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MELANCOLIA (2)

ESTANCAMENTO

O sentimento talvez não teve seu fim na amargura, talvez o sentimento dure e prossiga e transforme como tudo foi feito para durar, prosseguir e irremediavelmente se transformar.


Minto para mim mesmo
na alcova da veleidade.
Como quero caminhar a esmo
e arrancar sangue de minha idade!
Sangue de minha idade...
Bebo! Bebo em memória a Baco,
assim não me sinto tão fraco.
Bebo! em continência a Baco,
Jamais assim me sentirei fraco.
Sofro por meu coração,
algo se representa cinicamente.
Será a minha própria conspiração?
Sendo suicida como ser vivente?
Sofro pelo que me resta...
A cidade tem sido uma floresta,
e que sombria floresta!
Traçam labirintos em todos os ângulos!
A saída? Não sei qual aresta...
Levanta-se como o mar
a corrupção de quem me detesta.
Esconde-se matreira na esquina
a corrupção de quem me assassina.
Vejo verter sangue de minha sina.
Arbítrio consagrado à minha solidão,
a cidade é uma floresta
e o meu corpo um sertão...
Olhos brilhantes, maliciosos
espreitam pela cadeia.
É a concepção, a definição do ódio
de quem esfaqueia.
Bebo! Na contingência da minha hora,
assim me sinto indo embora,
sinto-me indo embora...
Bebo! Na completa ignorância dos meus atos.
Quem sabe, assim, me sinto um rato,
quem sabe, assim, já sou um rato...
Velo... velo meus quartos, foragido,
onde parte de minha vida gorjeia,
onde a fome faz um homem vencido.
Velo meus quartos foragidos! Creia, creia...
Proteja-os assim como filhos!
Bebo! Bebo... antes de todo dia
apertar o gatilho.
Bebo, eu suponho,
em homenagem ao lixo que se fez sonho,
ao sonho que se fez bicho.
Minto... minto aos campos diversos,
e bebo, e bebo...
Sempre assim procurarei versos,
sempre assim estarei nos versos.
Sofro por meu sofrimento...
Bebo! Bebo e tropeço na esquina,
delírio desabando no calçamento,
assim, só assim se descortina
este louco e alucinado estancamento...



JARDIM DOS SENSÍVEIS

Renasce o ponto do emaranhado no peito.
Não saber como enfrentar o próximo recado.
Renasce o mesmo carteado pelo carteado
que acha quando procura a chave do cadeado.
Assim se mantém a prisão que se eterniza
em nome da chave.
Renasce a chave que nos prende
na velha dívida infinita.
E o finito coração, dentro de mim,
vai resumindo sua estreita filosofia.
É a busca sem sentido que se mistura à agonia.
O mesmo dia renasce e golpeia o infinito recado
que se solta dos meus lábios,
em meio à matança invisível.
Renasce a mecha branca sobre cada emaranhada cabeça,
mostrando a dimensão espessa do sofrimento e de seu cadeado.
Renasce, enfim, o que está para morrer,
aproxima-se do sublime, pois se debate no ângulo do concreto.
O que dirá de mais discreto quem vive o crime de si próprio?
Renasce, enfim, esta cantiga,
trazendo a poesia dos que se perdem,
mas ainda revivem o encontro com o novo jardim preparado
pelo artista invisível da harmonia.
O que mais renascerá neste jardim?
Que terra sofrida e fértil se esconde no recanto
onde a criança brinca de sofrer cada vez mais?
Renascem flores e cinzas
na giratória da esfera que não se encontra,
mas que deve seguir sua sina no campo de sangue.
Este se representa no próprio peito,
feito um jardim onde o humano remói o seu desespero.



LUZES DA MONTANHA

CANTO I – Desesperança

As luzes da montanha brilham,
a noite é embaçada...
Quanto imaginei de meu futuro!
Quantas lágrimas contidas por inibição.
E, atualmente, só o que me reconhece
é uma noite pura.
Esperava, ao menos, que algumas flores
frutificassem meu ingênuo jardim,
mas todas as flores parecem que feneceram,
feneceram, feneceram...
As luzes da montanha brilham.
Quantas boas frutas tentei saborear,
quantas vezes
procurei ser humilde,
mas tudo ficou sob um tempo em que fui rude e egoísta.
Recorda-se quando pensava eu em viagens?
Imaginava-se livre e feliz: semeador de aragens...
Onde estão essas ondas de peregrinações?
Onde?...

A noite é embaçada
As luzes da montanha brilham
Onde está o meu relógio?
O tempo quebrou...
Talvez esse tempo esteja cansado
de todas as nossas horas...
Por muitas ambições fiquei sem viver,
por muitas humilhações fiquei a me corroer,
por muitos desesperos fiquei a me esconder...
Por tudo fui vaidoso, e as rugas frustradas
Apareceram, apareceram, apareceram...
Recordam-se, bêbados artistas! dos seus pássaros,
eles voam por bosques floridos
de um inolvidável paraíso...


Canto II  - ESPERANÇA

A noite é embaçada.
As luzes da montanha brilham,
vejo a face de alguém, dentro de mim, brilhando...
E os pássaros estão envolvendo o horizonte
com o manto acolhedor de seus cânticos.
E essa voz me diz:
_ Vamos! Não seja fraco e tão lamentador,
deixe as inutilidades e os sonhos perecíveis.
Venha! Não lamente tanto assim,
o sol vai nascer e a cada dia o céu
prepara sua canção fulgente e celeste
para os violinos indomáveis,
dirigentes da harmonia de seu paraíso...
Veja as luzernas!Elas os iluminam!
Elas querem, com toda certeza, o seu bem...
Vá homem de sangue... vá homem que se encerra,
apareceu o momento de cavar nas minas
todo o ouro de sua terra...

Só então me convenci
que hoje a noite pode ser embaçada,
mas, entre noites negras e noites azuis,
as luzes da montanha ainda brilham,
os mares se esparramam, os céus e seus azuis...



DESVIO

Fora da concepção da coragem
não revelo nada.
O que vem desce como aragem...
Não tenho calor que resume
toda a estiagem de espírito.
O que se espera é só uma guinada
quando a prece adormece.
O sonho se esquece e o próximo suplício
acerta sua aritmética.
Revelar uma fonte envenenada
e descer a escada em fila.
Revelar uma ponte-armadilha
e descer até a ilha em chamas.
Fora da concepção da coragem se passa longe
daquilo que floresce.
Vindo não sei de onde
não existe mais ontem,
tudo é itinerário absorvedor.
Conjuga-se a dor conforme a impossibilidade de fuga.
E o caminho escurece...
Fora da concepção da coragem,
vindo da mesma linha,
do mesmo horizonte,
e o caminho multiplica-se absorvedor.
Complica-se a dor,
assim se faz a vida em chamas.
Fora da concepção da coragem,
o sujeito em pauta,
saltando obstáculo,
resplandece a face do oráculo.
No caminho anoitece...
A concepção da coragem
mistura-se ao eclipse do sonho humano.
Acima... só longínquas e inquestionáveis estrelas.



ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

O direito
à alegria.
Alice, quem te disse
que a maravilha
chegava ao preço
de um dia?
Que poesia é essa?
Como se chama esta
maravilha
que passa, remói
a tua cartilha?
Sem direito,
sem partilha.
Alice,
perdida na lua
da ilha,
quem te disse
sobre a maravilha?
A filha de toda questão
não enrodilha
Mais história nenhuma,
história não mais se pensa,
e não se veste alegria de bruma.
Quem te disse
não soube dizer,
soube vir com tarântulas,
engolindo o fogo e o carvão.
Quem te disse,
disse adeus à ilusão.


FERNANDO MEDEIROS
primavera de 2005
FERNANDO MEDEIROS
Enviado por FERNANDO MEDEIROS em 19/12/2005
Código do texto: T88212

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Sobre o autor
FERNANDO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 53 anos
155 textos (8752 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 05/12/16 00:46)