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MUSICA ANTIGA

Afinal, de onde veio a ternura ?
Essa convicção sutil
de que nos desejamos o melhor,
mesmo quando o desajuste dos dias
nos proíbe caminhos comuns ?
Esse conhecimento instintivo
da verdade do outro,
que, sabemos, nos sabe e adivinha ?
Terá nascido do outro lado
de uma qualquer esquina, onde já éramos nós dois,
criando as memórias de hoje, em detalhes ?

( Pedras quentes, lisas de muitos passos,
onde nos sentávamos um palmo acima do chão,
levitando eternos e intocáveis,  nas nossas crenças,
ensaiando  rudimentos de artesanato.
Acreditávamos no amor, porque éramos o amor
assumido em gestos, vivido em estilo,
colhido em beijos de tamanha candura,
que tornaram insuficientes
todos os outros beijos no rio dos nossos dias,
nos quais, de lábios irrequietos, procuramos essências
nos remansos onde fomos curar  fadigas
e terminar gestos inacabados.
Dessa esquina, dessas pedras quentes,
trouxemos as nossas histórias, os nossos medos,
e também as nossas alegrias mais profusas.
Por lá vibramos cumplicidades, amores,
desejos e pudores, curtimos horrores,
e aprendemos a escutar a vida
em  sons de violão e flautas de barro,
em  cigarros partilhados no carro,
e em passeios a pé, reparadores...
De então vieram todos os que estão aí,
disfarçados em status e em ternos,
explorados pelos tempos modernos,
esquecidos dessas histórias pregressas
para onde, num ápice, regressas
quando me olhas,
de olhos desencantados.
De alguns nos perdemos,
a outros nem queremos encontrar,
mas a todos somos capazes de reconhecer.
Vimos tudo, fizemos tudo,
acreditamos em todas as coisas,
e gastamos a nossa ingenuidade
olhando ao nosso redor.
Alguns experimentaram demais,
e já nem se fala deles.
Outros, tocam até hoje...
Variações das mesmas músicas
que tocávamos na praia,
ao redor duma fogueira.
Reconhecemo-los.
Conhecemo-los pelos nomes.
Reconhecem-nos quando nos vêem.
Mas só isso.
O resto, é compromisso. )

Mas é daí, desse outro lado
de uma qualquer esquina,
sentados no chão,
do som antigo desse violão
tocado na praia
à volta duma fogueira,
dessas pulseiras e colares
que fabricamos tanto,
que usamos tanto,
que nos conhecemos.
O que sobrou de nós,
foi essa ternura desencantada,
nos olhos com que nos olhamos.
Mas eternamente terna.
Ou ternamente eterna, não importa.
Mas reconhecemo-nos...


Agosto 2007
Henrique Mendes
Enviado por Henrique Mendes em 29/08/2007
Reeditado em 01/09/2007
Código do texto: T630017

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Sobre o autor
Henrique Mendes
Montijo - Setúbal - Portugal, 61 anos
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 24/08/17 00:07)
Henrique Mendes