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O Andarilho Poeta

O Andarilho Poeta


Chegou sorrindo,
trazendo no olhar todos os sonhos
e o destino nos pés,
abraçou a mãe,
a irmã,
beijou demoradamente a namorada,
acarinhou o cachorro e,
sem dizer uma só palavra,
abriu a porta da sala e saiu.
Saiu pro mundo,
Sorrindo,
Amando como que tudo pode,
Como quem nada quer.
Na mochila surrada levava uma porção de fé,
Uma troca de otimismo,
Um par de liberdade
E uma pequena dose de esperança.
Cruzou a rua sob os pingos de uma suave  chuva fina,
Gotas de água caiam lentamente nos seus cabelos longos,
Lavando todas as lembranças contidas na memória,
Um cheiro de mofo exalava da espuma branca
Que teimava em parar
Sobre seus ombros,
E ele delicadamente as atirava para longe.
Na palma da mão
Algumas gotinhas frágeis de chuva
Driblavam o vento,
Numa brincadeira de empurra-empurra,
Queda de braço mesmo!
Com direito a torcida e platéia
Composta por uma nuvem de pernilongos
Que pairavam sobre sua cabeça.
Foi,
Não se sabe para onde
Ou quanto tempo isso aconteceu.
Simplesmente foi,
Sem olhar para trás.
De calça rasgada,
De tênis desbotado,
Chutando  pedrinhas,
Lá foi Miguelito.
O médico sonhado da mãe esperança-
“filho da mãe”
Nem o ensino médio conseguiu terminar.
Chutando pedrinhas,
Lá foi Miguelito,
Juiz destemido
Que o pai planejou,
Mas em vestibular
O bravo Miguelito nunca pensou.
Lá foi Miguelito de nariz empinado,
Que a pobre amada jurou consertar,
Dar casa e comida
Vivendo em um lar.
Se alguém perguntar–me
Quem  é Miguelito?
Com certeza direi:
Miguelito ´é dor,
Sofrimento,
Maus tratos,
Fome,
Cansaço,
Noite sem dormir.
Comida doada por alguém piedoso
Amenizado a culpa em prol dos pecados,
É ferida exposta de vermes famintos de carne humana,
É o mau cheiro pela falta de banho,
É o cabelo seboso de lêndeas povoado,
É a maneira de viver
E crer na tal liberdade que facina
O homem-menino-senhor.
Se alguém perguntar-lhe
Quem tu és Miguelito?
Com certeza dirá:
Sou terra batida,
Árida,
Sem vida,
Que o dia a dia tratou de secar.
Sou terra molhada
Com o pranto da culpa que a consciência desperta
Sem menos esperar.
Sou vento frio que corta as manhãs
E finda com a tarde num momento de fé.
Sou vento morno de um verão qualquer.
Sou caminho traçado com curvas marcadas do começo ao fim.
Sou estrada de cruz ladeada,
Rosário incompleto com mistério de dor.
Sou noite escura
Um túnel de incertezas à procura de luz.
Sou a noite dos ébrios,
Sem rumo,
De bar em bar.
Mas também sou o sol.
O sol que queima sem aquecer,
Derretendo os remotos instantes de lucidez,
Destruindo ao meu redor
A imagem do que eu era ou o que restou de mim.
Sou ainda o amanhecer de esperança
Sem saber o que esperar,
Alimento de raios de sol recém-nascidos
E creio num arrebol mais colorido.
Lucidez,
Loucura,
Poesia,
Não sei;
Sei apenas que no meu modo de pensar,
Somos todos andarilhos,
E assim quero continuar:
Bebendo em todos os copos
Dormindo em qualquer lençol
Chorando quando tenho vontade
Dançando em qualquer estação
Cantando sem perder o tom
Andando na chuva e no vento
Queimando sob o calor do sol
Vomitando palavras ao léu
Cuspindo o que não convém
Vivendo a estrada
Sem preocupar com as curvas
Sem olhar pra trás
Sem pensar na chegada.

Enrolado num cobertor surrado,
Chinelo velho nos pés,
Vaga um pobre homem,
Uma figura estranha
Num silêncio ensurdecedor.
E quando alguém se aproxima
Estende a mão num gesto simples de pedir o seu pão.
De barbas brancas,
Cabelos também,
Olhos profundos de quem nada quer
A não ser o caminho e a liberdade que tem.
Se alguém perguntar,
Quem é este homem?
Com certeza ouvirá:
Não é ninguém,
É só um andarilho,
Que vaga sozinho a procura do nada,
Sem nada encontrar.
 
                       


Perpétua Amorim
Enviado por Perpétua Amorim em 30/10/2006
Código do texto: T277771
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Sobre a autora
Perpétua Amorim
Franca - São Paulo - Brasil
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Perpétua Amorim