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SOLANGE

                       SOLANGE



                                              Aos meus tios
                                          Durval Ravanini e
                         Wilma de Almeida Marques Ravanini.




Longe, longe...
Hoje só, tão-somente longe,
Solange!
Solene,
nanando... sobre a máquina de costura da titia,
que insistia em beijar o bebê,
tecendo, com lágrimas,
linhas errantes sobre a pele branquinha do rosto de
Solange.
Cenário de difícil compreensão...
Dentro de um berçinho branco,
sobre a máquina de costura da titia,
o beiçinho de Solange a titia havia tecido e alinhavado, centímetro a centímetro,
com linhas roxinhas e outras de branco alvíssimo;
titia parecia buscar uma nova cor para o seu
bebê-menina, minha priminha...
Ao centro da humilde sala,
a menina ocupava majestoso espaço central.
Entre a imagem da menininha e a porta da cozinha,
ao fundo, avisto uma ampla paisagem,
bairro de arrabalde,
à frente do quintal da titia
um imenso aluvião,
aterro natural.
Ao fundo, no horizonte, um solão!
Imagino... “_ É a cova de um gigantesco dragão!”
Lá embaixo estão meus priminhos a brincar,
destemidos...
E a minha mesquinha porque medrosa meninez
impedia acompanhar outras meninezes.

Estou longe, sou longe, revisito lembranças que minha memória mal alcança...

Súbito vejo uma pequena tampa, branquinha,
do tamanho do berçinho branco,
amparada num dos cantos da pequenina sala.
Quatro velas, comuns, a todo instante
titia as acendia para iluminar
o ato solene, silente, de misteriosa compreensão.
Me aproximo da pequena, da máquina de costura da titia...
“_ Ouça-me” - diz minha mãe:
“_ Não, criança, não se aproxime tanto, desse modo você atrapalha a titia!”
Eu me afasto...
Perambulo pela humilde casa.
Pergunto-me: “_ Por que a titia não coloca minha priminha no berço que lhe pertence, aqui, neste quarto? Qual foi, afinal, a razão desta troca?”
O novo berço, todo branquinho, parece tão pequeno,
nele mal cabe o corpinho da pequena Solange.
E o tempo se consome-consumido entremeado pelos soluços da titia, pelas conversas em tom quase sem som da mamãe e de todos ali presentes. Meu pai, titios, titias, priminhos, priminhas, vovó, vovô, vizinhos...
Então, num gesto decisivo, titio empunha a tampa branquinha,
cobre o novinho berço da pequena, abraça-o, e
avança alguns passos rumo à porta de entrada da morada.
O grupo de pessoas o acompanha.
Ele segue à frente, sempre enlaçado ao berçinho, todo branquinho...
Passagens, imagens da cidade,
entre campinas, atravessamos o bairro do Bonfim...
E o grupo prossegue a marcha - sol ao longe -, e
entra em procissão pela Avenida da Saudade.
Ponto de chegada. Silêncio.
Na entrada, toques de um sino.
Em peregrinação, o grupo acompanha os passos do titio;
em seus braços permanece o berçinho...
Novo cenário: imagens, anjos, arcanjos, santos, cruzes, uma cruz,
ponto final.
Junto à pequena cruz, uma pequeníssima cova.
Imagino... “_ Será a cova d’outro dragão, um dragãozinho?!”
Titio deposita o berço do anjinho lá no fundo, infinito profundo...
Súbito, uma avalanche de terra tudo cobre.
Já não se ouve nenhuma queixa.
O grupo datal deixa o local,
debalde...
Cemitério da Saudade.
Hoje, morada do meu papai, da minha mamãe, titios e titias, priminhos e priminhas, vovô e vovó, e tantas outras saudades...



PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é primavera de 2006.


SÍLVIO MEDEIROS
Enviado por SÍLVIO MEDEIROS em 18/11/2006
Reeditado em 18/11/2006
Código do texto: T294405

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Sobre o autor
SÍLVIO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 61 anos
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SÍLVIO MEDEIROS