VERBORRAGIA
Juliana Valis



Em plena noite de estação mais  fria

Sangra o verbo em toda plenitude

Como esfinge que a ilusão trazia

Além dos labirintos que a emoção ilude




Incauto, o verbo chega ao hospital

E sem tratamento contra o verso tóxico

Sucumbe ao delírio mais transcendental

E se perde em átomos do amor, dióxido 




Mas por que o verbo sangraria, assim,

Sem hemoglobinas de paixão voraz ?

Por que o verbo além da guerra e paz

Sucumbiria à dor do mais triste fim ?




Céus, por que toda essa verborragia ?

Hemorragia vã das plaquetas lépidas

Deste verbo "amar" em cada fim do dia 

Deixando-me sem ar nas noites mais intrépidas...




Por favor, doe sempre vida ao verbo "ser" !

Não deixe morrer sem sangue outro verbo, "olhar",

Não permita que o simples ar de cada amanhecer

Quebre-se em mil cacos do que nos restar...




Por favor, doe sempre sonho ao verbo "rir" !

E não deixe esvair o sangue do verbo "transformar",

Transforme todo ódio que se enterra ali

E, no pódio, doe sangue a este verbo "amar" !