Nós em nós (Sombras do passado)

Romper laços, atar outros,

atear fogos nas amarras do passado

amo,

amarás,

ato,

desato,

desafeto

irrompe pela janela sombras

de nós, nós que amamos

outros que não desatamos

num ato, no fato, naquela foto

nós aparecem amarrar afetos

que o verbo amar é vivo em

nós, nós todos incontidos

irromper novo laço, novo amor,

atuar com fogos em projetos do futuro

amei,

amou,

ato,

desatento,

desfecho

rompe nas sombras das janelas

tudo de nós, nós desesperados,

nós que desamamos de tanto amar

num fato, no ato, noutra foto

nós parecem amarrar efeitos

onde o imperfeito verbo amar

não vive, nós todos escondidos

rompa os nós do pretérito,

do mais que perfeito amor que passou

os nós de nós não devem amarrar

tudo o que se consumou, que foi fogo,

que foi paixão, que foi tesão e amainou-se

na promessa do eterno viver tudo de novo

tudo com outro alguém, ele em você,

entrelaçados num sorriso, num abraço,

num gozo, num sonho, numa premonição

virtual, encontro casual, novo casal.

hoje, nós juntos, firmes,

nós amarrados com perfume,

com o lume da plena lua,

com promessas plantadas,

com incenso, queijo, vinho,

beijo, desejo, entrega, branca cama

com seu macio lençol,

na benção, da reza,

veja bem, foi tudo isso obra viva,

sob inspiração de um santo, um

tal Antonio, mensageiro do

Senhor do Bonfim

nós que amamos em insólitos atos,

que desafiam incautos viventes

consumidos pelo descrédito do dito

pelo não dito, ou do que disse sem não dizer

eles não sabem o que dizem, nem entendem

nada do que aconteceu

nós em nós, não, nós amarrados

nós apertam, até matam, nós em tudo

na vida, na casa, na sua luta, na labuta

da diária dúvida, da dívida, da gratidão,

do dar, do dom, do que vai doar, vai doer,

vai amarrar novos nós em nós

nós em nós, corto todos, quero só,

somente quero, um nó em mim, outro

em você, não o nó do pequeno

círculo de dourado metal, desse que

do dedo sai, quando o amor se vai

eu quero apenas isso, um compromisso

que assumo, que me submeto, submisso,

que sumo no fogo se disso fosse preciso

eu assumo, de peito aberto, voz segura,

segura em minha mão na oração do

pater nostro, não aperte nenhum nó,

os nós em nós, nós de nós, não aperte

não complete num só ato, não, não...

mesmo no fato, na notícia, não, não...

não aperte este nó, não me condene

a não ser seu futuro, não registre no

seu negro caderninho de números

e sombras, meu nome já desbotado

não aperte este nó, nós em nós,

aquele que amarrava

meu coração ao seu e que, agora,

pode ser apenas uma vaga lembrança

que num vagar lento, pode deixar de ser o

hoje, o presente e meu coração sentir-se

um mero mimo, uma simples lembrança

de quem tinha toda a vida para você,

mas os nós em nós, você arremessou

ao fogo cruel do esquecimento e me

restou, no negro caderninho ser

apenas mais um louco troféu

Rogério Viana
Enviado por Rogério Viana em 10/03/2005
Código do texto: T6272