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Pegadas à beira do mar


Os grãozinhos de areia enroscavam-se entre os dedos de meus pés e naquele momento sentia paz. O mar engolia o escuro da noite e um vento morno bailarino, de mãos dadas à minha alma, rodopiavam no espaço, leves feito folhas secas de outono. O passado deixara de existir e o futuro era... o próximo passo. Um andar sem rumo mas com destino certo. As palmas das mãos se aqueciam enquanto os olhares vagavam por cada local inexato daquela paisagem. Água e terra se tocavam e se beijavam. Dedos se entrelaçavam tentando imitar a harmonia do universo que nos envolvia. Um olhar mergulhava em outro em busca de águas transparentes que revelassem algum mistério. As palavras eram mudas. Só o mar, cujo ronco das ondas reverberava dentro de mim, e a lua a vigiar. Entendi que estrelas não eram para contar, mas para servir de companhia a pés descalços que se propunham a marcar areia branca e fofa. Quisera eu ter instrumento pra registrar o momento do silêncio absoluto do mundo, da existência em pegadas, de destinos que se entreolhavam. Respirar não era apenas absorver oxigênio, mas degustar a energia proveniente dos corpos celestes e terrestres que por ali estavam. Não havia planejado aquele encontro. As estrelas em comunhão com alguns planetas o haviam arquitetado, e eu apenas aceitado. Quis congelar cada circunstância e sentimento, mas o ar quente oriundo do mar não o permitiu, e eu apenas inconformado. Minha casa estava longe e eu imaginava uma vida sem casas, almas nômades dançando ao ritmo e ronco das ondas. Minha gravata ficara no quarto e eu imaginava uma vida sem papéis, crianças recortando ou pintando com pincéis. O eixo do planeta era no encontro das palmas das mãos e lá se preservava o equilíbrio perfeito. A gravidade puxava pra cima, para que os pés não se atolassem em suas próprias lamas. O sentido da vida era o de perpetuar a coexistência de dois sentidos que se fundiam. A direção era pra dentro, sempre pra dentro de cada um. Nesse dia entendi que a vida podia ser luz, água, frio, calor, ou pegadas intermináveis à beira do mar.

Josué Mendonça
Enviado por Josué Mendonça em 15/03/2006
Código do texto: T123580
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Sobre o autor
Josué Mendonça
Salvador - Bahia - Brasil, 36 anos
52 textos (2263 leituras)
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