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O Repentista

“Se quiser saber meu nome, não pricisa pirguntá!
O meu nome está escrito numa folha de juá”!
Sabe Deus de onde veio essa cantilena...,
No tenor desse homem humilde, afinação indubitável,
notas imprecisas, sabedoria incólume,
esse cantor de serenos acordes,
o “Sô Delino”, o “Vô Delino”, como queiram...
Sua filosofia é a do conhecimento próprio
e frise-se: nunca leu Sócrates nem foi ao oráculo de Apolo...
Apenas canta de cor pequenas toadas em qualquer melodia...
“Fui chamado pruma festa na casa de dona Lia,
Entrei na casa do sapo, saí na casa da gia”...
Como pode? Rimas perfeitas, contraditórias,
sucesso nas paradas rurais desde 1930,
donde emergiu tudo isso?
Esse turbilhão de idéias inesgotáveis,
um reconto das serras do Triângulo Mineiro,
“Sô Delino”, que ser humano...
À frente do seu tempo, adepto da liberdade, pedagogo nato,
contou histórias as mais variadas e originais.
E as que não sabia, inventava de novo... e ficavam estupendas!
Memorável repentista nos desafios, “pito nos dedos”,
cheirinho de pau-brasil, oito décadas e meia, saúde de dar inveja,
brilhante nos conselhos, paizão...
Patriarca que faz chamar à família o elo da harmonia...
Em sua serenidade, arquivo de muitas memórias:
dos tropeços da vida, dos caminhos escolhidos,
da lida na estrada e na roça, dos riscos de vida,
compulsão pelo desbravar,  coração bandeirante...
Meu velhinho de chapéu, Adelino Lau, filho de Mané Lau,
tetraneto de Venceslau, descendente de Borba Gato,
dono das trovinhas mais apreciadas onde passou,
um senhor destemido, carismático e de presença disputada...
O colinho, as historinhas, as músicas que aprendi, tudo isso é o Sô Delino,
chefe do clã Ferreira, doce e amável homem severo...
Repentista da minha história, trovador da minha infância,
“Se quiser saber meu nome, num pricisa pirguntar, o meu nome é Adelino, pra quem sabe lê estudar”...
Monarca dos nossos sonhos infantis,
Quase oitenta e cinco anos de experiência incontida.
Que posso eu dizer?
Vida longa ao rei!

Nalva
Enviado por Nalva em 26/06/2006
Código do texto: T182789

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Sobre a autora
Nalva
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 49 anos
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