ÚLTIMA POESIA

Noventa e quatro anos,

Corpo cansado, nervos rijos,

Cabelos embranquecidos pela força do tempo,

Olhar distante, visão reduzida,

Uma vasta experiência adquirida

Pela quantidade de anos.

Escrevo então minha última poesia.

Falo de vida, paz, amor, alegria.

No coração senil, só a pureza da alma

Lapidada pela longa vivência.

Onde havia esperança, nasceu a certeza:

Dever cumprido, vida vivida!

Os passos, agora tão lentos,

Já não conduzem a lugares distantes,

Apenas passeiam! Apenas passeiam!

Os lábios proferem pouquíssimas palavras.

Os desejos da carne já não são os mesmos.

Fome, sede! Somente fome e sede!

E a última poesia, que fala de vida,

Diz que a vida é viver os dias.

Cultivando a paz, aperfeiçoando o amor.

Mas vivendo os dias! Vivendo os dias!

E o corpo cansado não esmorece,

Apenas aguarda o desfecho da vida,

Enquanto escrevo minha última poesia.

Nádia Mourão
Enviado por Nádia Mourão em 16/04/2007
Reeditado em 17/10/2008
Código do texto: T451910
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