PESSOAS
         Compadre Lemos

Às Memórias de Fernando Pessoa

Não sei você, não sei vocês
- que são ocultos, tantos áis -
Sei de Deus... e de Pessoa,
que são três, ou até mais!...

E sei de mim, que sou dois
- e se reflito -
sei que somos
conflito!...

E é bonito, o Eu de fora,
que em bom se arvora:

Trabalha no Banco,
ensina Esperanto
e se veste bem, quando quer.
É pai de família
- são lindas, suas filhas -
e adora a mulher.

Se diz espírita, é místico,
discursa em tribuna
e escreve poesia, a seu modo.
Já leu muitas coisas,
viveu outras tantas
e ouve música, o tempo todo.

O Eu de dentro, no entanto,
é de causar espanto:

É feio, pequeno,
egoísta, ciumento...
E não sabe voar!
É torto, e nos leva
por tortos caminhos,
aos tais labirintos
de não se voltar!

É frio, insensível,
não sente saudades
e não sabe sofrer.
Se sofre, não aprende.
Se aprende, se cala,
pra sobreviver.

Uma vez, o diálogo
entre os dois - e tão curto! -
Mais ou menos assim:
- Posso entrar?
- Não, que aqui dentro
o vazio é tão grande,
que só cabe a Mim!

Nunca mais se falaram.
E o silêncio, terrível!
Por acaso, se um dia
se reencontrassem,
será que haveria
equilíbrio possível???

Sei de mim, minha história,
minha triste elegia.
Pessoa, me empresta
um verso que seja
de tua poesia:
"Se Deus, em verdade,
não tem Unidade..."
Por que Eu a teria?



                              
Compadre Lemos
Enviado por Compadre Lemos em 03/07/2008
Reeditado em 02/08/2010
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