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A SINA DO POETA


Ninguém pode ser mais doce e na mesma proporção, cruel, do que alguém que vive se aperfeiçoando na arte de mergulhar nos sentimentos, ou para ser mais direta, do que um Ser poeta. Entregue a ele as suas chaves, e o resto será com Deus, ou com o demo, que sempre se debatem e muito à vontade onde há intensidade. Quem poderia ser mais intenso do que aquele capaz de colocar o cão num altar e o anjo nos pedregulhos do chão? Pode ser para não magoar ou justamente pra isso, e assim, o poeta bem pode mostrar os dentes, ou as unhas, enquanto morre ou flori por dentro. Tudo vale, para dar luz ao poema.
Este ser enxerga, sofre, inventa e ama demais. Se ama e é correspondido, é o paraíso: Deus, estampado nas paredes da casa, digo, o retrato do ser amado colado bem colado no centro de todos os poemas de amor, naveguem eles pela circulação aberta do coração das constelações ou pela circulação fechada do coração dos peixes.
Mas a sina do poeta é soprar versos, e quando não correspondido, é a própria maldição. Dessa, talvez nem o Vinícius tenha escapado. Mas certeza, certeza mesmo, como ter? Escreveu lá, o Vinícius no Jornal "Última Hora", em agosto de 1951*, para uma atriz: "Ó jovem loura, sorridente, cantante Jane Powell, você pode ser muito bonitinha mas você é um bocado pau!" E como quem desdenha quer comprar, poetinha, eu que ao menos tenho a recordação de assistir a Jane, digo que nessa fita, tu ficaste mal. A cara da Jane, como também disseste, bem poderia se parecer com um sabonete num banheiro de ladrilho, mas em destaque acaba ficando mesmo é a cara dos poetas, ante as peças que esta vida prega. Enfim... sempre se pode sair com esta: - Para dar luz ao poema, tudo vale!
Pior, aconteceu com um amigo, também poeta. Sofrendo de “coisa inexplicável” como o próprio referia-se à paixão não correspondida por uma também celebridade, adiantou-me que contaria em versos através do jornal mais popular da cidade, sobre esse seu silencioso tormento. E o fez, como um estampido cortando a madrugada. Confesso que esperava a espuma das ondas, arrebentando-se queixosas, numa madrugada sem lua, mas para a minha surpresa, os versos trouxeram sóis, infernos, agruras, abismos, turbilhões e o demo, enroscados nos cactos da terra árida. Somente outro poeta vislumbraria naquelas entrelinhas alguns ramos, como se fossem laços, resgatando frutos ainda flores, mas já esparramados pelo chão.
Coincidência ou não, dias depois a manchete da primeira página era da celebrity “coisa inexplicável”. Questionada sobre o mundo da poesia, ela respondia com sorriso de propaganda de pasta dental: - Poetas? Pra mim, é de Vinícius pra cima. Mas à noite, no aconchego silencioso dos lençóis, ela releu os versos e sabe-se lá por quais desígnios, chorou, colocando assim as suas chaves na mão do meu amigo poeta.
Pena que ele só soube disso quando partiu para muito longe e vislumbrou o florir das páginas muito brancas dos cadernos dela. Com a beleza espantosa do verde e das flores quando cobrem os desertos, ela rabiscava versos, enquanto Deus e o demo, abraçavam perplexos mais um poeta, ou poetisa, como queiram.


Da série: “Deus e o demo na terra do silêncio”
 21/08/04
Variações em torno de um tema chatíssimo chamado Jane Powell - Vinícius de Moraes - Última Hora, 24/08/1951. in : Poesia dos Calendários:
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/calendario.htm
Cissa de Oliveira
Enviado por Cissa de Oliveira em 17/07/2005
Código do texto: T35079
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Sobre a autora
Cissa de Oliveira
Campinas - São Paulo - Brasil
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Cissa de Oliveira