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A FÁBULA DO BOI-SACI

Quem andou por esses pagos:
Canguçu... Piratini...
Com certeza, já ouviu
A história do Boi-Saci.

Boi-Saci é boi gaúcho
Que tem guampa de franqueiro.
Fica rondando a peonada
Pra roubar algum palheiro.

É boi que não cabresteia,
Que não tolera injustiça.
Não se acostumou com relho,
Nem foi feito pra lingüiça.

Quando renegou a canga,
Trouxeram um peão sangrador.
Na briga, perdeu uma pata
Mas fugiu do matador.

Tornou-se, então, boi liberto,
Tão incerto quanto o vento.
Recebeu de um deus marxista
Um estranho encantamento:

Abrir os olhos dos bichos
Ao explorador nojento
Que os prende em suas pastagens
Ou nalgum confinamento.

Boi-Saci vive nos campos,
Berrando sua utopia,
Pregando pros outros bichos
A sua filosofia.

Num dia de primavera,
Num campo de cornichão,
Boi-Saci se aprochegou
De um terneiro bobalhão.

Boi-Saci:
Buenos dias, terneirinho,
Tão mansinho e tão contente,
Por que pastas, silencioso,
O que passa em tua mente?

Terneiro:
Sou filho da vaca mocha,
Há pouco fui desmamado.
Estou de pêlo lustroso,
Mimoso e vermifugado.

O que posso reclamar?
Tudo é verde em meu caminho!
Já sei até me embretar,
Vou até ganhar brinquinho!

Boi-Saci:
Terneiro, meu companheiro,
Tu tens a alma alienada.
Meus avós, pensando assim,
Foram mortos na charqueada.

É uma falsa liberdade
Engordar nesse potreiro!
Quando estiveres bem gordo,
Teu destino é o açougueiro.

E nem prazer sexual
Tu terás nessa existência
Pois um “burdizo” brutal
Vai castrar tua adolescência”

Quanto mais manso tu fores,
Mais curta será tua vida.
E ninguém há de chorar
Tua carcaça dividida.

É bom que fiques sabendo:
O mundo não se resume
A uma estância sonolenta,
Cheiro de leite e chorume.

O terneiro, pensativo,
Perguntou ao Boi-Saci:
Então, eu fui enganado?
Como vou sair daqui?

Boi-Saci:
Quando eu me for, vou abrir
Aquela grande cancela.
Se quiseres ser liberto,
Passa teu corpo por ela.

Te esconde pro esses matos,
Te mantém sempre em vigília.
Eu fiz um curso lá em Cuba,
Sou pós-graduado em guerrilha.

Me aguarda, que eu voltarei,
Espero, com muitos mais.
Os animais que eram mansos
Voltarão a ser baguais.

Boi-Saci se foi rengueando
Pelos desvãos da campanha.
Era noite, ele varou
O arame de uma cabanha.

Ali criavam cavalos
Pra servir de montaria.
Boi-Saci foi se achegando
De uma cocheira sombria.

Boi-Saci:
Buenas noites, companheiro.
Por que estás tão nervoso?
Está faltando ração?
O teu pêlo está sarnoso?

Cavalo:
Aqui não me falta nada.
Tenho água, pasto, feno.
Mas eu vivo solitário
Num espaço tão pequeno!

Durante o dia, me tiram
Pra trotear com o tratador,
Quando ouvi dele um poema:
“Remorsos de Castrador”.

A história é de um eqüino
Vivendo assim como eu.
Foi castrado por um homem
Que um dia se comoveu...

Ao ver a égua no cio,
Lindaça que nem pintura,
O pingo se descobriu
Uma infeliz criatura.

Depois que escutei tais versos,
Me tornei tão revoltado,
Que não é qualquer xiru
Pra andar em mim montado.

Não suporto olhar nos olhos
De quem fez a judiaria
De me condenar pra sempre
A morrer sem deixar cria.

Os cavalos são mostrados
Por fotógrafos, pintores
Mas quase ninguém revela
Nosso rosário de dores.

Boi-Saci:
Venha já pra nossa luta,
Nunca mais tu terás freio,
Nunca mais sinal de cincha,
Nunca mais calo de arreio.

A vida que te impuseram
Não tem pior horizonte:
Enriquecer pecuarista
À custa do teu reponte.

Viver troteando na pedra,
Morrer fungando poeira,
Empurrando ovelha e vaca
Pra alienação da mangueira.

Já que tens outra visão
Além do teu embornal,
Percebes que o teu patrão
Só enxerga o capital...

Vou deslizar esse trinco
Que te prende na cocheira,
Serás um cavalo livre,
Sem rabicho e sem peiteira.

Não serás mais objeto
Em desfile farroupilha,
Celebrando Bento e Neto
Com sua saga caudilha.

Enfim, ganharás direito
De galopar na campina.
Voltarás a ser um xucro
Pra não ter selim de china.

Foi a cocheira se abrir
E o preso disparou.
Um relincho fez ouvir
E na noite se embrenhou.

Um poeta rio-grandense,
Na madrugada, sem sono,
Fez uns versos pra esse pingo,
E os chamou “Potro Sem Dono”.

Boi-Saci é boi marxista
Que não se mete em encerra.
Para alguns, é boi-corneta
No Movimento Sem Terra.

Olha o vento minuano
Quando faz um corrupio.
Boi-Saci está chegando
Pra lançar seu desafio...

Pra vaca que está na ordenha,
Pro novilho sobre o pasto,
Pra mansidão da ovelha,
Pro flete embaixo do basto.

Boi-Saci não tem leitura
De tese de doutorado.
Boi-Saci fez formatura
Lendo a pauta do alambrado.
 



JUAREZ MACHADO DE FARIAS
Enviado por JUAREZ MACHADO DE FARIAS em 05/11/2005
Código do texto: T67704
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Sobre o autor
JUAREZ MACHADO DE FARIAS
Piratini - Rio Grande do Sul - Brasil, 48 anos
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JUAREZ MACHADO DE FARIAS