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EU QUERIA SER MENINO

Eu queria ser menino,
eu podia ser moleque,
esquecer de  gente grande,
não ouvir quem quer que mande,
eu deixar que a rosa seque.

Pra ter tanta autonomia,
eu podia ser moleque.

Se eu fosse ainda menino,
eu podia fazer arte,
esquecer de gente grande,
não ouvir quem quer que mande,
eu não ir a qualquer parte.

Prá fugir da tirania,
só mesmo fazendo arte.

No meu tempo de  menino
eu vivia de verdade,
não parava um só minuto,
não trocava o meu reduto
pela vida da cidade.

Eu jamais desistiria,
de viver em liberdade.

Eu podia ser menino,
escutar contos de fada,
esquecer de gente grande,
não ouvir quem quer que mande,
eu largar a minha espada.

Se eu pudesse ser menino,
eu pegava a minha estrada,
e prá não perder o tino,
eu levava a namorada.

Eu queria ser menino,
lá das fugas do serrado,
esquecer de gente grande,
não ouvir quem quer que mande,
eu calçar o meu sapato.

Eu jamais suportaria
ser alguém de fino trato.

Eu queria ser moleque,
que nem bicho do mato.

No meu tempo de menino,
eu vivia sem maldade,
não ficava envergonhado,
se quisesse andar pelado,
pelas ruas da cidade,
ou fazer xixi no muro,
se ficasse com vontade.

No meu tempo e menino,
eu brincava de soldado,
foi correndo pelas serras,
inventando as minhas guerras,
tal qual tinha sonhado.

Insistindo em ser criança,
não vivendo aprisionado,
que eu andei por essas terras,
sem saber que no futuro,
pelos campos de batalha,
amor tão farto, tão puro,
eu veria dizimado,
feito fogo ardendo à palha,
a contrastar com meu passado.

Eu podia ser moleque,
ser ainda pequeno,
prá jamais chegar ao fundo,
dos abismos deste mundo,
onde há tanto  veneno.

Eu queria ser menino,
evitar o desatino,
deste quadro obsceno,
ser quem sabe o paladino,
de um lugar bem mais ameno.

O meu tempo de menino,
ainda hoje me balança,
não me trouxe dor ou mágoa,
e se eu encho os olhos d’água,
é por ter tanta lembrança.

O quintal, a casa velha,
o riacho, a vida mansa,
tudo ganha mais sentido,
quanto mais a vida avança.

Eu queria ser menino,
só falar com o coração,
esquecer de gente grande,
não ouvir quem quer que mande,
eu não romper o meu grilhão.

Prá poder soltar ao vento,
as delícias do meu canto,
e tirar sustento,
desta forma de acalanto.

Eu queria ser menino,
por ao menos um pouco,
que é prá ver se não me perco,
nos caminhos de esterco,
deste mundo insano e louco.

Se eu pudesse ser menino,
moleque bem xereta ,
eu forjava o meu destino,
e mudava de planeta.

Sem porém causar tumulto,
eu queria ser moleque,
nem se fosse de proveta,
prá esquecer que eu sou adulto.


Fernando Carvalho (meu irmão)

Luiz Almeida
Enviado por Luiz Almeida em 02/06/2006
Reeditado em 23/06/2006
Código do texto: T168124
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Sobre o autor
Luiz Almeida
São Paulo - São Paulo - Brasil, 56 anos
27 textos (1049 leituras)
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Luiz Almeida