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Marias

"Ana Cristina

Ana Cristina cadê seus seios?
Tomei-os e lancei-os
Ana Cristina cadê seu senso?
Meu senso ficou suspenso
Ana Cristina cadê seu estro?
Meu estro eu não empresto
Ana Cristina cadê sua alma?
Nos brancos da minha palma
Ana Cristina cadê você?

Estou aqui, você não vê?"

Cacaso – in: Lero-lero


Maria! Quando o negócio é homenagear, enaltecer, lembrar ou prestar quaisquer honrarias, toda mulher sempre se chama Maria. Maria da Dores, dos sonhos, dos pobres, dos homens pretos, das  Candeias, da Silva.
Mulheres do povo, do pequeno, do faminto, dos mutilados pela guerra do dia a dia, e todas elas chamando Maria.
Mulheres de luta, de ventre virado pra vida, mulheres da vida, das ruas, dos morros, das encostas, mulheres amarguradas, mães cansadas e feridas. Marias de tantas medidas, acostumadas com o fim dos filhos, de morte matada ou morrida.
Maria o seu nome principia no primeiro sopro de vida. E marca profundamente o coração do homem. Quando mãe, forte na luta por mais um dia, por sorrisos, pra grudar nas caras magras dos filhos. Por comida, segurança e alegria, por essas e tantas que toda mãe se chama Maria. Maternais e profundas, ríspidas na certeza da boa criação, filhos são pro mundo... abraçam o mundo, em completa resignação.
Mulheres de carne, de amor e carícias. Mulheres benditas que se dão por inteiro. Que esperam caladas em total silêncio e calmaria, esperam seus homens incompletos, rotos, maltrapilhos. Esperam com o amor entre as pernas, resignadamente abandonadas na vida. Mais martírios de Maria. Maria sem vergonha das mazelas sofridas.
Mulheres guerreiras, simplesmente Marias D’Arc, Marias benzedeiras. Desafiam o diabo e vencem. Desafiam a polícia na praça, estão de greve. Constroem a democracia incipiente dos primeiros dias de oitenta.
Desfilam bandeiras, discursam felizes, como parideiras de outrora, parindo a igualdade de gênero. Foram tantas, queimando sutiã, levantando a voz, quando esta nem existia, exigindo voto, exigindo cidadania, elegendo e sendo eleitas, pra lida dos nossos dias, são mais que maternidade, são companheiras, são irmãs.
Mulheres estandartes, que envergaram e envergam tantas bandeiras, mães lutadoras, inspiradoras de Máximo Gorki ou da Simone de Bevoir. Meninas de caras pintadas e peitos nus, meninas tantas, meninas tão bem, meninas tão bem-te-vi. Mulheres de fibra, viva dona Magali, mãe de Nalu Faria guerreira das causas boas e belas, Benedita a Bené negra e sonhadora que foi senadora e senhora do Rio, dona Lucília viva, vivaz e lúcida.
Viva a Lélia e tantas militantes que combinaram sua luta com a cor do baton. Mulheres de ferro, mulheres maravilhas, maravidas, maravilhosas.
Dona Fiúca Mendes, pescadora de lírios e ilusões, pregadora da paz e da harmonia. À memória de Dona Beatriz Guido, sempre bem fez para os que mais precisavam. Viva às irmãs dominicanas, Virginita e Loretto. As beneditinas com sua harmoniosa e bendita receptividade, Gema, Cecília, Pia e Emanuela. Viva as bondosas senhoras que sempre distribuem sorrisos e rosas.
Tantas mulheres, tantas histórias, tantas rimas e primas. Sonhos de meninos e meninas. Salve as senhoras que tanto amaram e fizeram, salve dona Tuta, dona Aparecida do milagre que é pênfigo, dona Dilma de Oliveira Reis, que soube criar família com o pouco que Deus deu.
Viva as meninas as Tarianas e Rannas, as Marias Eduardas, Cecílias, Beatrizes e Claras. Crianças, jóias tão raras, inspiradoras de cuidados e carinhos. Mimosas, formosas, gatinhas.
Tantas mulheres, tantos motivos, eu as festejo com a certeza de Vinícius, com a catimba de Jorge Amado, com a doçura de Milton Nascimento e sua Maria, com o fervor de Frei Beto, quando homenageou dona Lindu.
Viva as mulheres que inventam o Brasil!
Túlio Reis
Enviado por Túlio Reis em 20/01/2006
Reeditado em 31/01/2006
Código do texto: T101368

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Sobre o autor
Túlio Reis
Uberaba - Minas Gerais - Brasil, 50 anos
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Túlio Reis