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[Tratado Geral do Maltrapilho Amor]

Pode-se prometer ações, mas não sentimentos, pois estes são involuntários. Aquele que promete amar para sempre ou odiar para sempre ou ser fiel a alguém para sempre, está prometendo alguma coisa que não está em seu poder. —  “Humano, demasiado humano” —  Nietzsche
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Tu me Amas? Ah, não sejas elusiva assim!
Se a questão que se coloca é falar de amor,
No nosso caso, tudo se desenrola assim:

— Anseio ver-te, e tardas...  anseias ver-me, e tardo...
E nessa espera angustiosa, já prelibamos o gozo, mas nos lambemos só com os olhos da imaginação.

— Não podem os nossos olhares sequiosos realizar a magia de animar fotos, transportar cheiros, ou proporcionar a inefável sensação dos toques sutis.

— ... E assim, como uma fuga impossível, [ou será disfarce da nossa fraqueza?], fingimos descompreender a carência que um sente do outro.

—  Numa sala às escuras, dançamos uma suave música de um autor desconhecido e titulo ignorado, e mesmo que nos dissessem, de pronto esqueceríamos!.

— Com inevitável recorrência, eu te escrevo, e tu me escreves, e  nos buscamos nas entrelinhas de nossos textos [de vida]; neste instante, estamos em busca de...

— De nossas falas, tentativas de amenizar a distância,
Guardamos na lembrança o timbre de nossas vozes, e a ilusão do toque, nos estertores de um gozo telefônico!

— O ciúme cavalga velozmente na distância, e assim,
damos finas punhaladas em nossas sensibilidades, brindamos ao amor com finos cristais e sutis venenos...

— Contudo, somos muito respeitosos com nossas divisas: nos escudamos perfeitamente em nossas circunstâncias, e jamais nos invadimos mutuamente, portanto.

Ah, mas a vida é breve... o tempo urge e esturge-nos, e nós, a nos perdermos em fortuidades mil! Muitas abelhas terão pousado em flores várias, os ventos soprarão mistérios dos vales ocultos, águas impetuosas terão rolado montanha abaixo, sem que nossos corpos conjuguem a linguagem do amor!

Separa-nos um rio escuro, de ondulante dorso negro, que verte sem cessar de uma caverna profunda... Por vezes, juntamos nossas lágrimas a essas águas, mas permanecemos cada um na sua margem do rio; estamos encantados:  nossos olhos jamais veem o que existe, mas enxergam tão-somente aquilo que o feitiço lhes permite!

Embora indaguemos o que vem a ser o real, inexoravelmente nos guiamos por simulacros, aparições sabemos que nada disso, de fato, "é" — o nada existe em... ... Em nós?

Ah, não, absolutamente o nada pode ser objeto! Mas ainda assim, às vezes, o nada pousa no deserto de nosso ser e se manifesta em êxtases, em suaves plexos de angústia e horror...

Perdemos a claridade do olhar, e a branca névoa do tédio nos acossa, nos fustiga essa busca ansiosa de... Jamais saberemos de quê! Do mundo, tudo que vemos são aparições — verdadeiro ou falso?

Enleei as minhas palavras
em frágeis tranças de palha,
em levezas de paina seca,
e atei-as com um nó de fumaça...
Mas pus nesse atio uma pitada
de mel para atrair a tua atenção!

Atingi o meu intento?
Não sei; as perguntas mais instigantes
não têm resposta —
ou por outra: têm, mas não têm!
Desata o atio acima, se for capaz, desata!

Lá no meio, entre os entrançados dos sentidos,
talvez esteja aquela resposta
que ambos ignoramos, ou será mais um simulacro,
um fantoche, uma aparição?

Insistes em dizer que me amas?!
Insistes nestes trapos de amor?!
Pois então, invoco o poeta maior:
mais [me] servira se não fora
para tão maltrapilho amor,
tão curta a vida!
 
[Penas do Desterro, 29 de maio de 2006]
Carlos Rodolfo Stopa
Enviado por Carlos Rodolfo Stopa em 14/06/2006
Reeditado em 01/07/2012
Código do texto: T175562
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Carlos Rodolfo Stopa
São José dos Campos - São Paulo - Brasil
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Carlos Rodolfo Stopa