ODE DAS LEMBRANÇAS.

Lembro-me das horas primeiras,

A aurora resplandecente da juventude,

Pássaros cantando na copa das árvores,

O cheiro gostoso do café na chaleira,

O fogão a lenha em brasas vermelhas,

A fumaça bailarina na xícara de vidro,

No forno, o aroma do bolo assando,

Os raios do sol ganhando força,

Como doi na alma certas lembranças,

O áureo tempo de infância,

Quando eu me vestia de inocência,

O tempo passou como uma sombra,

Deixou saudades, folhas secas ao chão,

Outono no coração em mil pedaços.

Lembro-me dos teus lábios,

A inocência do nosso primeiro beijo,

O coração quase se despedaçando,

O beijo desconcertante e sem jeito,

Ela, bela flor em jardim proibido,

O meu coração não se importou,

Queria apenas a ardência do amor,

O beijo escondido, fogo consumidor,

O tempo é mesmo algoz, carrasco,

Levou minha flor para longe de mim,

Tornei-me saudade, solidão e dor,

Se possível fosse, eu voltaria no tempo,

Só para tê-la em meus braços outra vez,

E sentir o sabor do derradeiro beijo.

Lembro-me da época da escola,

Colegial, adolescência florescendo,

Amores nascendo no peito,

Desejos atropelando os sentimentos,

As belas moças daquele tempo,

Eu, introvertido poeta que era,

Me escondendo por detrás das palavras,

O meu coração era palco de amores,

Havia musas especiais entre as ninfas,

Das quais dediquei belos poemas,

Versos de uma paixão juvenil,

Foram momentos inesquecíveis,

No entanto, aquela que me aprisionava,

Surgiria por aqueles tempos de novidade.

Lembro-me de sua juventude,

Da época inesquecível do colegial,

Devotado ao meu próprio eu,

Distante, introvertido, silencioso sempre,

O coração desconcertado o tempo todo,

A mente em um ermo devaneio,

Tendo mil amores florescendo no peito,

E não vivenciando nenhum deles,

O meu barco navegando sem destino,

Navegando em vagas imaginações,

Nas ilusões perdidas de jovem poeta,

No entanto, havia uma flor entre todas,

Que de meu peito jamais arrancaria,

Era a flor descomunal do amor proibido.

Flor do amor

que no peito cresceu,

Ele não percebeu

o seu venenoso esplendor,

A cada instante as lembranças surgem.

Despejadas dentro do coração,

Formando tempestuosa nuvem,

Esconder-se não tem jeito,

Flor do meu juvenil desespero,

Flor do meu completo desconcerto,

De meus dias e noites traiçoeiras,

Lembranças constante de uma dor,

Que flagela e atormenta o ser,

O seio quase sempre não se aguenta.

Lembro-me do amanhecer,

O resplendor do astro rei,

Nuvens afogueadas no céu,

Cores delirantes no horizonte,

Pássaros cantando nas árvores,

O riacho correndo caudaloso,

As flores estendendo-se ao longe,

O cheiro suave de terra molhada,

Um senhor caminha a passos curtos,

Chapéu de palha, ferramenta nas costas,

O embornal pendurado do lado,

As recomendações tiram o peso do momento,

Momento que leva-o a terríveis devaneios,

Fazendo-o ter pesadelos de olhos abertos.

Lembro-me da flor majestosa,

De pétalas perfumadas,

De cores cintilantes,

Tal qual eu nunca se viu,

Crescendo em jardim proibido,

Entre tantas, a mais bela,

Flor de minha primavera,

De um tempo que se perdeu,

Talvez eu a torne a vê-la,

Desejo apenas um momento,

Um único vislumbre que seja,

Sentir o seu doce perfume,

Ainda que seja a última vez,

Desejo a flor da minha primavera.

Lembro-me de nossas conversas,

De quando atenta, me escutava,

Da curva de seu sorriso,

Do brilho intenso de seus olhos,

Também ouvistes as minhas confissões,

Todos os meus terríveis segredos,

Ainda os guarda na memória,

No âmago mais profundo do coração,

O tempo é carrasco e cruel,

Separando-nos bruscamente,

Interrompendo nossos sonhos,

Talvez um dia eu contemple teu sorriso,

Quem sabe exista um lugar só nosso,

Onde o carrasco tempo não seja ameaça.

Lembro-me de um tempo sem preocupações,

De uma inocência cristalina,

De um olhar iluminado, puro,

Tempo fora do tempo, que não retorna,

O pé de pitanga no quintal,

O balanço de cordas e tábua,

Os pássaros nas árvores frutíferas,

O velho fogão a lenha fumegando,

Recordar é reviver, dor e amor,

Estou em busca do tempo perdido,

Em busca do que não se encontra,

O dia vai clareando lentamente,

No peito crescente angústia matutina,

Seremos sempre o que nunca desejamos.

Quem é você?

Qual o seu nome?

O que faz aqui?

Tudo em você é ilusão,

O que são essas lembranças?

Qual a causa de tantos devaneios?

Qual o motivo dessas lágrimas?

Não vê que tudo é vão e passageiro,

É verdade que ficaste louco?

Que ainda pensa nela todos os dias?

Pobre poeta de ilusões perdidas,

O que são essas personalidades?

O que elas fazem aí dentro?

Mesmo assim, solitário poeta te tornaste.

Tiago Macedo Pena
Enviado por Tiago Macedo Pena em 23/03/2024
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