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A-manhã



 

O pó acabou querida, hoje não tem café.

Molhe o pão na água e coma aquilo que adormecido ficou.

O leite coalhou amor, nossas crianças famintas ainda não acordaram.

Ponha açúcar no prato e jogue um trocado, o ônibus chegou.

Não há dinheiro querida, a hora de ir se aproxima e o patrão me espera.

Hoje olhei o jornal amor, um emprego de balconista surgiu.

Faça a entrevista querida, que a fábrica importou tecnologia.

Meu vestido azul rasgou, amor, não tenho roupa para ir.

Peque o amarelo querida, que o tom não fará diferença.

Somos negros, amor, e a cor afugenta o branco que contratará.

Não diga isso querida, o café preto e o leite branco se misturam no copo para molhar o pão.

Isso é coisa de pobre amor, eles comem croissant e tomam suco de frutas.

Não se engane querida, se o copeiro não se avista lambem os dedos e comem as tripas.

Vá com Deus, amor, que nossos filhos esperam sua volta.

Não se esqueça querida que a fé não alimenta a barriga, mas evita que a gente morra de dor.

 

Solange Pereira Pinto

17.09.1999

 

Solange Pereira Pinto
Enviado por Solange Pereira Pinto em 28/07/2006
Código do texto: T203623
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Sobre a autora
Solange Pereira Pinto
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 49 anos
59 textos (37618 leituras)
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Solange Pereira Pinto