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CICATRIZES





      Um espelho quebrado me mostra várias faces, como cicatrizes na alma que chora calada, que grita por dentro.

      É tarde e o sono não quer cerrar minhas pálpebras, embora eu saiba que só é tarde para quem aceita as horas.

      Eros se debate, amordaçado pela confusa mente de si próprio, sendo acusado pela lembrança das vítimas de suas flechas, entregando-se ao remorso que se arrasta desde os primórdios.

      O que há comigo? O que vem a ser esta guerra de espíritos, onde esquerdo e direito se devoram ao invés de se ajudarem?

      Lástima! Tudo é cinza e somente ouço os gritos. Gritos que são gládios... E minha velha armadura já está gasta. O anjo negro anuncia com sua trombeta de ossos que é hora de ceifar o trigo. Há que romper a terra para ver o verde da nova vida. Há que ferir para vingar. E a vida é rígida com seus filhos, pois estes precisam voar. Voar! Voar... Ou aprendemos ou caímos.

      Este é um lamento, um grito que ecoa dentro de mim. Mas todos são surdos, exceto para si mesmos.

      Eu vi Deus e Ele tinha o meu rosto. O que fazer se a verdade se apresenta refletindo? O que fazer ao se constatar que tudo é relativo? As horas passam, mas eu continuo firme. As estradas não seguem para lugar algum, nós é que seguimos. E existe um mundo dentro de mim que a meu ver apenas eu posso seguir, apenas um Deus pode existir. Apenas um Deus... Mesmo sabendo que este possui infinitos nomes e rostos, crenças e raças. Assim como eu e tudo o que existe...

      Não vejo sentido, procuro abrigo. Vejo rostos tristes por detrás de máscaras felizes. Vejo derrotas por detrás de vitórias. Vejo vergonha por detrás das glórias. Vejo e me vejo tentado a fazer algo. Fazer o quê? Chorar calado, rir gritando?

      Este é um livro de lamentos. Escrito com lágrimas de mentira e de verdade. Aqui está a verdade das crianças que nascem caladas. Aqui estão as lágrimas de despedidas e partos. Aqui está o sangue que circula nas veias e que adentra o solo. Aqui está a vida do espírito e a morte da alma .

      Conhecemos uma serpente quando pisamos nela. Só damos valor à flor quando a machucamos. A serpente nos dá o pavor, a lição e a queda. A flor nos dá a lembrança e o perfume derradeiro. Mas a flor deixa sementes... E a serpente, descendentes. Mas ambas deixam profundas marcas, no calcanhar e na alma.

      Este é um livro de marcas, de cicatrizes talhadas no papel que se torna carne. São apenas retalhos, sombras imperfeitas do que realmente quis dizer minha alma, pois Deus nunca será o mesmo para todos, nunca terá a mesma linguagem. Nunca... E o que para mim é lamento, para você pode muito bem ser cômico.

      Vamos em frente. A música não pode parar neste baile de máscaras. Deus nos assiste em um eterno espelho multifacetado só que apenas consegue ver o seu próprio rosto.


                                    (Texto compartilhado)
adrisinha
Enviado por adrisinha em 28/08/2007
Código do texto: T627651

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Sobre a autora
adrisinha
Alto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 45 anos
2 textos (77 leituras)
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