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Diário de Uma Morte Anunciada

O curso de água arfante
Vai em seu destino navegante
Tateando o rumo do mar
Num pálido espelho que se esgueira
Entre areias, pedras e barrancos.

Agora, vou em vôo
Por sobre este rio que tanto amo
Pronunciável e perene rio de minha infância
Rio do poeta maior
Que tão bem o chamou
De: “velho monge”.

A aeronave, como em sabendo minha aflição
Segue em pesaroso vôo
O risco tatuado em terra
Do que foi tremendo aluvião
E em tudo, em tudo, o velho rio
Não é agora se quer a sombra do que era.

Em meio a cinza mortalha das queimadas
E terraços sem nenhum arbusto
O rio é como um cego que vaga à deriva
No exíguo limite de seu curso

Como meu Parnaíba, quantos rios terão que perecer
Para que o homem insano e cego
Possa, em cessando o leite dos seus cursos
Alimentar a sanha do próprio ego?

O que vejo agora nesse dolorido momento
É a crueza de um extermínio anunciado
Materializada na imagem de um rio engasgado
Na dor de um irmão apunhalado pelos seus
                                Que em matando a natureza
Vão matando também, um pouco de Deus.
Raimundo Nonato
Enviado por Raimundo Nonato em 07/10/2007
Código do texto: T684009

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Sobre o autor
Raimundo Nonato
Teresina - Piauí - Brasil
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