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Sete de Setembro - o grito dos excluidos

    Eu não quero agora,
    agradar a quem ler,
    agora quero simplesmente escrever o que eu gosto,
    do jeito que eu gosto, como eu gosto.
    Quero falar do que eu sinto, e falando assim , através de linhas mal escritas,
    eu solto meus sentimentos, e faço brotar a revolta que vive em meu interior.
    Quero falar de João, José , Maria e Madalena.
    Quero contar o que sei, e o que senti.
     
   
    Um dia João, José , Maria e Madalena,
    sairam de casa e se puseram na rua.
    Cansados de plantar e não colher,
    cansados de reclamar e não lutar.
    Pegaram uma trouxa de roupa e um mundo de esperancas,
    e com esse peso nas costas sairam a gritar,
    a coragem que faltava nas outras pessoas, que só sabiam criticar e não sabiam praticar a ação.
    João, José, Maria e Madalena,
    empobrecidos pelo tempo e pela luta na terra,
    miseravelmente corajosos,
    com coragem começaram a gritar que não mais iam aceitar
    não ter aonde plantar, não ter o que plantar.
    Não, João, José, Maria e Madalena,
    queriam outro destino,
    queriam futuro para seus meninos.
    Seus amigos se afastaram,
    e na estrada eles se pegaram.
    Mas com a esperança e a coragem de lutar,
    em cada parada, mais um  a eles ia se juntar,
    em pouco tempo eram mais de uma dezena,
    e quando o inverno chegou já eram mais de duas centenas,
    que se abrigavam do frio, no calor da fraternidade.
     
    Reclamando em altos brados,
    sem medo dos rescaldos,
    de botino, chinelo ou descalços,
    com enxadas, pás, ou martelos, além das foices,
    erguiam também a bandeira da terra prometida, a terra para plantar e colher.
    João, José , Maria e Madalena, eram corajosos,
    nao eram como aqueles que se fecham em suas casas e bares,
    e reclamam baixinho contra a situação. Corajoso, deram suas caras e suas vidas,
    a tapas e julgamentos precipitados, de quem não entendia o seu sonho.
     
    João, José, Maria e Madalena,
    não eram santos, eram humanos, mas tinham direitos,
    e por eles lutavam, não se calavam, e isso a imprensa não entendia,
    assim como a preugmática burguesia informatizada, que dizia saber mais do que eles,
    sobre terra e agricultura, mas na verdade, quem escrevera sobre a vida deles,
    nunca viveu como eles viveram.
     
    João, José, Maria e Madalena,
    eram por todos, mas nem todos eram por eles,
    e a mentira cresceu no grupo. Grupo que agora já era de milhares,
    invandindo, campos , vilas e cidades,
    dando coragem e força, estimulando a todos a soltarem suas vozes.
     
    Um dia João, José Maria e Madalena,
    ficaram sem Madalena,
    e com pés em pedaços de carne,
    e as mãos calejadas,
    cavaram na estrada uma cruz,
    para lembrar de um sonho.
     
    E nas cidades o povo não entendia,
    o que se pretendia,
    quando se invadia fazendas e plantações,
    e os políticos insensíveis, faziam apologias,
    sobre os sonhos e esperanças de quem um dia decidiu viver o que sonhou.
     
    E com os invejosos e gananciosos em seu meio
    João, José, Maria, perderam sua fé.
    Viram que o que pretendiam ser uma vida digna,
    onde o que desejavam era somente um lugar para poder descansar
    quando a noite chegasse, e uma terra para plantar durante o dia, e assim ter o que comer; esse sonho estava sendo negado.
     
    Um ano e João deixou José e Maria.
    João foi para a cidade , vender cachorro quente,
    um dia roubaram seu carrinho,
    e também o cobertor que o cobria quando dormia debaixo da marquise de um banco.
    João queria viver,
    tinha saudade de José e Maria,
    mas não tinha dinheiro para ir embora.
    Certo momento João roubou um pedaço de pão.
    Foi preso e na cadeia encontrou José,
    que ali estava porque já fazia dois meses que assaltava para poder viver.
    João perguntou de Maria,
    ao que José respondeu,
    que ela tinha virado quenga, e que agora vivia
    junto com um malandro, que batia nela quase todo dia,
     
    O sonho da luta acabou .
    João, José, Maria e Madalena,
    quiçá o que vocês pretendessem desse certo,
    por certo não acabaria essa história desse jeito.
    Mas eu faço parte da platéia que assiste seu sofrimento,
    só assisto, bato palmas, reclamo, xingo, mas depois ,
    nem ligo, tenho mais em que pensar.
    Quem sabe  se eu tivesse a coragem de vocês,
    a determinação e a esperança, eu poderia ajudá-los
    a não acabar assim a sua história.
     
    Haa, mas não,
     é melhor eu ficar aqui, sentado,
    com o controle remoto em minha mão, tomando cerveja,
    enquanto vocês vão lá e reclamam por mim,
    enquanto vocês enfrentam os cães, e os cavalos da policia,
    enquanto vocês enfrentam o frio e a fome,,
    se não der certo, tudo bem,
    não sou eu que vou pro xadrez.
     
     
    Quem sabe um dia a gente se cruza,
    Joãos , Josés, Marias e Madalenas da vida,
    e nesse dia pode ser que vocês me tenham junto a vocês,
    mas com certeza meu crime vai ser maior,
    e com essa mesma certeza, eu digo, que com meu estudo,
    eu me livro mais facilmente, e falo também que todos me tratarão
    bem melhor do que trataram vocês.
     
    Meu crime vai ser a ganãncia,
    e o de vocês apenas foi um sonho e a esperança.
Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 22/03/2006
Código do texto: T126830

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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Ivair Antonio Gomes