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É preciso saber dizer

É seres sangue e alma e vida em mim, e dizê-lo cantando a toda gente!
Florbela Spanca



Não há pessoa por cujo sofrimento eu tenha me compadecido mais do que Florbela D´Álma Conceição Lobo Espanca. Há, talvez, um ou outro amigo amado... Mas não falo dos meus amigos, porque o leitor não os conhece. Falo de Florbela, porque pode conhecer, e talvez até o fim da crônica eu consiga dizer o que pretendo comunicar sobre ela.  Antes de tudo, fica claro que essa poetiza lusitana sentiu a dor que eu mais quis estancar nesse mundo.

Até me envergonho de falar isso. Se Florbela foi uma menina que padeceu por questões sentimentais, há milhões de seres humanos morrendo por falta de comida, e eu devia me compadecer mais deles. Lembro sempre das minhas visitas preguiçosas aos livros de geografia, quando folheava procurando alguma coisa interessante e, de repente, meus olhos se prendiam, chocados, a uma ou outra foto assombrosa.

Lembro de uma em especial. São meninos jovens, bonitos e bem vestidos aos montes, todos enfileirados e sérios, formando um esquadrão da juventude nazista. Um deles se parece extraordinariamente com meu irmão. Minha mente voa lembrar meus amigos judeus que amo tanto. Imagino M. fardado na foto, metralhando alguém para que a raça ariana possa exercer sua glória num espaço vital digno, justificada por teorias positivistas. Passam mais algumas páginas, e vêem-se outros meninos. Pretos, fracos e desnutridos. (Ainda não entendo porque teimamos em ver a negritude como uma palavra negativa, e por que até eu, que me considero livre de preconceitos de cor, coloco “preto” junto de “desnutrido” e “fraco”. Mas ta valendo, porque uma coisa leva à outra, aqueles meninos de Hitler são também responsáveis pela situação desses meninos de Mandela. As barrigas continuam cheias de vermes, e o neonazismo ainda enche (ou seca?) algumas mentes.)

Tudo isso é chocante, chega a ser macabro e nos faz refletir sobre a loucura humana, a ganância desenfreada, o sangue, o sistema, etc, etc. Mas não é sempre que a visão de um livro de geografia me causa dor. Muitas vezes, ela só causa stress por conta do vestibular e pronto.

Com Florbela, é diferente. O homem inventou a literatura porque precisa da palavra. Somos tão tendenciosos a cair do cotidiano, que precisamos sempre que alguém nos aponte o absurdo, que nos expresse o que sentimos, que nos cante o que há conosco. Precisamos que um artista nos fale ao ouvido.

E o poder da palavra é imenso. Uma voz poderosa e suplicante se levanta no meio das ruínas de uma guerra mundial sozinha, de uma mulher perdida, e se destaca no meio de todo um coro de gritos de soldados, mulheres e crianças. Sabemos que muita gente morreu na guerra e ninguém liga muito para isso, porque nosso entendimento pelo que esse povo sentiu não passa da imaginação.

Com a artista, e continuando em F., não. Um mínimo de sensibilidade percebe o entusiasmo verdadeiro e a poesia escrita com sangue da alma, o escrever para não sufocar, o desespero amarrado à força nas rimas comportadas. Dos soldados, temos um bom conhecimento do que passaram. Do poeta, temos um ótimo conhecimento do que sentiu, e isso fala direto ao coração.
Dizem que somos todos iguais porque somos humanos. Até certo ponto é verdade, já que, na essência, todos sentem as mesmas coisas ao longo da vida, e é tudo tão generalizado que tem até nome: luxúria, ternura, despeito, orgulho, amor.

Mas alguns sabem dizer isso.

Quanto mais se aprende a dizer, mais se aprende a sentir. Uma coisa caminha junto com a outra, não como duas amigas, mas como duas pernas de um mesmo corpo, que se impulsionam e se completam.

Não vejo como seja possível escrever se não há amor. Se você não ama, a sua compreensão geral das coisas é limitada. E, se você não diz, é apenas mais uma cabeça numa massa gigantesca de seres humanos(?).

Então, diga sempre, por que é preciso saber dizer. Diga com as palavras, diga com os sons, com as cores, ou com atitudes. Diga com a boca, com as mãos, com a militância, com sua fúria de guerra e seu amor de paz.

Mas diga alguma coisa que seja sua, para que você possa ser você mesmo.



 
Jéssica Callou
Enviado por Jéssica Callou em 18/03/2006
Código do texto: T125135
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Sobre a autora
Jéssica Callou
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 28 anos
44 textos (139774 leituras)
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Jéssica Callou