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LÁPIS-LAZÚLI (7)

ASTRO

Astro do calendário esquecido
pela civilização dos povos enevoados.
Astro é um ente de luz,
e onde está a cruz?
A cruz está no astro saciando a sede de ressurreição.
E aonde está a civilização?
Casto, entre muitos, está, talvez, o astro em interrogação.
Um retrocesso se envia e traz a mensagem que sofre,
implícito um progresso que se move na barca,
na baía dos sonhos que se refazem.
O centro de uma vela que obedece o mandamento
do vento transmitindo mortes e vidas.
O astro se alimenta de algo,
o mar que ornamenta sua alga,
o salto imprevisto de um galgo
e todo espaço de vida que se salga.
Astro que se alimenta de algo,
indiferente seu brilho fortifica a embarcação
dos aventureiros, da interrogação.
Astro esquecido pelos sistemas,
uma nave sai em sua busca trazendo a mensagem
de mortes e de vidas, de sons, de preces, e de gritos na praça.
Astro que navega no fundo do rio,
que possui o nada como alimento.
Eu sei qual o sentimento de ira,
eu sei qual o constrangimento que nos atira à calçada.
Astro de alçada, astro do milagre, astro da indiferença,
eu sei qual o sentimento de vinagre.
O grito do nascimento em fruto e a tragédia do luto.
Astro que se alimenta de algo,
eu sei, apesar de tudo, onde se escondem o rei
e o poder no colete de bala.
Astro de som e de fala, de estrondo,
eu sei da mentira que balbucio na sala.
Astro, és tão indiferente!
O fio traz a luz para que eu prepare a mala
e fuja mais uma vez.
Astro indiferente ao mês,
eu sei da próxima insensatez que comercio num ímpeto de astúcia.
Astro, casto, que vivencia a sua corte
e se alimenta de vidas e de mortes.
Eu sei dos nossos suportes tão frágeis,
dos papéis ágeis que rasgam e que se perdem para o sempre.
Astro, este contato de vista
revela o aparato do descobrimento
do seu brilho,
que traz o sentimento de filho a um poeta que busca aventura
numa estrela,
uma vontade de seguir pelo trilho.
Astro que se revela no milagre dos olhos
de quem o reconhece
e absorve toda a contemplação
desta sua distância,
num horizonte que é estranho e maravilhoso
pela sua presença, pela sua onipresença.




UM POEMA AOS SOFREDORES

Basta de repetidos poemas apaixonantes e fúteis,
repetidos poemas de paixões inúteis.
Que se faça arte aos sofredores
que não possuem nada,
nunca são reconhecidos.
O poema é um lume
e sua força não se resume
em repetidas frases apaixonadas.
O poema é consolo sublime
aos renegados cujas faces
semi-mortas não resistem
ao salgado mundo construído.
Que se faça aos sofredores,
que se reconheça, ao menos,
os seus corações arrebentados,
que se considere, ao menos,
as suas identidades humanas.
Faça uma arte sobre a vida
e a sua decadência,
na triste realidade em que nos encontramos perdidos.
Sofrimento é o que mais existe
e o que há de mais triste,
de mais belo na poesia.
Sofrimento do homem oprimido entre paredes de injustiças, perversidades.
Sofrimento do coração cansado,
exausto... na eternidade de erros que se encaminham pelos séculos.
Alguém fale da realidade da pura perdição de nossas almas,
da arrogância de uns, da maldade de outros,
do sentido egoísta que nos destrói,
do sentido narcisista de nossos medos.
Alguém mostre a realidade a fim de se resolver algo,
de nascer alguma esperança.
O poema é isto!
É o que se vê sem alienações.
É humilde na vontade própria.
É revoltado com o que nos rodeia.
Não estar preso por formas nem cadeias,
a arte é livre como o espírito que a reflete em um momento sensível.
Que se faça um poema verdadeiro a tantos sofredores torturados.
Há tantas letras inspiradas para serem escritas em nome
do sangue dos pobres espíritos dos decaídos, dos marginalizados,
dos massacrados por imposição.
Há tantas inspirações no ar celestial
que, como um presente divino, aguardam o momento desse manisfestar,
para levantar todos os corpos pobres, feridos e injustiçados...




A HARPA DA TRANQÜILIDADE

A harpa da minha tranqüilidade é semelhante à vida,
tem um generoso ritmo de flor, uma poesia em forma de instrumento.
Passear por uma cidade no começo da noite, sentir a sombra
de mais de um poema estrelar.
Tudo isso é a harpa,
a harpa da minha tranqüilidade. Seu tom surge,
surge do beijo entre duas flores.
Eu criei meu amor no reflexo de muitas solidões,
e este quadro criado por mim é uma vontade amar,
de querer repartir todo o ímpeto que nos faz sorrir;
mas as mãos covardes seguram este momento de bondade,
e todo sorriso se entristece, e a vida se aborrece.
E vem o egoísmo: será que vai me derrotar?
Vem no cenário dos remorsos, porém, ele não sabe que eu possuo
a harpa da tranqüilidade, fortalecendo um pouco
o coração da minha felicidade.
Há seres que hoje são
totalmente frios, perderam o sentido das amizades,
nem sequer guardam dentro de si uma vontade covarde.
Seres rudes, que já se aprofundaram no abismo e de lá
nem tentam se reerguer; sofrem o conflito de um desesperançado
erro...
Por isso trago esta harpa de tranqüilidade,
não totalmente medrosa, não totalmente indecisa.
Ela traz consigo uma imensidade de longos momentos,
um início, com certeza, um incentivo para a vida.
Eu digo que a melodia desta harpa é, assim, tão imensa,
que se deposita cândida e placidamente sob tantos tormentos,
sob tantos medos, sob tantas ilusões desfeitas.
Eu digo, também, que esta melodia não é só minha, pois
ela depende muito de você e, em toda a sua essência,
a intensidade de sua melodia é semelhante a minha.
Ela é um som que transforma tudo em vegetal colorido, muito belo,
espalhando-se pela glória, pela vitória de todas as luzes.
Esta vitória, que é a paz dos homens. Paz onde se agita
a sinceridade dos sorrisos. Ela é um som perdido
num campo encoberto de gramas douradas; ela afaga aquilo
que trazemos dos mais fortes dramas; ela conserva
aquilo que queremos conservar de belo; ela faz minuciosamente
toda a vegetação do campo dourado de gramas.
Prelúdio suave da harpa da tranqüilidade,
haverá muitas de suas horas, tudo transmitindo para dar
vigor a toda coragem, tudo o que for companheiro,
pois é a melodia de uma harpa, uma melodia sensibilizando a consciência, e uma consciência afetada
sempre será uma bandeira de luta.
Prelúdio de uma harpa
aguardo a paz do que há de vir, a concórdia na qual se sintetiza
toda a extensão dourada dos sons.
Acredito que não só eu, mas muitos homens possuem a veemência
necessária para acreditar e se encantar neste som profético:
prenúncio de uma vitória na qual se reúna toda a síntese
de tudo que nos certifique da verdade.
Uma verdade que começa deste simples repartir de felicidade,
para que não haja a agressão destruindo.
Uma verdade em que se vai lutando, sempre,
por renovada humildade acompanhada
pela mais forte ainda melodia
da harpa... da harpa da tranqüilidade, que dá tranqüilidade...



FERNANDO MEDEIROS
primavera de 2005
FERNANDO MEDEIROS
Enviado por FERNANDO MEDEIROS em 23/11/2005
Reeditado em 18/12/2005
Código do texto: T75194

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Sobre o autor
FERNANDO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 53 anos
155 textos (8752 leituras)
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