Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

A DOIDA

Chamam-lhe "a doida" quando passa...

Chapéu desbotado, xaile de seda desfiada
saia de "lamé", sem brilho, esfarrapada
que um velho alfinete d'ama prende e laça
cambaleiam com ela os sapatos já sem saltos
outrora reluzentes, de verniz e tacões altos
nas magras mãos as luvas pardas, rotas
fazendo acenos de menina rua fora
balanceando uma carteira de abas soltas
que lhe deu uma vez uma Senhora.

Ladram-lhe os cães, riem-se os gaiatos...

As velhas faces, peles caídas, enrugadas
de um vermelho rançoso inda pintadas
com sobras de "bâton" achado em rua sinuosa
descartado talvez por qualquer dama duvidosa
colar de contas roxas enfiadas num cordel
na ilharga, amarrotada, um flor murcha, de papel

"Que vergonha!" murmuram as Senhoras...

Mas ela, surda, ausente, caminha para a sua festa
transportando consigo tudo o que lhe resta

Chegada a noite, vem a fria e dura solidão
seus olhos cansados e os pés alquebrados
procuram tréguas nas pedras do chão
parece um embrulho, um monte de entulho
não dorme, delira de febre, trémula de frio
mas nesse delírio feito de visões pelas madrugadas
revê sua vida, tão rica, pelo mundo estafada
e em esgares de prazer solta gargalhadas...

Pois só ela sabe, como foi linda, quanto foi amada!

(In "Geometrias Intemporais"
Carmo Vasconcelos
Enviado por Carmo Vasconcelos em 08/05/2005
Código do texto: T15625
Classificação de conteúdo: seguro
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Carmo Vasconcelos
Lisboa - Lisboa - Portugal
203 textos (15408 leituras)
62 áudios (7662 audições)
15 e-livros (1367 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 07:53)
Carmo Vasconcelos