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ALERTA, HOMEM, PRODUTOR DE PALAVRAS!

ALERTA, HOMEM!

Cobra! Por que não queres ver a verdade?
a verdade que tu estás a rastejar-te.
Escorpião, vê ao menos, por um dia,
a máquina venenosa onde vives.
Que o último sinal
propague a felicidade,
que ao menos alguma flor
propague o perfume,
mas quantos não escarraram sobre o sinal,
quantos não lançaram inseticidas contra o perfume?
O percalço está presente.
Risos continuam
no balde
atirado no tanque no qual se concentra
toda a tensão das águas.
Águia, considera o vôo dos grandes pássaros,
senão nada mais voará contigo,
suas asas poderosas rolarão
do infinito azul e tudo se perderá.
O supérfluo comanda o vôo.
Será vôo ou abismo das asas?
A paralisia pode ser repentina,
a cada dia perdes as tuas garras, tua vontade de voar,
a consciência da utilidade de voar.
Pantera, vigilante nestas árvores florestais,
em tudo escondes a tua verdade,
no teu dente tingido de sangue,
no couro da tua pele marcada de balas.
Abaixo de tuas árvores excêntricas e florestais,
repousa o tesouro de todas as tuas caças,
e as outras panteras estão esfomeadas.
Com um rugido vigias o teu tesouro,
com a boca escancarada, dentes raivosos,
investes sobre o inimigo que se aproxima.
Onça, fracassastes como rainha,
as matas do teu mundo mudo
impedem-te de ir ao encontro de tua presa.
Onça, teu ódio também faz parte desta represa.
A realidade move-se enguiçada.
Répteis, predadores! Vós sois os primitivos
que perseguem e espreitam
e olham a vida como um simples resto de osso para se roer.
Alerta, Homem, você formou esta floresta em torno de ti!
Alerta, Homem, cobra, escorpião, águia, pantera, onça!
Alerta, Homem, a única das consciências
que pode alimentar e saber o que é a vida!
Desenvolveste uma civilização,
e como poder continuar assim? alerta, alerta!
Um animal pervertido,
porque não é animal irracional, porque é homem,
porque regride a uma condição que já não é a sua?
Por isso o animal pervertido
que não tem mais animal irracional,
mas monstros com atitudes de animais,
atitudes pervertidas de animais irracionais,
pois os animais são inocentes e não têm consciência.
Alerta, por isso, Homem!



DESCONFIANÇA

Até qual ponto devemos confiar no homem e nos seus ideais?
O medo que me invade é aquele medo
da destruição dos ideais.
Até qual ponto permanece digna a ação humana? Diga,
até qual ponto resiste a estrutura
sem que se conheça qualquer fraqueza,
sem que se possa se corromper?
Inicialmente somos ingênuos demais
frente ao ideal de justiça
contido em alguns homens.
Seguimos os seus pensamentos,
erguemos um modo de vida sob o pensamento que formularam.
Posteriormente, conhecemos
a deterioração deste sonho,
a decepção que se possa conhecer em tudo.
Por que se gera esta decepção?
Por que muitas vezes as imagens bem construídas
tendem a demonstrar o contrário em seu interior?
Por isso, repito:
até qual ponto podemos confiar em nós próprios?
Esta fraqueza: poderosas ilusões mesquinhas
é que distorcem todo um cenário.
Um cenário além da aparência.
E como vencer esta tendência fatal?
As coisas podem parecer maravilhosas
aos olhos de nossa ingenuidade, mas...
muitas vezes, são decepcionantes,
e destroem toda a concepção florida
com a agressividade no botijão dos interesses.
Por isso deve-se estar preparado para não se decepcionar,
criar dentro de si o vigor do objetivo escolhido,
comparando-o, sempre, com a difícil realidade.
Deve-se ter o senso de se fazer uma barra de ferro
que não distorça ao menor sopro de calor.
Todos gostam de falar como os apóstolos,
porém, agem sempre abstrata e covardemente.
Todos nós temos uma queda pelo palavreado
conspícuo e dignificante, todos nós amamos a aparência da justiça,
mas nunca a verdade para atuar. Deste modo,
tudo não passa de uma diarréia de palavras.
Mesmo os mais sujos, estultos e hipócritas
ousam gritar palavras de libertação. Será outra diarréia de palavras?
E qual é o quadro de nossa realidade?
Todos já conhecem, todos sabem do nosso fim, para o qual caminhamos,
sorridentes qual sádicos.
Até qual ponto confiar; dar crédito aos cantares da justiça?
Mesmo falando assim, há um vendaval que me arrasta,
mesmo conhecendo os pontos infindáveis que nos levam à lama,
há um pincel,
que faz um relâmpago meu ideal.
Afinal, se eu fosse um pessimista, um cético, não estaria existindo.
É certo que há o risco de nos corromper,
que tudo é tão triste, quando se passa
do sonho à realidade.
Mas que iremos, então, fazer?
Chorarmos qual vencidos?
Não... há um grau de ingenuidade
que nos dirige a uma causa.
Devemos, antes de tomar a direção,
estabelecer as linhas mestras de força dentro da noite.
Assim, a causa triunfará em você
e, conseqüentemente, em todas as pessoas.
E esta desconfiança de que falo
então perecerá.
Pois há a possibilidade de vida mais justa,
há, no próprio sentido das coisas,
uma linha vertical, em busca de melhoria,
mesmo porque os fracassos não perduram,
e a pedra que fere se auto-destrói.
Neste ponto, em que a confiança
estiver firme, enraizada no fundo do vaso,
enraizada realmente...
Então será a hora,
pois tudo responderá aos seus códigos.
Então será hora de se firmar em conclusões,
de se alimentar de palavras muitas,
para produzir crescimento e não diarréia de palavras.
Lembro que a diarréia de palavras
só vive na boca dos hipócritas,
que consomem palavras, e as defecam juntamente com os seus atos.
Existem muitos, em todos os lugares,
que oferecem a palavra, que produzem a palavra
com sinceridade; estes se devem reconhecer,
escrevem imbuídos de bom senso,
escrevem para que as suas palavras floresçam nos lábios certos.
Realizam o valoroso trabalho de produção de palavras.
Porém, esta valorosa produção
não pode ser desperdiçada nos lábios de hipócritas,
mas ser praticada, pois esta
é a realização da produção de palavras.
É isto que os seus trabalhadores (escritores, poetas etc.) mais desejam: que a palavra seja um fruto realmente saboroso.
Lembro que a diarréia de palavras só existe na hora dos hipócritas,
dos que desrespeitam as palavras.
E quem as escreve com ternura, carinho e sinceridade
necessita de realização e de confiança,
para que se estabeleça
a hora e o ponto,
a hora de sermos fortes, como pedras inabaláveis,
como medalhas eternas, com mãos determinantes.
Mãos determinantes, promovendo o prazer no dia-a-dia,
o prazer de aprofundar na confiança.


FERNANDO MEDEIROS
 verão de 2006
FERNANDO MEDEIROS
Enviado por FERNANDO MEDEIROS em 14/01/2006
Código do texto: T98598

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Sobre o autor
FERNANDO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 53 anos
155 textos (8752 leituras)
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