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Demolições



As velhas-formas. As formas velhas. Renegá-las, servir-se do avesso e do que antes era novo ou vivo. Pai, os soldados já estão ocos e abandonados pela morte. Os inocentes de quaisquer lugares onde há a guerra denunciam pelos olhos, pela carne, pelo aspecto pacificador dos nossos governantes. Olhos: olhares. Olhares: nenhuma visão. Um homem é algo que tem olhos. Um soldado é algo que tem olhos. Um cão tem olhos. Um mercenário tem olhos. Uma vaca tem olhos e assim por diante. Mas, avesso a tudo, uma cidade não vê e muito menos fala, a não ser que você fique ali na rua vagabundeando por longos períodos de homem ou de pássaro, olhando-a, cantando-a, entendendo-a, fazendo-a falar qualquer linguagem que seja compreensível para o coração dos humanos. Ela não fala - eu disse - antes grita e rasteja as horas com suas ruas cheias de carros, vendedores, bobos de rua e assim por diante. Um fuzil, por exemplo, não chora - ele é apenas o escravo daquele que o carrega, aliás como quase-todo objeto inanimado que a espécie humana consegue carregar. Os olhos dos violentos são vidro e jamais serão lágrimas. Eu vejo. E ouço. Eu sei. No fundo o grande problema é que todos só querem ser felizes e flertar escondido de vez em quando debaixo das escadas, e ter tudo nas mãos, o carro do ano, a roupa da moda, e inclusive você. Perdedores. Felizes de merda emporcalhando o meu dia. A guerra é um pássaro, em ascensão. O homem é um pássaro, que anda. A morte é uma pedra de cabelos e vento que passeia de mãos dadas com a paz. O homem cheira. O homem que cheira. E mente e pensa e trai e mata e sorri e. O homem às vezes tem olhos que vêem e bocas que não falam. Às vezes, eu disse. E assim como os olhos as mãos também fazem muito, inclusive nadas - os edifícios de areia, artesanatos, jardins, a música, a miséria da F-O-M-E (que tão bem conheces os soldados que tão bem conhecem a fome)
" - Ah, um soldado, que é um?" - soldado como meu primo de merda, que trabalhava de guarda-noturno na casa de um sargento e apontou por acaso a pistola para o seu amigo do mesmo Batalhão e disparou um tiro na barriga dele sem ao menos compreender por que fizera aquilo tão pequeno, e já que ninguém compreendeu mesmo o tal ato ele ficou seis meses na cela do exército decifrando os desenhos primitivos feitos por outros presos até que se cansasse e entendesse que a vida era assim mesmo, que o assim, era assim e pronto e não havia mais jeito, e que o sangue que tingiu de leve a calçada com um tom róseo-azulado-escurecido (onde o soldado caiu) não teve tempo nem de secar, porque o Sr. General mandou lavá-lo para que ninguém soubesse do acontecido, para que nenhum civil passasse por ali e dissesse em tom monótono “-Foi aqui ó.” Mas de qualquer forma muitas coisas sempre estarão lançadas ao acaso como nós mesmos, e depois só foi mais um patriota metido a herói-justiceiro que morreu, (milhares de pessoas, boas morrem nas guerras), ele não fez nenhuma diferença, pois seu dever era de matar seu semelhante.
Não alimente pássaros, deixe que eles permaneçam na gaiola até que se sequem suas goelas de canto e infrinjam o código das das putas e das águas! Não minta, não fale com gente. Não olhe para as crianças. Isso é desolador, isso é inumano. Isso é.
"-- Afinal de contas, você é um soldado da nação Brasileira, ou um monte de merda? Nenhum. Apenas um homem pobre, e às vezes ninguém."
Essa expressão "ninguém" me lembra muitas coisas, pois tudo no fundo quer apenas negar-nos e não ser nada e a superfície das coisas é vazia; assim como um sol nasce, assim ele sempre morre. Assim ó! Todo valor é pouco, mediano ou muito. A fome é o saciar-se de nada ou de "talvezes". E o iludir-se é estar vivo, sempre, como as bromélias o mamoeiro e os lírios do quintal de minha avó que vive no subúrbio graças a aposentadoria do Governo federal.
Mas, desnecessário seria pensar, ilusionar a nossa visão de mundo nestas horas em que me vêm nos olhos as imagens dos guerreiros de diversos países ocupados, como no Haiti, na Ucrânia, no Iraque, onde há somente uma civilização (a humana) que eu conheço bem - aquela que carrega a morte no ventre e a gera fora do caroço. Morte. Que nossos antepassados equacionaram com bastante sabedoria representando-a sempre apoiada nos ombros como um velho abutre rancoroso, ou como uma luz de alerta piscando enquanto eu, humano de 1,76mt de altura, sorri, frente ao espelho, e indaga o "por que" de muitas coisas, e ali estás, o morto, ali estás, o vivo. Mas na verdade eu não estou muito aí para isto. Eu olho esse abutre todas as manhãs quando acordo e levo meu cão para passear pela praça. Nós dois pastamos sobre o verde, sempre. O abutre me sorri enquanto me penteio no espelho e e eu retribuo a ele um "oi" bastante amigável sem ninguém perceber e ele me deseja boa sorte ao atravessar a rua. Sozinho. Quem não sabe que estamos todos de certa forma sozinhos, porém o foda mesmo é ter que esperar o próximo abate do criador. Eu não tenho o medo que a maioria das pessoas tem, acho que o principal é ter que não pensar. A morte é melhor quando vem simplesmente do nada e te derruba com um peteleco - marionetes. Queria pensar na possibilidade de haver uma eternidade vagando por aí. Mas isso também é uma merda, pois não morrer é trair a nossa própria essência, é negar a velha de bengalas na rua correndo e gritando entre o fogo cruzado “Ai meu deus e agora... e agor.”
Viver definitivamente não é seguir a sua cegueira em frente e muito menos ir comprar o pão na padaria. É possível que se todos os homens mais sábios do mundo se reunissem em um mesa para debater sobre o conhecimento ou a lógica da sabedoria humana e tentar definir a vida eles provavelmente arrancariam os cabelos e tentariam enlouquecer, e depois enfiariam os dedos nos olhos e diriam sabiamente “Isso é viver!” - e todos se levantariam de suas poltronas, apagariam seus charutos, e assim com uma nova luz, bateriam palmas e voltariam para suas casas para foder com suas esposas-sábias. Mas, há muito tempo os sábios não me falam mais nada, como os móveis de madeira barata que minha mãe aos poucos comprou para se consumir junto com nós. E é bem provável que se eu dissesse a ela " - Mãe, pára aí, você está sendo só mais uma marionete da criação, tudo será pó, nossas mãos sempre estarão vazias”, - ela me internaria em uma clínica psiquiátrica ou diria sabiamente, “Sim querido, eu te entendo, eu te entendo...” - e voltaria os olhos para o além. Os sábios agora são outros, a multidão tem outros ídolos, os dias se renderam, não há mais heróis, o jogo está acabado. Eu-perdido. A multidão é um sonho que se arrasta levando tudo à sua frente e se você soubesse o quanto é doloroso falar sobre eles provavelmente morreria tentando escapar de tudo e de todos ou morreria apenas sem entendê-los. Entendê-los não é nada de mais O pior é você ter que derrubar tudo à sua frente, para que o ar se torne um pouco mais respirável no dia de amanhã e para que novos caras esquisitos façam algo novo e depois deles surjam mais outros lunáticos e destruam tudo novamente. Isto é evolução, isso é humano, narcisista. Século XXI? Onde está ele? Em parte de lugar algum, no buraco do asfalto, no ralinho do banheiro, na rua, no bueiro, na lata de margarina, no pivete que vistes roubar a bolsa da senhora aquele dia no Centro de Goiânia, no fundo da bolsa da senhora, no assalto a mão armada, na vila-qualquer, no subúrbio qualquer, na ponta da baioneta, na lua, na etc, no ponto, na vírgula, na sujeira do rodapé do azulejo. “Ah, bom, e eu que pensava que estava noutro lugar.”
Antigamente os sábios falavam com bastante convicção e com ar de superioridade. Ainda bem que não sou um. Você já viu coisa mais deprimente que um sábio falando, sorrindo, parecendo ser? Imaginá-lo para mim é vê-lo com a face cheia poeira e rugas e expressões vazias. Não é de se estranhar que muitos deles enlouqueceram antes da hora e viveram suas vidas aporrinhando todos aos seus redores e ensinando o que eles achavam correto. Grande coisa? Não acho que perder a simplicidade e julgar ter um pensamento superior aos outros seja grande coisa também, para mim a verdadeira "forma" de pensameto é aquele que alguém jamais pensou. Vivemos mais ou menos, e conseguimos grandes coisas de fato: subir ao espaço, comida enlatada, livros digitais, roupas que não precisam de passar, morrer pela pátria modernamente, ter estilo, não ter estilo, ser da moda, ser altenativo, ser bobo corformado, mas isso tudo é uma merda também.

Leo Linares
Leo Linares
Enviado por Leo Linares em 08/02/2006
Código do texto: T109524
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Sobre o autor
Leo Linares
Goiânia - Goiás - Brasil, 30 anos
25 textos (1158 leituras)
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