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Sertanejo, vida de cão


A seca me pariu nesse sertão solidão. A lua à noite fica quieta, distante... parada... não conversa comigo. Não tem boca, não tem rosto, congelada.

Vida de pobre. Meus pés, tanto chão. Barriga de verme, vivo sem condições. O sol meu carrasco. O grilo canta, o sapo canta(?). Sou só alma que vaga esquecida do mundo. Aqui tem seca, aqui tem pedra. Minha pele envelhece, pois quando moço já sou idoso. Os meus dentes já nem lembro... “Minhas vista” não tem óculos. Aqui tudo é magricelo. Quando engorda é doença. Comer fora ? No terraço...

Ah Sertão! Tu só paris gente feia, desnutrida, tão cansada, tão sofrida, tão explorada. Quando escreve, só o nome. Quando lê, o sobrenome. Sobrenome ? Sobrenome é coronel... gente humilde um apelido, zé, toin, biré.

Mão calejada, pé rachado, cabelo duro, coluna encurvada. Não tem pose, não tem moda, não tem glória, só trabalho. Ama tudo porque por tudo luta. Amo o chão, ama a caneca, ama o colchão. A roupa já virou corpo, o chinelo já virou pé, o chapéu já virou cabeça. Crescer só na estatura e olhe lá quando não virar anão...

Um remédio é uma conquista, uma escola um triunfo, o trabalho sua vida. Como tu és belo nordestino! E como dizem: “Antes de tudo um forte”! Tão discriminado, tão rejeitado, tão enojado. Ah, espíritos de porcos, vós não sabeis quem construiu esse Brasil! Vós não entendeis a vida dura, o braço forte, a consciência e a coragem de um nordestino! No nordeste sei quem sou, sei porque sou. O nordestino experimenta cada dedilhada de sua viola, cada apertada de sua sanfona. Tudo é muito intenso, tudo é muito único, tudo é muito divino. Conversa com bicho, conversa com a mata. Conversa com passarinho, conversa com a vaca. Quando a morte vem é mais um calo no coração. A alma chora, o corpo prende, tem que ser forte...

Oh Gonzaga, quanta saudade... Tu cantaste o teu povo, tua estória, tua pátria. Sonho de sertanejo é acordar vivo no outro dia pra poder labutar e criar filho.  Sertanejo tem família. Sua riqueza é o seu nome. Tem palavra, nunca foge. Tem decência. Na estante, só uma foto, preto e branca, desbotada, apagada. O filho nunca pede. Desde cedo aprende a conquistar o pouco que a vida lhe oferece. A vida deveria ter outro nome... desvida... invida...qualquer coisa. Pro sertanejo sempre serve qualquer coisa, tudo serve, tudo dá, tudo pode. Não tem escolha, só engole, desce seco, sempre engasga. Quando morre é um alívio da desvida que o matou.

Josué Mendonça
Enviado por Josué Mendonça em 21/03/2006
Código do texto: T126604
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Sobre o autor
Josué Mendonça
Salvador - Bahia - Brasil, 36 anos
52 textos (2263 leituras)
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