Pacífico

Cavalguei o Pacífico,

enfrentei o tirano

terrífico

e amei as virgens

montanhas

ao deflorar suas

entranhas;

mas nada vi ali

que não houvesse aqui.

Exceto, talvez, a cor

de que se abusa

ao se amar

uma nova Musa.

Com Bete caminhei

a Revolução

que pouca houve

(e da qual já nem

se ouve).

Ousamos sonhar

entre sonos aferrados

das burguesas panças

saciadas de

churrasco e cerveja

(e de igual, seja).

Com outras,

ousei pensar

entre cérebros atrofiados

e nunca desconfiados

de serem títeres manipulados

por capachos violentos

de deuses sangrentos.

Se filosofia existiu,

entre dois nas camas,

foram só breves chamas.

Porém de uma dessas alcovas,

eis que sugiu alguém que eu

gostaria de ter sido.

Eis, vivo de repente,

o gênio afetuoso

que chamo de filho.

Gajo de garbo,

desfila pela vida

a elegância de seu

pensar sutil,

e por ora ostenta

o fecho de ouro

que lhe guarda

como tesouro.

Assim, as vidas passadas

em camas desarrumadas,

levaram-me meio-século

da vida que herdei,

de quem não sei.

Agora, vejo que o Pacífico

que um dia montei,

foi apenas um cavalinho

de carrossel

circulando num só eixo.

Que as montanhas

que deflorei, eram apenas

a irmãs-putas que me

saciaram algum desejo

e, certo dia, roubaram-me

um beijo.

Que Bete e a Revolução

forma quimeras

desterradas de outras

Primaveras.

E que eu uso a caneta,

como um bêbado a sarjeta.

Nelas dormimos,

tentando não acordar.

Para Bete, saudades.