram em minha trajetória e não tenho ninguém me amando sinceramente ao meu lado. O que fiz com essas mulheres que conheci e continuo buscando conhecer? Sou bom o bastante para despertar um amor mais presente? Consigo inspirar confiança? Sei no meu mais íntimo ser, lá no fundo de minha alma que não. Às que me perguntam se mereço confiança, respondo cinicamente e com verdade disfarçada, que não. Não mereço o amor que me dedicam. Os momentos que me dão, os presentes que recebo, o carinho que não agradeço e/ou retribuo.. Sou um infiel costumaz. E isso é uma verdade rotineira. Procuro tanto um amor em todas as rodas, em todos os cantos possíveis e não o encontro em mim mesmo para que possa dar à alguém que o mereça. Será que sei amar? Tantas mulheres, tantas possibilidade e não concretizo nenhuma com sucesso duradouro. Na solidão comigo mesmo, reconheço que sou infeliz, que o tempo passa rareando cada dia mais meu caminho ao encontro do par, do envelhecer contando minhas inúmeras estórias de vida e de luta. Meus estudos se perderam com o meu partir definitivamente. Onde estarão guardados meus momentos? Onde estarão os sentimentos bons que propaguei? Não sei. Sou um leão com os pelos marcados pelo tempo que tenho em idade, meu corpo sinaliza meus anos de vida, e a degradação que meus nervos, pele, sangue, músculos, coração e mente. Tenho lapsos de memória, sono demasiado, manias de velho, e impaciência com o mundo. Não adianta buscar agora o que deixei de doar ao outros seres durante tanto tempo. Hoje, talvez, esteja recebendo de volta aquilo que me é de direito. Passei muito tempo da vida indiferente aos sentimentos em minha volta, à dedicação sentimental que me deram e agora busco freneticamente um pouco daquilo que desvalorizei. Estou cada dia mais velho, mesmo que me esforce para continuar ativo, as forças me abandonam devagar e continuamente. Não se pode voltar no tempo e espaço. Tenho que me conformar, e continuar tentando amenizar a dor em meu peito, a sensação de fracasso sentimental. Camuflar ainda mais minha solidão e com toda sinceridade de minha alma, chorar o que for possível, reconhecer todos os erros, orar todos os dias e horas, tentar encontrar em mim mesmo, razões para não me tornar um velho tão infeliz e solitário. Deveria pedir perdão em minhas orações, `a todas aquelas mulheres que conheci e não dei valor. À todas as pessoas que me quiseram bem, à todas as oportunidades que tive de ser uma pessoa melhor e não fui e hoje reconheço, não sou. É doloroso esse silêncio, essa assustadora voz da consciência que me diz, me mostra todos os meus erros. Vou chorar sozinho. Aqui posso fazê-lo, mas é tão triste isso.

Irene Freitas

22/01/2013

irenefreitas
Enviado por irenefreitas em 22/01/2013
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