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NOSSOS HERÓIS

FIOS SUBLIMES

Dos fios sublimes, elétricos de ânimo
nas ruas populares, ressurge o mesmo frêmito de esperança
que tem feito do homem um soldado em constante movimento.
Até amanhã! você... Até amanhã estaremos em plena atividade,
num dia de sol, lutando pelas coisas dentro da controvérsia
e de tudo o que apresenta dificuldade.
Quantidade mínima de pétalas, como enfeitar mais o vaso?
Os fios sublimes, como já se sabe,
não podem esclarecer totalmente a própria energia,
isto já tenho dito em outros escritos.
Quanto se precisa de fios, fios ordenados em linhas retas
e energéticas, formando belo desenho em ângulos corretos?
Eletricistas mágicos a ordenar fios em correspondência.
E a cidade seria, então, iluminada.
Até logo! Até muito logo, o mais depressa possível.
É bom saber que a batalha não acaba em desvantagem,
que uma torre de energias se reflete em nossa imagem.
A batalha não se acaba, a derrota não desaba,
apenas arrefece, e tudo terá prosseguimento...
E, quem sabe, venceremos?! e então poderemos lançar adeuses
às pedras frias empastadas na tristeza de um cotidiano.
Uma célula navega infinitamente,
Cuidado! pois alguma luz revestida em trevas, cega...
Mas tudo se enfrenta com a concepção
que a realidade... num dia branco e límpido,
límpido qual uma poesia a apitar nos trilhos
que enfeitam a distância no horizonte.
Até amanhã! transformação batalhadora, afinco que se instala
em forma de fios sublimes, protegendo toda a praça.
Fios sublimes começando um trabalho engenhoso, mui engenhoso.
A agitação, a preparação e as mãos que enlaçam compenetradas
para poder traçar amanhã, tão logo nasça a manhã.
Os fios sublimes... que começam seu trabalho
e largam pensando no colorir desta eletricidade;
um chiado de faíscas, uma mistura mágica de brilhos,
e surge a eletricidade no coração e na expansão do coração,
em fios trabalhando no laboratório de fosforescências mágicas
tão necessárias, iluminando livros, peças, máquinas...
Iluminando chuvas, fabricando faróis que se lançam ousados.
Um pulso verificando esta força do fio sublime,
ligação de forças e a altura dos postes.
A altura dos postes... no topo pousa uma ave
preparada para alçar a sua vida na vida do azul,
do azul tão leve; preparada esta ave no alto do poste
onde não se pode situar o pulso de um homem, ligando forças
com fios sublimes prolongados em qualquer lugar.
Fios e pulsos. Até logo! ainda é difícil prosseguir,
mas siga assim, prossiga, que o seu prosseguir
tem uma preciosa importância, e que importância!
Vivificada na necessidade,
necessidade de impor ânsia dentro da importância.
Até logo... Até logo... que se diga e que se prossiga,
dizendo: até logo!





FUTEBOL

a Luiz Carlos Prestes


A bola de futebol corre desvairada,
a alegria futura está abafada.
É belo ver o povo feliz, o povo fazer a sua festa.
O povo explodiu em sua doce alegria emocionante e expansiva.
É belo ver a luta ativa no campo de raça, do suor.
Há injustiça? A torcida por um momento se revolta.
Rojões salpicam no céu e um só canto ouve-se pelo campo.
Dá medo ver a festa solta, as vozes alucinadas e agressivas.
Mas se há violência é porque atrás das arquibancadas
houve trabalho injusto, houve pouca comida,
houve o roubo dos que ficam ricos e corruptos
às custas da exploração e da malícia.
Mas eu sei que um dia todas as festas
de gols haverá sem violência e sem sevícia.
A festa nossa será, então, sadia! Na comemoração maravilhosa ficarão
as bandeiras, tremulando felizes.
Ficarão as canções simples do povo,
dentro das quatro linhas, no jogo do quatro, três, três.
Em todos os setores de ataque e da defesa, a agremiação, que defende
os enfraquecidos e os subjugados, vencerá!
A torcida levantará seus heróis! Foram homens que lutaram
por suas alegrias, pelas suas vontades.
Cansaram-se por seus contentamentos.
Foram homens que jogaram limpo, e tratarão com igualdade o seu povo,
oferecendo seus gols e suores, para todos!
Rojões mais coloridos salpicarão no céu; bandeiras verdes, vermelhas,
amarelas e azuis unir-se-ão aos papéis brilhantes,
aos instrumentos
de festa, e o povo cantará em seu batuque,
desde a mais pequena criança saudável até o mais satisfeito operário.
Viva! Viva! Homens que fizeram do jogo uma luta de raça, uma raça de luta
de igualdade, de fartura, de união, de pão e ternura...
Muitos quebraram seus corpos nos campos, fraturaram os seus ossos,
ficaram presos nas redes, mas eles ajudarão a fazer a festa futura, pois
as suas sementes ficaram em nós. A festa de uma nação que virá
solidária, unida na luz, e camarada... Nos gols mais vibrantes
estarão nossos futuros filhos a vibrar, em um canto de alimento, de vida e de terra. Que se justifiquem os heróis! que se mataram nestes campos, que se cansaram de lutar. Que se justifiquem os heróis! que realizaram os primeiros gols desejados por seu povo.
O gol justiça! O gol vida! O gol terra! O gol homem!
Gritarão, com toda a força do simples coração,
as vozes oprimidas, loucas e sozinhas na miséria.
Gritarão a ternura de terem conquistado
a maravilhosa Taça da Vida!
Taça de lume humano e eterno...



PEQUENO

Eu sou o reduzido instrumento, o mármore frio...
Incalculavelmente frio.
Frios são os dias, frios são os homens.
Eu estou vazio nesta treva que se estende.
Eu estou em extremo abatimento nesta esfera profunda.
Teria vontade de explanar emoções, atirar no papel este desencanto com muitas outras coisas.
Lá se vai mais um coração perplexo e triste
procurar a sombra de uma árvore solitária.
A vida não pode se tornar insignificante, pois
esta falta de significante é um grande crime!
Por que, em longas horas, não sentimos a euforia gigante?
Quanto é preciso vibrar a sede que transporta a inteligência
e a criação?!
Mas, por que este pequeno? ser uma areia, e você também?
Tudo em certo momento mostra-se pequeno, vago, translúcido.
Tudo uma intenção imprecisa, pervagando, voando com os pés
em um atalho central da cidade, cidade que existe
por causa de um objetivo; no entanto, tantos dos seus filhos
vivem sem qualquer personificação de vida.
Pequeno, como até hoje somos, pequenos e fracos.
No sofá perfumado, de veludo, deita-se um homem magro e mudo,
com uma palavra maníaca e uma máquina na cabeça a lhe martelar
sons que provém de contorções provocadas, provocadas...
Em um certo momento, a festa teve o seu final...
Convidados abandonam a sala, dirigem-se aos seus recolhimentos.
Luzes se apagam... e quem não for sincero consigo próprio?!
Será que foi só este soluço que restou a mim, a você, ao homem?!
Mais nada?! Ser pequeno, areia minúscula, garras prontas
e afiadas e... mais nada?! Como?!
De que vale então eu possuir este ingresso?
Só para assistir a carnificina da exploração e do desconcerto?
De que vale então ser um homem preste a se tornar uma formiga?
Ironicamente falando, formigueiros parecem possuir melhores
sistemas de vida uma vez comparados às metrópoles em que nos situamos...
Trabalhar pela construção nunca foi trabalhar pelos
interesses alienados e mesquinhos. No entanto, são estes
mesmos interesses que são ensinados em cada gesto.
Nascemos para muitas coisas, menos para sermos pequenos entulhos
pelos cantos de cada terreno. Sinto-me farto, montanhas de moedas...
O ser humano não quer fazer o seu segundo parto.
Montanhas de entulhos que se desvalorizam a qualquer parada
do homem. Risos guardados, verdade falsificada nas latas
escondidas dos embrulhos.
Esta sobremesa me deu engulhos, este ar pequeno, estes pedregulhos, pedregulhos falantes, andantes, não reagem,
nem sabem se sofrem, nem sabem se vivem, se aguardam ou se vegetam...
Carrancudo e pequeno, pequeno: _ Já comprou terreno?
_ Já guardou dinheiro? _ És virgem? _ Quantas mulheres?
_ E a roupa? (Oh, a roupa!). É certo que não critico
coisas que são necessárias ao homem, como casa, vestimenta...
Mas critico o homem de fazer disso o único motivo de viver,
este tipo de agir embotado e irracional faz o homem desconsiderar
o próprio homem. Desconsidera aquele que criou a vestimenta,
a casa e tudo mais. Isto é fuga! uma fraqueza, consolidada
pela tradição do sistema de gerações a gerações. A vida assim
nasce pequena e fraca dentro daqueles que guardam extensos
impérios econômicos. Homens frios que cultuam peças frias,
peças que devem ficar n’outro lugar, e não em altares... nas faces.
Mas existem os relegados deste sistema, que são alienados à força pelos que espalham a alienação.
Estes relegados e oprimidos são a negação
deste sistema frio e contraditório.
É a potência sufocada do homem oprimido
que quer explodir numa revolução. Tudo provocado
pelo que faz alienação, e desta força opressora,
que se impõe! nascem os oprimidos que podem destruí-la.
Porém, tudo é feito para desviar o relegado,
o sistema é imperfeito, sempre manterá desprivilegiados;
Então, os homens que o fazem sempre iludirá homens
que nunca ou raramente poderão sair de uma baixa condição.
E os poucos que saem da baixa condição, saem neuróticos,
entram na camada que provoca a alienação...
Será infeliz, pois foi iludido; está vivendo num mundo
vazio, pervertido, que mantém uma força suja sob os oprimidos.
Daí vem a necessidade da revolução!
Para que os desprivilegiados destruam por vez a alienação
e criem um novo sistema, pois estarão  libertos deste sempre-presente.
Porém, estamos, ainda, neste sistema de erros,
e aqui, o que resta de mim, do homem, de tudo?
É esta a sina daquele que obedece aos exploradores: o que nos restou?
Vir ao mundo para vestir roupas douradas, mostrar vaidades, temer, se possível, o próximo?!
Garantir seu mundinho mesquinho?Foi para isso?! Ser pequeno,
e repetir, repetir, repetir... Pelas primeiras horas
da manhã, acordarei e estarei esperançoso em relação
a todos os oprimidos. Eu sei que vale muito ainda esta ilusão
de areia passar a ser uma pedra, de pedra: monte; de montanha: cordilheira...
São as primeiras horas da manhã,
há muitas possibilidades. Primeiras horas,
os oprimidos crescem durante um dia, crescem numa revolta.
Que a luz permita que a verdade cruze o nosso atalho central nesta metrópole nervosa. São os primeiros toques
do pêndulo, correm as horas... correrá um dia o homem?
Deixará de rodar em torno de sua desilusão e destruição?
Pelos primeiros raios de sol é de se sentir
que algo, daqui a pouco, pode revolucionar.
Em primeiro lugar, há um sol que, de pequeno, passa a ser grande,
estendendo-se vagarosamente, até explodir no céu azul.
Um sol rodando eterno pelo universo.
É de se sentir, por tudo que palpita, um amor renovado e límpido.
E de tudo, o mais certo: a grandeza do mar desmancha a areia,
transforma a areia em sal, em alimento, para a grandeza
do renovado mar...


FERNANDO MEDEIROS
primavera de 2005
FERNANDO MEDEIROS
Enviado por FERNANDO MEDEIROS em 09/12/2005
Reeditado em 18/12/2005
Código do texto: T83041

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Sobre o autor
FERNANDO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 53 anos
155 textos (8752 leituras)
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