O vestido de Allegra

Uma moça doce e jovial, assanhada

Saiu com a mãe e foi à feira da cidade

De sandálias quase descalça, avoada

Pulando feito menina, a mãe calada

Quando falava, ralhava, "olha tua idade!"

Mas Allegra pouco ligava, está contente

Ia comprar o vestido mais lindo, sorrindo

Homens a olhavam com desejo, latente

Ela não notava, não ligava, mas sonhava

Queria o vestido, e a isso via sentido

Comprou com a mãe a roupa sonhada

Foi pulando, vestiu na rua, ficou seminua!!!

Para o susto das velhas, de boca desdentada

Para alegria dos homens, já de calça apertada

Allegra era agora teu nome e descalça

Foi rodando e pulando até chegar da rua

Não o tirou naquele dia, depois o guardou

Deixou um tempo, para não perder o encanto

O namorava todos os dias, enfim o pegou

Saiu de noite escondida, foi ver a bandinha

Aquela que tocava no coreto, usando manto

Mas o algoz trigueiro a fitou de longe

Com olhos de vespa e presa de tigre bandido

Esperou a moça se apartar de uma colega

E sem que esperasse, lhe desferiu o gemido

O vermelho tinge o cinzel, o vilão a carrega

Allegra já triste e a vida passando em riste

O vestido nos olhos lascivos é desejo

Ele vira trapo e se mancha no vermelho

A pobre esboça um socorro nesse meio

Golpeada na virgindade sucumbida, o despejo

Arfar demoníaco e sua face e a faca por esteio

A voz se engasga no sangue, antes de esfriar

Sente a terra em sua face, está quente do Sol

Pensa, "meu lindo vestido se foi", e tudo fica no ar

O trapo que foi vestido é queimado num paiol

O tigre pervertido, desconexo, se lava no rio

Nem sente a presença que se chega, "parado"

São macacos, uns 10, uns 20 já nem sei

De fardas e ferros empunhados, espancam

Até descobrir o destino que foi lhe impetrado

Pernas quebram, nariz é partido, "eu confesso"

Macacos sabem fazer tigres falarem ao gesso

Allegra é retirada com pouca vida

Antes de morrer pede à mãe, "me enterrem de vestido"

O tigre foi esfolado por populares, "HOMICIDA"

Gritavam ferozes, ao olhar do macaco empobrecido

Da moça sobra a desdita por tempos ecoada

O remorso da amiga que não conseguiu socorro

O povo que lamenta uma perda jovem tão prendada

Mas na feira ainda lembram de Allegra e do vestido

Era florido e dançava, nunca houve vestido parecido.

Lord Brainron

lordbyron
Enviado por lordbyron em 02/03/2012
Reeditado em 02/03/2012
Código do texto: T3530455
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