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Século XXl: uma atriz ensaiando as falas de Julieta

E agora?
Quando esqueço esse infeliz, porque achava nosso amor impossível, outra vez esse amor bate à porta!
Juro. Quando desconfiei em mim que perto dele a minha respiração mudava e quando em casa minha família pronunciava seu sobrenome como o sibilar de uma cobra, eu sentia um pesar que doía. Como doença real mesmo.
Chegando a sentir-me em estado convalescente.
Eu não sei explicar.
Era uma coisa viva, por hora brilhante e outras sombria.
Dividida dentro de minha cabeça numa luta invisível: contra meus pais, contra mim mesma, contra esse amor, contra a desesperança.
Se pude me apaixonar por Romeu, eu também poderia esquece-lo e me livrar de todos esses problemas. Depois virria outra pessoa e minha hora de felicidade chegaria.
Esquivei-me até a hora em que achei que isso já era passado.
Mas agora?
Ai está ele.
O que parecia impossível de repente está próximo.
E ninguém pode dizer: amor, ame!  Ódio, odeie.
Eles por si só agem.
Pode ser que por teimosia os vençamos no início, mas basta tempo para que governem novamente nossos pensamentos.
Mesmo nesses anos de tecnologia, o amor e a paixão continuam os mesmos.
Mesmo que sabemos que o homem já foi à lua, musa dos poetas, e que ela é esburacada, suja por latas de coca-cola e que em seu dorso flâmula a bandeira da discórdia, nada mudou.
Mesmo que sabemos que o sol já não pode ser tão facilmente contemplado no horizonte porque prédios foram construídos em sua frente e que ele nos queima a pele supurando vapores cancerígenos. Quando estamos tão longe uns dos outros, como está a poesia do dicionário.
Mesmo assim o amor sobrepuja o tempo e pela a existência afora é a ciência da vida.
As crianças que nascem reaprendem a conjugar o verbo amar. E o futuro aprende o aprendido. Sofre o sofrido. Ama o amado. Porque já em todas as épocas passadas, e nas que virão, há de existir corações transviados, lágrimas, injustiças e amantes.
Nós dois não seremos exceção.
Por isso eu quero acreditar que o amor vem sempre por último.
E eu não vou mais deter o presente pensando no futuro.
As nossas famílias que se comam!
Quero saber que coisa é essa que habita o meu peito,
E sem cerimônia ocupa meus pensamentos.
Que coisa é essa que não se desculpa,
Que não pede licença e que ao mesmo tempo é bem-vinda?
Que coisa mais linda é essa? Doce incoerência.
Que de habitante e senhoria, no vazio se faz presença?
Que força é essa que me enfraquece e sacia?
Me acompanha feito sombra, está sempre à minha frente.
De onde vem essa magia, que dá vida a essa sanha e me transborda a cada manhã?
Que não se apaga à distância, não se ajoelha e não se cansa?
Não desanima e nem mesmo o tempo a silencia?
Que louca e divina é essa estranha folia que o meu peito habita?
Mas sei que no fundo meu coração responde:
É teu inimigo Romeu.
Então, eu digo: Romeu, vem, sou tua.
(chega o ator que representa Romeu)
Lá em casa todos da minha família o abomina:
Chamam-no Demônio. Belzebu. Assassino. Monstro. Désposta.
Lá em casa é a mesma coisa. Escórias. Traidores. Malditos. Vermes.
Eu sei, tem mais: Demente. Aberrações.
E eu, Julieta, digo o mesmo:
Doce escória, Adorável cobra, Maldito bem...
E eu respondo a altura:
Amável assassina, sexi canalha... Eu te amo.
Eu te amo também.
Sérgio Caldeira
Enviado por Sérgio Caldeira em 29/12/2010
Reeditado em 26/04/2011
Código do texto: T2698160

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Sobre o autor
Sérgio Caldeira
Itapecerica da Serra - São Paulo - Brasil
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Sérgio Caldeira