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AS ARUPEMBAS DE ALUMINIO

Das coisas acontecidas nas quebradas do meu sertão,
uma delas me aflige, pois acho muito sem lógica,
estou falando de uma arupemba grande,
que os caboclos estão botando em cima da casa e que chamam parabólica.
Outro dia mesmo, eu fui ver, a serventia de tal invenção,
pois dizem que melhora a imagem da televisão, acreditem, não achei graça.
Era um domingo bem cedo, quando eu estava saindo
para um joguinho de sueca,
chegou lá em casa Zé Furiba, encarnado e todo esgulepado, correndo que só um preá.
- Vem cá compadre, assistir o aparelho,
pois não é que agora pega imagem até do estrangeiro.
Sou matuto, confesso, nunca aprendi nem a ler, nasci foi pelo mato mesmo,
até hoje não me acostumei, com a falta de candeeiro,
quanto mais com essas modernidades, de seu Zeca, filho do finado Chico Brejeiro,
que depois que tomou conta da terra lá de nós,
inventou de enterrar uns paus de carnaúba no chão,
pendurou uns fios em cada casa, sendo que agora para acender a luz
é só apertar um botão.
Já saí meio afobado, minha vida foi cuidar de gado, tirar capim,
não gosto de ficar só olhando, para uma caixa de vidro,
onde o povo fica lá dentro fazendo pantim,
mesmo assim fui espiar a danada da melhoria nas imagens da televisão.
Fiquei sentado num tal de sofá e Zé Furiba,  xirimbaba do patrão, todo ancho,
se apoderou de vez de um tal controle remoto,
ficou amulegando biloto para cá, para lá,
nós ali na sala, tinha eu e Zé de Lídia
que nunca tinha olhado para o aparelho de vidro,
quanto mais com aquela baciona em cima da casa.
A primeira imagem que apareceu, era uma galega toda entroncada,
fazendo munganga com a bunda, uns negão, com os dentes no quarador,
a meninada inventou de rebolar, chamando aquilo de pagode.
- Como é que pode, meu senhor?
Pensei cá dentro de mim, quando eu era moço,
dançava a noite inteira, num terreiro de forró, bastava ter bom tocador.
agora as coisas são assim, o cabra parece que está na macumba,
parece Zé Pilintra baixando.
E o sujeito continuou mudando de imagem,
era cada coisa diferente, tinha desenho de bicho
fazendo papel de gente, cabra safado sem vergonha, metido a chibungo.
Cada lapa de mulher, Chico de Lídia chega babava,
eu simplesmente me lembrava, das coisas que não via ali,
como as fogueiras queimando, os fogos pipocando,
enquanto as moças namoravam, as mulheres rezavam,
a lua tudo iluminava, sem precisar de nenhum botão.
Lhes digo com toda a sinceridade, de um homem calejado na enxada,
essa tal de novidade, pode até servir para a rapaziada,
para as moças de pouca idade, mas para mim,
é o tipo de divertimento que não faz falta,
porque não tem comparação, com uma debulha de feijão.
Agora pergunto para que? Uma bacia de alumínio em riba da casa,
 encandeando os olhos dos outros?
Não serve para soprar arroz, café ali não se torra, se pelo menos juntasse água.
Mas, eu mesmo respondo, qual a sua serventia,
ou será que ninguém percebeu, que com esse progresso da ciência
muito menino nasceu,
ainda bem que não tenho filha, para aprender certos artifícios,
homem e mulher é para se conhecerem,
até faz parte do oficio da gente na terra permanecer, porém o tempo é quem ensina.
Hoje em dia, mulher velha, parideira,
sabe menos das coisas que essas meninas,
de tanto verem nas novelas, amancebo, baitolagem e coisa e tal,
em tudo que é canal.
Enquanto isso, as parabólicas vão aumentando,
as saias diminuindo e o sertão se enchendo de menino.
arupemba
Enviado por arupemba em 17/05/2005
Código do texto: T17459
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Sobre o autor
arupemba
Sousa - Paraíba - Brasil, 50 anos
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