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As mãos de Eurípedes

As mãos de Eurípedes

Eurípedes amava Eurídice
mas dela só conhecia as mãos
e suas mãos suadas e trêmulas
sonhavam entrelaçar-se às dela.

Da janela de seus olhos
espiava Eurípedes as mãos de Eurídice.
Sabia de sua sutileza pelas vozes alheias.
Vozes masculinas lhe contavam
que as mãos de Eurídice suportavam tristezas,
melancolia.
Eurídice arranhava e aplaudia
em seu amor e agonia.

E era com isso que Eurípedes sonhava,
suas mãos, as mãos de Eurípedes,
escreviam versos que lhe iam n’alma.
Por serem tímidas ocultavam seus sentimentos.
As mãos de Eurípedes fugiam das luzes
e buscavam os bolsos, como bichinhos assustados.

Eurípedes e suas mãos viviam dilemas,
amavam-se por não ter a quem amar,
e quando Eurípedes tocava-se com suas mãos
era as mãos de Eurídice que imaginava.

Antes jovens, as mãos de Eurípedes
começaram a envelhecer.
As rugas do tempo, as mancas do tempo,
o tremor do tempo.

Nunca Eurípedes enfeitou suas mãos, o anular.
Suas mãos fizeram o repouso final sob seu peito,
um jeito estranho de se mostrar.
O diagnóstico seus versos o fizeram
muito antes de seu corpo findar
Morreu Eurípedes de tanto amar
as mãos de Eurídice.

Mauro Gouvêa
Ouro Fino, 23/11/2003
Mauro Gouvêa
Enviado por Mauro Gouvêa em 06/02/2006
Reeditado em 06/02/2006
Código do texto: T108552

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Sobre o autor
Mauro Gouvêa
Alfenas - Minas Gerais - Brasil, 51 anos
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3 áudios (837 audições)
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Mauro Gouvêa