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MELANCOLIA (1)

PRÍNCIPES DA MELANCOLIA

É a minha lágrima que fala, não a minha ilusão,
Não às vozes do planeta dos sonhos.
É a minha realidade que diz: _ Príncipe da Melancolia...
Príncipe pobre – Onde já se viu?
Príncipe da melancolia
habitando cada cenário que sai destes olhos.
Príncipes de melancolia que tudo coloriram de amargo.
Em qualquer colina que você subir
vai encontrar uma luzimento perdido em meio às trevas
de tudo o que se perda na vida... Esse luzimento perdido
é a luz do principado pequeno, abandonado,
só habitado pelos Príncipes da Melancolia.
Príncipes que saem pelas estradas outonais,
para visitar os homens que os chamam. Olhos desamparados
que pedem as suas presenças.
Este principado, tendo por símbolo a vitória-régia, feita por lágrimas de um rio no qual morreram belas deusas d’ águas.
Príncipes das Melancolias! grandes são os seus caminhos na terra
atendendo aqueles, aqueles dos sofrimentos. Contemplativos e inconformados seres, na noite do silêncio.
Príncipe pacato, quando será um princípio?
Principalmente um príncipe de um nascimento?
Príncipe que herda todos os dias uma poeira lacrimada
do testamento dos que são pisados e fulminados.
Uma poeira lacrimada, porque provém daqueles que choraram
pressionados por armas que os faziam chorar forçados,
com a cabeça raspando no chão.
Príncipes que ouvem o som do tempo: tic-tac, tic-tac...
Ouvem e partem com suas velhas carruagens
encaminhando-se conforme o rumor de um soluço,
expelindo lágrimas nas linhas das mãos.
Ouvem, os Príncipes da Melancolia, e seguem...
Eles querem o bem do homem, no fundo.
Pensam que, em um só dia, depois de tantos séculos,
poderão entregar aos seus, a todos, as alegrias,
generosos Príncipes da Melancolia.
Príncipes que ficam olhando poeticamente de nossas janelas,
quando nós nos levantamos de nossas camas para enfrentar os dias...
Levantamos angustiados, prontos para enfrentar ou a morte ou os perigos, desequilibrando as cores, apagando as cores.
Principados tão lacrimosos e miseráveis,
será naquela montanha os seus lugares? Onde será?
Príncipe da Melancolia! trará na face a ironia?
Será seu consolo feito de ironia, Príncipes da Melancolia?
Seus consolos, suas ironias... serão estes muitos plurais?
Quantas pessoas estarão visitando nestas partes do mundo?
Será que começam a se despedir do homem? Talvez não...
Ainda eles estão conosco, estes príncipes amigos
só vêm ajudar, só vêm consolar; vêem a vida assim:
a melancolia procurando libertar-se da melancolia.
Eles vêm para consolar, por isso são tristes e pobres,
porque, assim,
se devem apresentar quando se visita com sinceridade. Assim são os homens, e assim os príncipes que se apresentam:
simples e pobres, correspondendo aos corações,
e o que é uma coisa muito bela: simples e pobres são estes
príncipes, com todos os seus poderes que se estendem
pelos olhos, olhos vivos, e assistindo os dramas da terra,
olhos enxergando toda a terra.
Conforme cada brilho dos olhos, vêm os príncipes nos visitar,
vêm calmamente, vêm para consolar.



ESTE SOFRIMENTO, ESSE SOFRIMENTO...

Guardei este sofrimento, esse peso de agitação,
uma ânsia de maus pressentimentos que ulcera
a fuga, agonizando-se com a espera.
Melhor seria pervagar com a paz, mas eu guardei
este furor indômito e a liberdade pacífica
cantava, cantava, mas em forma de um sonho tranqüilo.
Sonoridade leve, sonoridade de noite quente
na qual se nota a companhia de um monte florido
de ervas presenteando aromas, aromas preciosos.
Sonoridade, porque guardei este sofrimento nos meus ossos,
porque alimentei isto nas minhas células,
porque não olhei para as ervas, para os montes.
Porque alimentei
este monstro que me guia ao ridículo.
Monstro que agarra as mãos e nos leva para a areia movediça.
Este sofrimento vale por horas inteiras,
meu coração acompanha a marcha desta orquestra nervosa
que sabe o que faz bem, mas é fraca, nervosa, trêmula, sôfrega, orquestra de respiração trágica e incessante.
Sonoridade leve... não existirá aqui?
Não cantará mais ao meu lado? Esqueceu da cor dos meus olhos,
dos movimentos que a chama?
Por que carreguei durante grande parte da vida
esta orquestra nervosa dentro do meu organismo?
Qual foi o meu tropeço, será o egoísmo?
O que me fez sentir a sensação de estar num barco,
a tempestade voraz a estrugir, a atirar-me ao mar,
com o barco, o leme na mão desgovernada.
É esta a sensação desesperada que agita uma voz infrene,
que volta e fica, volta e fica a me perturbar,
e com uma vontade guardada, vontade de prosseguir...
É esta sensação desesperada a me forçar veias,
a se encolher nos leitos.
Sonoridade voluptuosa, florida no campo daquelas ervas
que presenteiam
os sofredores com aromas.
Sonoridade...
Queria senti-la no eterno,
mas a orquestra desafinada quebra a harmonia
da verdadeira orquestra que pode criar um homem.
Aquela orquestra por meio da qual se evolam as vozes vigorosas e imensas.
Força negativa que me fez um palhaço,
é grandiosa a necessidade
de vencer impérios que possuem guardas,
representando, cada um deles, as neuroses diversas.
Ouça-me, pois, sonoridade:
_ Desejo que se faça mais límpidos os corações!
A vida desejo para quem está ao meu lado.
Força verdadeira que deve se criar e se desenvolver
conforme o tempo, conforme a reação aos sofrimentos.
Força positiva, enfim, faça-me seguro!
Força que está abrindo vales em todos nós,
Força positiva, terei que confiar nos límpidos desejos
e livrar-me em muito destes sofrimentos que guardei?
Isto também se refere a todas as pessoas
que estiverem neste mundo e também queiram
abrir vales, para que a verdadeira força evolua.
Guardei este sofrimento, este peso de agitação,
inquietante uma ânsia ulcera,
não nem uma ânsia, mas algo desespero.



TRISTEZA PACÍFICA: MEDITAÇÃO

Eu me encosto nesta tristeza, perplexo e imóvel,
sentindo o lento vagar de todos os momentos parados.
Ouço uma música bela, vinda de uma ventania distante.
Uma lâmpada brilhante ilumina a rua sombria.
Um prazer triste e exótico parece cantar o alívio,
cantar o instante de elevação para minha pobre emoção.
Descanso neste ar noturno, nesta enluarada e acariciante
árvore que, na noite, transforma-se em bloco escuro e poético,
deita-me uma suavidade incomparável,
colorindo o centro de minha sensibilidade.
Passar os olhos tristes e calmos nestes momentos inesquecíveis,
onde se esquece a revolta que durante o dia tanto nos alerta.
Que música remota emerge desta ventania?...
Que grandiosidade estar nesta liberdade trêmula,
cândida, num voejo incandescente.
Passar os olhos lacrimosos, aborrecidos, com as ofensas
que se eternizam pelo azul sensual. Azul personificando
a calma e o delírio de lírios pacíficos no peito.
Passar os olhos pesados e valorizar as poucas cores de bem
emitidas pelos poucos ares sensatos de pessoas artísticas.
É digno vagar assim, vagar a mente neste silêncio de vida,
neste palpitar imperceptível que, aos poucos, transforma-se
num sussurro que nos adormece em um sono criador.
São altos os muros da meditação, razão de equilíbrio
para a alma sofrida de tormentos.
São canteiros de alecrins a alentar os despedaçados sentimentos.
Canteiros com seus frutos que não perdem a força.
Canteiros que se semeiam pela demonstração pura e simples
das coisas que se revelam lindas no silêncio.
Canteiros que se banham de sementes pelas suas forças profícuas,
como as deusas banhando-se em bálsamos no rio transbordante.
É digno vagar a mente, passar as horas lentamente,
mergulhado em flores de luzes, nas pedras transformadas em lágrimas pelos grandes homens. Lágrimas que resguardam
a força no conhecimento de toda a amargura.
Passar os olhos embaçados na transparente revelação
da natureza descansando. Passar os olhos e perceber um sentimento
tão magnífico e tão precioso:
o prazer tristonho de se encontrar com a vida por um instante
e ter que se despedir da mesma tão rapidamente,
para entrar em um mundo nervoso, em lugares de obstáculos.
Um prazer que só é tristonho por ser tão rápido,
assemelha-se àquele que nos invade a emoção
quando encontramos uma pessoa amada e sincera
e, no mesmo instante, temos que nos despedir dela
por motivos de um destino insensível.
É tão sensível esta meditação,
tanto valor existe neste prazer tristonho,
que um dia será feliz, porque encontrará a eternidade
de todas as flores de luzes.
Encontrará a origem da prosperidade feliz,
para se dar força em todas as horas, em todos os passos
desta nossa existência.


FERNANDO MEDEIROS
primavera de 2005
 
FERNANDO MEDEIROS
Enviado por FERNANDO MEDEIROS em 03/12/2005
Reeditado em 18/12/2005
Código do texto: T80603

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Sobre o autor
FERNANDO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 53 anos
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